Category Archives: Flávio, artista e amigo meu

Trabalhar em artes com as crianças, uma prospecção vocacional? É mais e muito melhor do que isso!…

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O trabalho que uma criança faz com todos estes materiais e o resultado que produzem, sugerem a algumas pessoas que se trata de uma sondagem de inclinações ou vocações futuras.
Julgo que não vale a pena pensar nessa relação directa, seja em que sentido for.

Há crianças muito activas e que são julgadas muito “bem sucedidas” até certa idade, apenas porque produzem uma mão cheia de papéis coloridos que enchem de prazer e de esperança ingénua os respectivos papás. Que “desponta uma vocação”, que “o menino tem muito jeito”, coisas assim… Dois ou três anos depois o rapaz ou a menina nem olha para os pincéis nem para as cores, não “perde” um minuto a desenhar, não pinta que seja uma rudimentar carantonha, perdeu toda a curiosidade, os “dotes” e o “jeitinho” não passam duma lembrança breve, já esgotada.

Será então que foi tudo debalde? Claro que não!…

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Primeiro, julgo que será dificílimo trazer uma criança a tarefas deste género se ela for inteiramente alheia às mesmas, ou não saiba retirar prazer delas.
No caso afirmativo, o trabalho feito na área da expressão criativa é sempre de aproveitar porque conduz a criança à aquisição de certas operacionalidades psico-motoras e intelectuais importantíssimas, aproveitando o prazer que tem nisso como estímulo valorizador da sua actividade.
Operacionalidades essas que, só por conjugação de circunstâncias imprevisíveis, irão acordar “a vontade da arte” mas que, num caso ou noutro, servem sempre como processo estimulante das capacidades gerais do menino e das aptidões de que necessita para aperfeiçoar e melhorar a sua adaptação às complexidades do mundo.


Para o adulto, por seu turno, exercer a capacidade de “fixar” a criança à laboriosa tarefa de brincar alegremente, produzindo trabalho “sério”, não deixa de ser um desafio de certo nível de dificuldade,
premiado geralmente de forma muito expressiva pelo entusiasmo participativo, pelo ensejo da convivência e pelo privilégio da alegria

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O fim de muitas histórias é igual ao começo de outras tantas


Entrávamos aqui numa área de alargamento muito importante dos conceitos e das formas de trabalho ao alcance destes e de outros amigos colaborantes e activos no domínio de certas artes!…
O espaço disponível existe, os materiais abundam e a imaginação duma criança é um dínamo poderoso, aquilo que mais se aproxima da noção utópica do “moto perpétuo” ou máquina excelente sem perdas que não resultem em proveito puro!…
A vida do mundo é contudo cheia de limitações obrigatórias e incontornáveis.

A preciosidade dos convívios entre qualquer avô e qualquer neto só fazem sentido na sua condição de intervalos raros abertos pela fragilidade do sentimento nas duras determinações da vida concreta e obrigatória.

É nessa qualidade que persistem nos lampejos da memória frágil, tesouro escondido por piratas imaginários, em ilhas secretas que não vêm nos mapas, nas Antilhas dum sonho que o futuro apenas recordará se um certo menino puder e se um outro adulto quiser.
Sempre diferentes na circunstância, sempre iguais no seu destino de almas gémeas.

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As duas fotos apresentadas foram feitas por José Paulino Brites, tio do Flávio.

Textos escritos para serem publicados no dia 18 de Agosto de 2006, dia em que fez cinco anos Flávio Guiné Brites – um artista amigo meu!…