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O GLACIAL – Setembro a Dezembro de 1968

Fonte: O GLACIAL – Setembro a Dezembro de 1968

O GLACIAL – Maio a Julho de 1968

Fonte: O GLACIAL – Maio a Julho de 1968

Glacial – 1967, os primeiros quatro números

Fonte: Glacial – 1967, os primeiros quatro números

Onésimo Teotónio de Almeida / 2006 – sobre Rogério Silva no Jornal de Letras

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foto Sara Augusto

Ao Rogério Silva encontrei-o eu pela primeira vez na Horta num mural. Já ouvira falar, mas o conhecimento não dava ainda para descobri-lo ali naquela parede da Insulana numa estilização de baleias, baleeiros e Pico. Quedei-me na contemplação dos traços dinâmicos fora do tradicional e não sei já o que lá fora fazer. Depois, percebi as semelhanças entre aquelas cores e motivos e as capas da revista Gávea que pela mão do Rogério, Almeida Firmino e Emanuel Félix, nos anos cinquenta (criança nessa altura, eu só a conheci passados anos) tentou acordar Angra de uma letargia antiga. Mas quem sobre o pintor mais me badalou ao ouvido em letra de forma foi o Carlos Faria, que nos porões dos navios trazia de Lisboa medicamentos de mistura com telas e poemas. Dos medicamentos, as farmácias saberão. Os poemas, esses via-os plantados no suplemento “Glacial”, de A União, onde o Karlos Faria com K fazia leitores jovens como era eu vibrar de espanto. Volta e meia, o Karlos clamava no deserto anunciando o Rogério e a nova arte que ele desbravava no arquipélago.O Karlos trazia quadros e mais quadros. Ele e o Rogério não se cansavam de organizar exposições em Angra e ilhas adjacentes. O Rogério, pedagogo pacientemente didáctico, acompanhava visitas guiadas para adultos, jovens e crianças de escola. Foi assim que em Angra tivemos acesso a trabalhos do António Palolo, Bartolomeu Cid, Artur Bual, Nadir Afonso, Costa Brites, e do próprio Rogério Silva, que beneditino se fizera apóstolo das novas formas estéticas pintando quadros com os Açores em movimento a procurar vencer o marasmo secular ilhéu – moinhos de vento de velas enfunadas, baleias astutas domadas por ainda mais astutos baleeiros, nuvens agitadas descobrindo céus e anunciando azul para um futuro breve. Entretanto, perdi-me uns anos por Lisboa e noutros livros.

Nos alvores da década de setenta, já com os costados na Nova Inglaterra, descobri-me de súbito novamente vizinho do Rogério. Aconteceu numa festa num parque em New Bedford onde os também hoje saudosos Manuel Bettencourt Silveira e Heldo Braga reataram entre nós o laço que os mares haviam desatado.O Rogério fervilhava de ideias. Fui a sua casa onde pintava uma New Bedford que, insistia o Heldo em livro de poemas (nunca publicado), um dia veria crescer rosas em Novembro.

O Rogério acreditava e pintava. A escola do seu bairro, ali à Coggeshall St, os arranha-céus de azul límpido por detrás da wasteland de ferro-velho, imigrantes divididos e distraídos no jogo em tardes de tasca-sem-fim. Mas sempre as cores luminosas e os traços firmes apontando para futuros optimistas a emergirem do caos, ordem e tranquilidade a renascer de caixotes opressivos evocando fábricas escuras e tristes – onde ele aliás suou copiosamente. Vieram planos. A editora Gávea-Chama, lugar da primeira edição do meu Ah! Mònim dum Corisco!, depois a ideia da revista Gávea-Brown que ele quis muito fosse continuação do antigo projecto Gávea.

Integradas em eventos gerados pelo entusiasmo dos meus verdes anos, surgiram exposições da sua obra por aqui e por ali, causando admiração porque um greenhorn supostamente não pintaria assim – Brown, Cambridge, Boston e outros lugares que não recordo com exactidão porque escrevo de cor, em férias, surpreendido pela notícia da morte do Rogério e sem poder recorrer a nada a não ser o que a memória guarda na caixa do pronto-a-lembrar.

Espantoso de ver era a minúcia com que o Rogério preparava cada exposição até ao pormenor da maquete com reproduções em miniatura dos quadros, a caixa que ele construia para cada pintura que ele próprio emoldurava, tudo num primor de perfeição chinesa.

Entretanto, os anos foram passando. Era preciso que o Rogério deixasse de ser de um mundo que já não existia – o dos Açores que o moldaram – e palmilhasse Américas despudoradas para se fazer presente, convencer galerias a exporem os seus quadros, conhecer os meandros das bolsas ou investir dinheiro que não tinha para que a sua arte fosse (re)conhecida. O Rogério chocava-se porque “a arte é arte e não se suja”. Pelo menos a arte do Rogério, ou tal como ele a concebia. Esquecia-se de que mesmo Miguel Ângelo, Rafael e Leonardo nada teriam feito se não fossem os mecenas – papas, cardeias e duques com a grana que paga as tintas e mata a fome ao artista. O Rogério não acreditava. Nos Açores do seu tempo, tudo fluía sem massa, embora não se esquecesse nunca do facto crucial de ter sido por um mal-entendido nessa matéria que fora ele próprio bater com os ossos nos States, quando um Instituto lhe pediu um trabalho como devia ser e ele despendeu a soma que achava necessária por exigências da arte em si. Chegada, porém, a conta, minguou o dinheiro porque ninguém alguma vez supusera que as coisas da arte custassem assim tanto, e o Rogério deu de repente consigo numa fábrica de New Bedford para poder pagar a prestações. E, todavia, ele sonhou sempre com o regresso porque, nos seus idílicos Açores, a Cultura, e sobretudo a Arte, escreviam-se com maiúscula, em letra pura, quase sobrenatural. Se nos Açores o asceta Rogério vivia nas nuvens, em New Bedford viveu das nuvens.

A última vez que me cruzei com ele aconteceu em Vila do Porto, Santa Maria. Tinha realizado o sonho do regresso a casa (nascido no Faial – em 1929, creio eu – , era à sua adoptiva Angra que chamava pátria) e viajava de ilha em ilha, de novo apóstolo da arte ensinando nas escolas o que ela é e como se faz. Mas a desilusão estava-lhe plantada nos olhos.

Os tempos haviam mudado e também ele não reencontrara a ilha de onde em tempos partira. A seu ver, a arte estava bastante conspurcada, vendia-se e comprava-se por alto preço. Por todo o lado encontrava banha de cobra a valer fortunas, e as gentes estonteadas com a pimenta das Índias europeias, chegada de Bruxelas em chorudos pacotes, construiam casas de paredes amplas a exigirem pinturas a metro. Qualquer Chico Esperto agarrava de um pincel e, logo ali, com a mão direita rabiscava umas patranhas, enquanto contava cifrões na algibeira com a esquerda.

Para culminar o desaire, a sua ideia de arte como missão esvaíra-se com os tempos, a linguagem artística era outra, os rostos idem, e o Rogério sentiu-se peixe fora das suas águas familiares. O Rogério também não se sentia mais da sua terra. New Bedford estava definitivamente longe, e a Lusa, seu arrimo sólido, incondicional apoiante e dedicadíssima companheira, escondia uma doença que a levou.

Nos anos que se seguiram, o Rogério deixou de existir para o exterior, e porventura para si próprio. Enconchou e fez-se lapa na pedra da sua memória, sem nunca mais abrir para ninguém. Agora chegou de Angra, via João Afonso – talvez o seu mais perene amigo – a notícia de que partiu para um outro mundo.

Partiu nada! O Rogério nunca viveu neste. Se partiu, foi para onde sempre esteve. Quem, como eu, teve a sorte de o ver, foi apenas contemplado pelas suas aparições. Que ficaram indeléveis. Ajudadas, naturalmente pelos seus quadros, memória viva dele a lembrá-lo diariamente lá em casa. Ou em qualquer lugar. Como aqui mesmo, neste mar algarvio, sem baleias.

Onésimo Teotónio Almeida – Alvor, 27 de Junho de 2006

carta aberta a Rogério Silva

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Caríssimo Rogério Silva,

O trabalho que fizemos nestas páginas com a melhor memória que guardo do vivido e  com tudo o que me deixaste de real e de imaginário está finalmente à vista de toda a gente, isto é, de todos os que tenham a virtude e a vontade de o encontrar e de o contemplar com a mesma vontade e com o mesmo carinho com que foi feito.

Abro esta carta estreitando-te sem mais delongas no mesmo abraço fraterno de quando nos encontrámos e de quando nos encontramos agora. Nós, e nada há a esclarecer a esse respeito, somos daqueles que muito conversam, que muito se encontram e que continuarão a encontrar-se sempre. O meu abraço, tu já o sabes mas é necessário dizer claramente aos nossos visitantes aqui, serve para me congratular com o volumoso sucesso do teu trabalho e os frutos abundantes da tua generosidade que, conforme reafirmo mais abaixo, foram plenamente conseguidos.

Tudo o que fizeste foi visto, apreciado e valorizado por todos os que tiveram a capacidade, a vontade e o gosto de estar presentes. A tua missão foi vasta e preciosa e o fruto dela ficou no coração de todos esses que fomos, não eu nem tu, mas “nós”; Um grupo numeroso de gente, terra fértil em que germinou o teu exemplo. Serviu muito e continua a servir. Como digo noutro lado os Rogérios Silvas fazem falta por todo o lado.

Os Rogérios Silvas são semeadores de sensibilidade, são os que empurram a marcha do homem para a frente. Se poucos os imitam, se poucos seguem o seu exemplo de generosidade desprendida, um dia aprenderão, um dia o farão. E tu, nesse dia, estarás com eles na coragem da tarefa e na alegria da realização. Os Rogérios Silvas são aqueles que inventam a coisa mais simples de inventar: a generosidade de fazer na prática o que se transporta no coração. Há muitos corações infelizmente ainda dormentes no vazio, como há outros em que habita apenas a vontade inconsequente. Mas há um belo dia em que aqueles raros corações que transbordam de sonho e de vontade do sonho são assaltados pela coragem de entregar a obra feita, a atitude concreta. E o melhor das coisas acontece, embora às vezes poucos sejam os que dão por isso.

Já há muito tempo que sonhava fazer estes sítios na net, e tinha medo – com o meu olhar um pouco desfocado por todo o tempo que estivemos longe e calados – de dizer o que não tinha interesse, o que não convinha, de te desagradar em suma, ou de te causar desgosto, o que seria ainda pior. Das tuas terras entretanto não me haviam chegado sinais concretos de memórias maduras e bem conservadas a teu respeito. Resolvi por isso perder o receio de fazer mal o que outros não fizeram, pura e simplesmente. Por um conjunto de razões que hoje não vamos abordar aqui, mas que são substanciais – como agora bem sabes – fomo-nos aproximando mais e mais e a tua ajuda foi preciosa na realização do trabalho. E só por isso pude fazê-lo da forma como está feito.

Quando te conheci em 1969 foi como se tivesse chegado junto de uma grande árvore frondosa, daquelas que tanto me impressionavam quando era miúdo e que tanto ainda me impressionam até à mais profunda comoção. Como frondosa árvore já te achei completo, com dramas, cicatrizes, zonas sombrias e tudo. Abriguei-me no lado do sol, das flores e dos frutos, que foi o que mais abertamente me ofereceste, sem me teres escondido que aquelas outras coisas menos prazenteiras também existiam.

Houve uma coisa que não correu tão bem como eu desejaria. Quem me pôs a trabalhar nos Açores mandou-me para Ponta Delgada, longe de ti. Foi preciso que um outro amigo, o Carlos Faria, tivesse andado por lá de um lado para o outro e servisse de pombo-correio da nossa bela amizade. Acabou tudo por resultar bem, Rogério. Acabei por conhecer-te e acabei por me dar-te a conhecer. Outra coisa que também não correu perfeitamente bem foi teres-te calado tanto, quando regressaste da América. Estavas cansado e triste, eu compreendo. Nem vou alongar-me na consideração de tantas coisas que poderiam ter sido diferentes. O momento a que chegámos é um momento de plena alegria e de celebração dos resultados que atingiste.

Nas recordações que tenho das coisas que me deixaste na tua última visita, estão fotografias de tarefas tuas que julgavas prova de idoneidade na realização de acontecimentos artísticos e outras duas fotos de acontecimentos na tua galeria. Nas costas de uma dessas fotografias está, com pequenos traços a lápis já diluídos pelo tempo, um esquisso que fizeste pelas tuas próprias mãos – ao longo da revisitação da memória – de uma planta da Galeria de Arte Gávea. Lá está a entrada da rua, o apontamento das escadas que subiam para aquele primeiro andar do nº 6 da Rua Pero Anes do Canto e a disposição singela das três salas de exposições com ordenação numérica inscrita por ti: 1, 2 e 3. Nunca fui a Angra do Heroísmo e só agora, com os milagres da internet, tenho a noção exata do local e até uma boa sucessão de imagens daquela rua onde estava a pequena casa com as suas três salas de exposições. A porta com o número 6 não consigo vê-la, e até é bom que permaneça assim, como coisa provavelmente desaparecida.

Gal Gav

Um bom número de pessoas tem tido notícia dos entusiasmos da visitação das artes que ocorreram na Galeria Gávea e daí ao mito vai um passo. Nada é igual ao que o sonho pode configurar na sua visão abstrata e impressiona como uma aventura tão contagiante pode ter-se expandido a partir dum lugar tão modesto. Isso deriva, Rogério, de todo o principal dos gestos humanos estar escondido na vontade sonhada, no desejo embalado pela esperança.

Parabéns Rogério, foi isso que fizeste. Nem os milionários centros culturais, nem as formidáveis fundações, nem os poderosos patrocínios conseguem fazer melhor, nem tanto, nem tão bom: perdurar no tempo e na memória de muitas pessoas como algo vivo e contagiante. Nenhum, que eu saiba, consegue ser tão autêntico, tão cabal, tão liberto da arrogância do poder, tão luminosamente desprendido como tu. Não é o dinheiro, não é o poder nem os mecanismos da propaganda organizada que fabricam o mito, que alimentam a esperança e – muito menos – que ajudam o homem a acreditar em si mesmo como alguém que pode mudar para melhor, ajudando outros a acreditar também. Parabéns Rogério, foi isso que conseguiste. O teu trabalho foi o que foi, não há que contá-lo nem mais largo, nem mais alto, nem imaginá-lo diferente do que tinhas dentro de ti mesmo, comandado pela força metódica do teu espírito e pela determinação da tua vontade.

Que nenhum dos teus amigos, fragilmente lamuriando no intervalo no sonho, diga alguma vez que tudo acabou como talvez não devesse ter acabado. A tua tarefa não acabou, os Rogérios Silvas não desistem nunca, o teu trabalho foi plenamente conseguido e os objetivos que alcançaste formidáveis!… É isso que eu tenho ouvido a muita gente e, mesmo que não tenha sido verdade tudo, ou que tenha sido verdade de outra maneira, foi enorme.

Nós, pelo canal que bem conheces, não precisamos de nos despedir. Até já, Rogério.

José

um desenho original, a negro, de Rogério Silva (“esquecendo tempestades”), resultante de uma colaboração entre nós ambos (ver, por favor, Rogério Silva visto pelos meus olhos).

um desenho original, a negro, de Rogério Silva (“esquecendo tempestades”), resultante de uma colaboração entre nós ambos (ver, por favor, Rogério Silva visto pelos meus olhos).

 

Um reencontro, passagem para diante

Pintura, acrílicas s/ tela, 100 cm x 89 cm, Holly Wood 2008, Costa Brites

Pintura, acrílicas s/ tela, 100 cm x 89 cm, Holly Wood 2008, Costa Brites

Por artimanhas da contemporaneidade digital fiquei sem página pessoal, o que – numa certa ordem menor das ideias – é uma condenação à insignificância e ao silêncio, isto é, à morte.
No seio da minha cultura antiga (quer dizer, presente e actual) a morte não é o fim. Antes pelo contrário. Primeiro porque todo o saber frutificará, toda a semente germinará, todos os gestos serão reencontrados.
A primeira transcrição verídica deste facto está no seguinte: ao realizar uma viagem de regresso a imensos sinais do meu labor, encontro tudo. Passagens, saltos, atrevimentos, desejos e nem é preciso avançar para esse outro território que os poetas atravancaram de gente confusa e perdida: o sonho.
Nunca me encontrei a gosto ali. Não tive tempo nem paciência. Muito talento ocioso e sem destino.
O sonho para mim é um lugar que sempre se menciona, mas um chão que se pisa sempre de passagem.
Amar, o que se diz amar, não se pode realizar em sonhos. Fazer filhos é um sonho, isso sim que é um sonho. Contudo os filhos não são “chão nosso”. O chão assim sonhado, é deles. Essa é a única modalidade valiosa de sonhar: Construir, dar vida, passar adiante.

Este lugar digital é, pois, uma tentativa de ser. Um reencontro com coisas que, se não forem ditas a tempo, não terão existido. Para os outros, claro. Para mim, não só tornarão a ser, como sempre se renovarão e transformarão infinitamente.
Ao reencontrar os gestos, os passos dados; ao revisitar as visões elas são sempre uma metamorfose de outra coisa mais simples e imediata. Uma visão revisitada oferece mais e melhor. Mais completo, mais significativo e sempre diferente.
Isso confirma plenamente aquilo que disse no começo: toda a semente germinará, todo o saber frutificará. E os gestos reencontrados terão um desenho mais aberto. O riso ecoará pelas paredes do tempo em harmónicos mais complexos; As palavras terão descoberto novos significados.
E mesmo que ninguém venha de visita, o que aqui fica não é do sonho. São factos vividos, passagens para diante.

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Um artista pode ser muitos

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Ah, não ter sido Madame de harem!.../desenho s/ Steinbach-Malmedy c/ aguada de acrílico/ Costa Brites 1995

Ah, não ter sido Madame de harem!…/desenho s/ Steinbach-Malmedy c/ aguada de acrílico/ Costa Brites 1995

Há artistas cuja obra é como um grande continente, com suas estendidas paisagens, suas colinas, vales e todo o género de variados horizontes. Se desfrutam dessa “condição continental” é porque apresentam consigo um nexo entendível de continuidades, podendo passar-se daqui para ali tendo a impressão de que se estar a pisar “terreno vizinho” em coerência de entidades legíveis. Haverá outros artistas cuja produção é como um arquipélago de ilhas bem diferentes, cada uma com o seu clima, a sua atmosfera particular, tendo entre si a vastidão de intervalos diferenciadores de atitudes correspondentes não apenas ao teor do instante ou da circunstância. Cada ilha decorre de uma continuidade diferente, como se não fosse apenas o corpo, mas a cabeça, o coração e a vontade que as diferencia entre si. É deste género de pluralismo que se alimentam certas vontades e, se me for permitido assumir uma destas configurações, é a segunda que melhor diz respeito ao tipo de viagens que tenho empreendido através do “largo mar do silêncio”.
A cada uma dessas independências corresponderá o que se poderá chamar um heterónimo, porque se trata de uma entidade própria, específica, com gestos, argumentos e toda uma autonomia significativa e expressiva. São como autorias diferentes, ficando à argúcia de quem contempla confiada a tarefa de adivinhar ou decifrar laboriosamente qual é o profundo leito de convergências que liga entre si tal espécie de diversidades. Este endereço vai procurar apresentar de forma tanto quanto possível organizada essa variedade, talvez só aparentemente descontinua, de formas de ver coisas através do olhar da imaginação. O meu arquipélago de continuidades distintas que entre si partilham segredos comuns, cuja travessia pode efectuar-se com uma animada agitação da brisa e das vagas, sem o risco de naufrágios, na companhia de monstros amáveis e de aves de plumagem variada cujas garras não ferem ninguém, e cujo grito apenas clama por quem queira atravessar também a frescura espaçosa do mar da curiosa confidência.

Costa Brites

Ah, não ter sido Madame de harem!.../grafite e acrílico s/ tela/ Costa Brites 1996

Ah, não ter sido Madame de harem!…/grafite e acrílico s/ tela/ Costa Brites 1996

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Meninos e desenhos de Montemor-o-Velho

– Palavras para uma mão cheia de bonecos feitos  em 2012 que poderão ser vistos nas paredes do agrupamento de escolas em Montemor-o-Velho.

Três painéis pintados a acrílico s/ linhagem de algodão 2,72 m x 1,70 m, aprox.

Embora me considere genericamente impreparado para os tipos de actividade que solicitam uma interactividade criativa, colecciono na memória várias atitudes que abrem para o desejável e sugestivo espaço de encontro entre pessoas com sensibilidades e graus de experiência muito diferenciados.

Entre elas coloco a experiência de pai e avô, pacientemente habituado a envolver filhos e netos no prazer das tintas e dos desenhos, com histórias, invenções e todo o tipo de achados que esse exercício prodigaliza e de que consegui dar provas em mais de quarenta anos de paternidades, vidé o capítulo dedicado, aqui ao lado, à colaboração com o meu neto Flávio.

O convite dos jovens do grupo Olarte, composto por alunos do agrupamento de escolas de Montemor-o-Velho em trabalho de fim-de-curso, chegou-me numa altura algo conturbada de mudança de local de residência. Além disso já me sentia fora do período em que a aceitação dum tal convite parecia possível, no âmbito dos meus préstimos artísticos. Estando para mudar de casa já tinha deitado fora uma numerosa colecção de godés de vidro e de louça de que me servia no exercício da pintura, entre outros objectos e materiais.
Aceitei, contudo, em nome de um voluntarismo inseguro, baseado no tipo de argumentos apresentados pelo grupo candidato (A Carla, o Gonçalo, a Joana e a Vanessa) e não menos pela já antiga consideração pessoal pela sua professora, Senhora Dr.ª Fátima Almeida.

Carla, Gonçalo, Joana, Vanessa

Carla, Gonçalo, Joana, Vanessa

Construí na minha mente, a partir do momento inicial da minha disponibilidade, uma variedade de cenários de acção ou processos de fazer que, longe de me tranquilizarem, aumentaram o sentimento de insegurança.
Durante a primeira visita que realizei ao agrupamento de escolas de Montemor-o-Velho houve um momento providencial: o encontro com meninos criadores de uma turma dos primeiros anos em plena aula de educação visual e bem assim a descoberta de um considerável conjunto de obras – para mim a vários títulos impressionante – que iam alimentando gavetas de desenhos, de nítido pendor lúdico, candidatos a uma limpeza geral de fim de ano e quase fatalmente destinados a desaparecer por efeito do sentido prático das arrumações, esse trágico algoz de tantas preciosidades raras oriundas do gesto despreocupado e simples das crianças.
O testemunho dos desenhos “infantis”, visto pelos meus olhos, resulta numa leitura implacável e eloquente de uma quantidade enorme de sinais e situações bem dentro da lógica dos sistemas de que somos mais objecto que sujeito e cuja decifração ou ultrapassagem raramente se faz nos termos de franqueza perceptiva que esses mesmos desenhos tornam clara.
O trabalho que se seguia era simples: matéria-prima não faltava e estava construída uma ponte formidavelmente eficaz entre o deslocado universo das solicitações artístico-intelectuais e o palpitante presente das emoções juvenis.
Algo de novo ou descoberta surpreendente? Não, as coisas não são assim tão simples.
Entre o delírio de ritmos alucinantes que a televisão impõe a certas sequências e o velho sedimento de narrativas que a antiguidade clássica transformou em mitos universais há uma infinidade de linhas misteriosamente ocultas, um nexo de fábulas, impulsos e requisitos da sobrevivência e frescura da mente que são perfeitamente equivalentes. Nada que assuste os artistas, tenham eles a idade que tiverem, sejam eles do tempo dos avós ou dos netos; se falarem a mesma linguagem e estiverem habituados a decifrar os mesmos sinais, tudo é claro como água.
Depois de alguns passos dados na fabricação dos objectos a realizar e discutidos quais os temas a desenvolver foi preciso dar ao artista convidado algum tempo para concluir as conclusões entendidas como adequadas.
Só me ocorre dizer uma coisa, no esclarecimento do que acho mais importante:
O material que me foi apresentado era naturalmente singelo e espontâneo na sua confecção e estava caligraficamente traçado a lápis sobre folhas simples de papel branco. Num ou noutro caso raro, para atingir maior espaço narrativo, algumas folhas haviam sido anexadas a outras, com fita-cola.

mosaico desenhos crianças a lápis

Mosaico composto com desenhos simples sobre folhas A-4, a lápis de pau, dos meninos de Montemor-o Velho

A expressão dos desenhos dos meninos de Montemor-o-Velho, além de eloquentíssimos na explicitação de universos de densa complexidade, constituía uma captação viril, intensa até ao dramatismo, de tais sinais e de tais argumentos narrativos.

Só não vê quem não quiser olhar, quem vire o rosto para o lado e decida ignorar esses impressionantes ecos da realidade e das circunstâncias.
Na tradução e na síntese que fui levado a fazer de tal aglomerado de sinais, fui irresistivelmente conduzido a imprimir o meu próprio sentimento das coisas, à maneira das mesmíssimas atitudes que me fazem levar pela mão os meus netos através das veredas do sonho e da fantasia. (“Tradutore, traditore” e é bem certo dizê-lo neste como noutros casos em que uma mensagem muda de lábios…)

Transfigurei por isso os mais alarmantes sinais do espanto, da violência e do medo (porque é substancialmente disso que se fala nas “ingénuas” séries televisivas e revistas de super-heróis que maciçamente são prodigalizadas dia a dia às crianças deste e doutros países) e coloquei no rosto dos bonecos adoptados como interlocutores privilegiados do sonho uma fisionomia leve, um sorriso aberto, entremeados aqui e ali por aberturas problemáticas para um pitoresco de combates sem mortos nem feridos, demónios de dentuça arreganhada que empunham impiedosas armas de corte (é assim que se diz nos jogos de guerra com que risonhamente brinco com o meu neto) e uma ou outra alusão do meu próprio universo de razões, que involuntariamente se me escapou…

Tenho pois que pedir perdão aos meus queridos e novos amigos de Montemor-o-Velho, por ter despromovido o combustível de pavores de que é feita a gentil bonecada com que se encantam.

Como poderia fazer de outro modo se são tão jovens e belos, desejando-lhes – como desejo aos meus próprios netos – um futuro de risonha liberdade e um passeio pela vida que lhes sirva a paz, a confiança e a mais segura felicidade.

Agora vamos ao fruto desta tarefa (colhido depois de meses de trabalhos e encontros) :

OS ALEGRES MAGOS E PARADOX

os alegres magos e PARADOX

os alegres magos e PARADOX

SKAI DRAGON E OS ARTISTAS AUTORES

SkyDragon e os artistas autores

SkyDragon e os artistas autores

A PARÁBOLA DO ASTRONAUTA

a parábola do astronauta

a parábola do astronauta