Rei Édipo de Sófocles pela ESAD de Málaga, ou o XI Festival de Teatro de Tema Clássico no Museu Machado de Castro

Museo Gregoriano Etrusco, Edipo e a Esfíngie de Tebas, Kylix, c. 470 AC

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Publicado no Diário de Coimbra de 15 de Julho de 2009

As imensas diferenças que nos separam da sociedade grega e a funesta erosão da história (as guerras fratricidas e a insensatez tão trágica da humanidade em preservar a paz, a justiça e a concórdia) fazem com que as prodigiosas realizações helénicas nos apareçam sempre como visões de um mundo crivado de complexidades, mas fascinante.
Sabemos que o teatro na Grécia antiga não era um simples divertimento ocasional e representava, outrossim, uma série ordenada de celebrações que tinham tudo a ver com o civismo da polis, a sua religiosidade e toda a vasta gama de padrões morais e sociais do seu tempo. No caso da tragédia conduziam o espectador pelos itinerários da sua emoção profunda até às culminâncias da katharsis, no “alinhamento ético entre as emoções e a razão”, ou na “harmonização das mesmas emoções com as percepções e juízos do mundo”.
Mais perto de nós, e na actualidade, a mesma sociedade que é capaz de reunir em Madrid 85 mil adoradores dum pobre (???) rapaz da Ilha da Madeira, dono duma inteligência muscular de sonho, escutando em apoteoses de delírio inútil o seu próprio espanto de discurso vazio, traz-nos de Málaga um grupo de estudantes de arte dramática encenando o Rei Édipo de Sófocles.
Os espectadores presentes seriam cerca de mil vezes menos mas emocionaram-se muito mais profundamente, tendo desfrutado das vantagens de uma noite mágica e muito mais fresca que a tarde das confusas paixões de Santiago Bernabeu.
O espectáculo decorreu no belíssimo enquadramento do pátio do Museu Machado de Castro, cercado pelo clima quase ateniense de uma colina ornada pelo “horizonte de perros” e de sinos que pela noite entrante vieram dizer-nos a seu modo que a hora e o drama estavam de visita e que nos tocava a nós vivê-los em toda a sua intensidade.
O grupo de estudantes malaguenhos da Escuela Superior de Arte Dramático teve uma prestação notabilíssima pelo seu rigor e, essencialmente, pela paixão de visceral entrega ao labor de representação teatral.
Estiveram presentes um conjunto magnífico de vozes em cuja solidez expressiva não será despropositado reconhecer a pujança genética das grandes tradições do cante andaluz e a intensidade sanguinolenta das celebrações da Paixão, recheando de contradições e complexidades o bem proporcionado recinto e o esplêndido pórtico.
O prólogo desde logo nos confronta com exigências de castigo justo por crimes infamantes, e que motivação mais actual do que essa, mais tremendamente adequada para justificar que nos debrucemos sobre suas causas e efeitos?
Não fugindo a um enquadramento próximo do imaginário clássico, sem interferências de “actualidade” provocante, a impressionante encenação que nos veio de Málaga tão vigorosamente interpretada pelos seus jovens não deixa de rematar com uma silenciosa cena de “apropriação” sorrateira do poder por um personagem que – como todos os políticos de sucesso – consegue sobreviver às tragédias de todos os outros homens e cingir de forma “oportuna” a sua testa com os seus símbolos máximos.
É um apontamento subtil, já fora do texto e depois de consumada toda a tragédia, que nos dá a entender que estes estudantes e seus mestres não são apenas académicos conformados, mas cidadãos preparados para abordar criticamente a essência da realidade, deixando disso um testemunho precioso e eloquente.

Oedipus Rex. 1922. Oil on canvas. 93 x 102 cm. Max Ernst

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