Category Archives: Flávio, artista e amigo meu

Trabalho eu, aprendes tu; trabalhas tu aprendo eu; e quem mais brinca mais aprende!…

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foto tirada pelo tio Zé Paulino em 2005

foto tirada pelo José Paulino da Costa Brites, tio do Flávio, em 2005.

Uma “experiência de aplicação dos tempos livres na educação artística”? Uma “exploração psico-pedagógica no domínio das artes plásticas” ? Uma divagação a respeito da “arte infantil”? Se é quase isso, também não é preciso exagerar. O que nos trouxe aqui foi um enorme desejo de brincar!

Neste registo de notas biográficas que estou a inserir na minha página pessoal, tem todo o cabimento que aqui traga as mais significativas vivências artísticas da minha vida. O convívio artístico com o meu querido neto Flávio em 2006 faz parte integrante delas. Se a ele lhe deram prazer, como é obrigatório admitir nas reacções insofismáveis de uma criança ainda nos seus quatro anos, para mim foram dos momentos mais apaixonados e apaixonantes que me coube viver. E não será necessário explicar porquê. Ora lede, se fazeis o favor.

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Preâmbulo curto, que não é obrigatório ler, mas que tem algum interesse

Tenho tido nestes últimos tempos uma experiência de tal modo interessante no domínio do entendimento e das competências da criatividade artística, que não resisto ao desejo de falar dela.
Envolve a esfera das minhas relações afectivas e a utilidade de alguns saberes do exercício das artes, naquilo que este possa ter de muito abrangente, muito limpo, muito livre.
Do que se trata, ao fim ao resto, é de um convívio de criatividades bem dispostas e sem horário de um avô com o seu neto, ou seja, das vivências de um artista que julga que pode sê-lo com outro que não perde um segundo sequer com questionamentos de tal ordem.

A pessoa do meu neto não é entendida nestes escritos como “aquele sangue do meu sangue”, ressonância duma emoção afectiva que teria sentido, ou não, no primeiro instante em que o vi, por efeito de mola oculta no compartimento de instintos que não reconheço.
Se é que o entendo como pessoa é porque comecei a conhecê-lo como tal, empreendendo esse caminhar conjunto que constrói as verdadeiras amizades. Se entre nós salta a chispa da alegria quando nos vemos é porque nos necessitamos reciprocamente na visão do mundo e de nós mesmos, sem pensar em contrapartidas que não sejam as da simples presença em si, isentas da complexidade de destinos futuros.
Esse é, creio eu, o alicerce indispensável para cumplicidades essenciais de solidariedade e de alegria que fazem do homem o ser complexo mas capaz de verticalidade e lucidez.
Postas as coisas nestes termos, não seria muito sério fazer fincapé em coisas do estilo: “experiência na aplicação dos tempos livres na educação artística” ou “exploração psico-pedagógica das artes plásticas” e, acima de tudo, evitar tocar na solenidade da “arte infantil” como pano de fundo para um tão bem disposto convívio entre dois amigos que se divertem muito porque se entendem bem.
Se tais expressões são utilizadas de forma abundante no sub-título deste trabalho, peço desculpa aos visitantes. A minha experiência na blogosfera indica-me que são essas as palavras que devo referir para colocar o visitante na pista do que possa interessar, sem que da minha parte (e muito menos do Flávio, um artista meu amigo) haja quaisquer pretensões de teorização dispensável.
Em suma:
Do que se trata aqui é duma coisa tanto ou mais importante do que vem em sub-título, pelo menos para os interessados:

– dois amigos que brincam com coisas a que acham muita piada, que gostam de se sujar com materiais diversos e se riem imenso depois, na casa de banho, lavando as mãos e atirando água um ao outro!…

Sem qualquer preocupação ilustrativa dos textos aqui publicados, irão ser inseridas imagens relativas à autenticidade dos trabalhos produzidos (e que foi possível “salvar” de acordo com o que mais adiante se esclarecerá…). Junto de algumas imagens, alguns considerandos feitos pelo camarada mais velho.

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Esta obra resultou de um momento de concentração do Flávio, perante um suporte em papel, utilizando pincel e tintas acrílicas de várias cores. Se falo de “concentração” é para salientar a importância da mesma em todas as experiências com crianças no domínio da elaboração plástica, como uma das conquistas fundamentais de todo o processo. Ela fará parte da aquisição de um auto-domínio com características especiais, de um “desejo de fazer” que obriga à chamada de várias capacidades da atenção, do gesto e, principalmente, da serenidade observativa.
Para aqueles que estão habituados a olhar peças de arte com sentido analítico, as manchas aqui configuradas quanto ao seu perfil, às suas modulações cromáticas e às intersecções ou sobreposições que evidenciam, demonstram uma autenticidade expressiva autêntica.
Tão autêntica, na sua verdade e na tensão interior que as anima, que poderiam figurar em qualquer exposição de artes plásticas ou galeria de pintura de vanguarda!

Vamos então ao que interessa

Descobri, sem ter tido grande necessidade de me esforçar, que havia um grande número de actividade que me eram habituais e que interessavam imenso ao Flávio, teria ele dois anos.
Para começar, não tive receio nenhum de o ver entrar no meu atelier, cheio da energia que a curiosidade faz nascer num menino daquela idade, que vacilantemente caminha em direcção a tudo que dá asas a uma curiosidade sem limites.
O privilégio foi meu de o deixar entrar naquele espaço tornado exclusivo por efeito de uma certa “liturgia do imaginário”, sem me deixar abater pelo receio de que algo terrível iria acontecer aos mil e um artefactos que por ali se distribuiam numa ordem predisposta, contrafeita, “organizada”.
Esse foi portanto o instante inicial duma frutuosa convivência que não hesito classificar de criativa, o que está demonstrado ao longo dos últimos três anos, mas que é muito mais do que isso: o encontro de duas pessoas que começam apenas a conhecer-se e que desejariam continuar assim, livres e apaixonadas por coisas simples como abrir uma lata de tinta vermelha e despejá-la em diversos frascos, enxaguando muito bem a lata depois, guardando-a para o que for preciso!…

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A água, mãe de todas as brincadeiras

Usando tintas de água na minha labuta de pintor, tenho já ao meu alcance o primeiro elemento vivo que se presta a incontáveis manipulações divertidas:

– encher o balde onde se vão depois lançando os pincéis já sujos;
– trazer o balde para junto da mesa e encher depois dois ou três frascos de vidro com água do balde, etc.
(esta última operação ganha imenso em ser levada a cabo através de uma borracha daquelas de lavar ouvidos que também uso muito, dado que especializa e amplifica o prazer de mexer na água!).
– as tintas das diversas cores que usamos não são apenas aquelas que estão em tubos, ou latas, ou frascos. Às vezes também é preciso produzir um determinado tom, a partir de um pigmento em pó, o que fornece uma variedade de manipulações arriscadas, mas deleitosas.
– no caso das cores que repousam há semanas ou meses em certos frascos parados, o ritual de cheirar a cor provoca sempre uma percepção específica da natureza do material, e um arrepio de prazer ou de repulsa (a que uma careta expressiva vem conferir o toque teatral a que se segue a gargalhada espontânea!…)
Rituais do género são sempre seguidos duma cuidadosa acção de remeximento, para que a emulsão ganhe qualidades úteis e expressivas.
No caso de artistas como eu e o Flávio tais delongas não são tempo perdido, muita atenção!…
É necessário, de acordo com o que é dito antes e com o espírito geral da nossa tarefa, deixar aqui uma ideia muito importante: o que nos anima e entusiasma em todo este trabalho não são os produtos finais, mas sim o longo itinerário percorrido e todos os seus acidentes.
Tanto valor tem entornar cuidadosa ou precipitadamente um frasco dentro dum balde, acrescentar duas ou três gotas de água dentro dum godé para aligeirar uma mistura, esvaziar uma lata de tinta dentro duns frascos ou remexer com gosto um pincel dentro dum frasco bem cheio de amarelo!…
Todas estas coisas cheiram, todas convidam à manipulação saborosa, todas envolvem riscos (uma ou outra camisola manchada previne-se vestindo os dois artistas um longo bibe branco, onde as nódoas coloridas vêm habitar como testemunhas duma alegria simples, mas conseguida).
Preparar o material, escolher as cores, cortar o papel, e nos intervalos cuidar sempre da limpeza e das arrumações.

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Este trabalho, como outro que se segue, resulta de um “traço espontâneo”, a azul forte, de autoria do Flávio, em que a escolha do suporte e respectiva cor proporcionam uma grande intensidade expressiva. Ao camarada mais velho tocou um aspecto muito lúdico e muito produtivo que dá prazer a ambos: a junção do elemento água!… Actuando de forma inteiramente automática ou muito reduzida oferece ao “operador principal” uma grande quantidade de acidentes que ora suscitam sorrisos e aplausos, ou as mais iradas reclamações!…
É de salientar que nos traçados destes trabalhos, o gesto criativo inaugural, são exclusivamente do meu amigo artista. Eu actuo perante ele como o “peão de brega” das lides taurinas ou como a “enfermeira instrumentista” das operações cirúrgicas. Faço um trabalho importante mas o génio, o saber sabido, é todo dele.
O tumulto dramático destes vultos é um testemunho eloquente desse facto.

Uma das regras fundamentais dentro do tal espaço “adulto” do atelier recheado de materiais secretos e “proibidos”, é pôr de lado todos os preconceitos e evitar a todo o custo as regras excessivas.
Os Flávios devem ter o direito de mexer em tudo, abrir todas as caixas, explorar todos os conteúdos!…
Mas essa liberdade não é um privilégio gratuito a que o camarada mais antigo possa assistir com preguiça, negligência ou desatenção.
A minha ideia é que esse processo de liberalização de atitudes tem de ser participada, enriquecida com a noção de respeito pelas coisas, para que elas sobrevivam ao prazer de serem usadas não uma só vez, mas muitas vezes!…
Deixar que uma criança se deleite com a destruição gratuita de objectos, sejam eles os mais humildes, abandonando-a ao sentimento permissivo duma certa excitação dispersiva, é um exercício mais que inútil: é muito grave.
O perigo duma tal situação representa associação de vários inconvenientes muito sérios, radica no espírito de quem a pratica uma perigosa insatisfação, tende a repetir-se noutros contextos e pode ajudar-me a referir uma das principais ideias que norteia o sentido das minhas experiências com o Flávio:
– No que toca à criança: é a brincar que se aprende a viver; é a brincar que se aprende a realizar trabalho sério; é a brincar que se aprende a valorizar o prazer naquilo que ele possui de energia vital organizada e inteligente!…
– No que toca ao adulto, camarada mais velho: é a brincar que se adquire o sentido mágico do renascimento de todas as coisas; é a brincar que a autoridade se habitua a prescindir da imposição forçada; é a brincar que a criança que habita em nós se apercebe de que o futuro passa pela disponibilidade sensível, cuidadosa e atenta, e que é esse o único esforço que podemos fazer para que o nosso conhecimento se transforme em inteligência futura!…

– Brincar com uma criança não é um exercício precipitado, episódico, casual. Brincar é estar atento, é acompanhar com amor cuidadoso e inteligência produtiva!…

Bibliografias e apoio especializado

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O comentário deste trabalho está incluído no anterior, com uma pequena nota que não deixo de mencionar para os interessados mais activos, e que tem a ver com o utensílio utilizado: em vez de um pincel redondo, um pincel maior e espalmado. È interessante variar os meios de execução, de registo e de suporte, porque a gestos semelhantes correspondem resultados diferentes, e isso também produz efeito na ideia que o artista tem das suas capacidades de intervenção e dos resultados que pode obter.

Devo neste ponto do discurso referir que não é esta a primeira experiência nesta área de interesses. Tive dois filhos de idades suficientemente diferenciadas para darem à tarefa o carácter de exercícios completamente distintos, o que foi acentuado pelas respectivas diferenças de temperamento.
Ambos passaram, contudo, pela elaboração de universos imaginários, de referências e experiências incontáveis.
Colecciono largas centenas de desenhos e pinturas, muitos anotados e datados, cuja produção revela horas sem fim de deleites vários e produtiva camaradagem.
Se li alguma coisa? Com que competência bibliográfica e apoio especializado?
Alguma coisa li, e ser casado com uma professora competente e apaixonada (a Vóvó Sãozinha) não deve ser apoio que se esqueça ou não se mencione com o mais significativo relevo.
Mas do que li (vários livros criteriosamente comprados pelas principais livrarias da cidade, era pequenito o pai do Flávio) já não me lembro praticamente nada.
Se é esse o espírito essencial da cultura (uma coisa com que ficamos depois de termos esquecido tudo aquilo que lemos) então sim, possuo certamente algum conhecimento credenciado. Mas nem nomes nem sólidas referências posso chamar agora em meu socorro.
Neste fazer, a matéria prima principal é feita de afecto, de gosto e duma imensa alegria em colocar experiências vividas noutros cenários ao serviço das magníficas causas do futuro.

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Este trabalho não apresenta na realidade uma aparência tão conformada como mostra a fotografia. Não passa de um elemento pintado e recortado previamente, ao longo das diversíssimas elaborações na nossa oficina, sobreposto a um fundo também colorido a vermelho pelo Flávio (por isso vibrante e com algumas résteas de negro). A conjugação de ambos (figura e fundo) beneficia dos vestígios da sua execução, das transparências de cor, a que o relevo de sombra na parte de baixo confere um toque indispensávelmente eficaz que nós, artistas como o Flávio e eu, lançamos magnanimamente aos olhos do mundo, como se fosse nada…

O “medo” da tela vazia e a regra fundamental de todas as brincadeiras

Postos perante o grande momento inicial da criação, ao qual muitos artistas se têm referido com um sentimento notável de angústia (o “vazio da tela branca”, o medo indescritível “de não saber fazer”)
concluimos rapidamente que é precioso o convívio com as crianças porque se desfazem instantaneamente fantasmas desse género.
Uma criança risca, mancha, constrói e desfaz com uma naturalidade tão imediata que faz bem ao espírito, porque nos limpa de preconceitos sem sentido.
O suporte não deixa de ser suporte, as tintas não deixam de ser tintas, mas cada vestígio do acto de brincar pode trazer-nos também a felicidade de nos dar a ver coisas novas, emocionantes e livres de toda a “impureza”.
Há na criança, evidentemente, aquela inevitável “procura do interdito”, o desejo de pintar “fora do papel”, entornar tinta num sítio “imprevisto”. Mas tudo isso faz parte de um jogo a que o camarada mais velho não deve furtar-se, o que me ajuda a configurar outro princípio básico, neste caso importantíssimo, da atitude sem a qual brincadeiras seriíssimas como estas são, jamais terão lugar:

No envolvimento entre uma criança e um adulto, terá este último de se deixar levar pelo essencial do espírito da criança, sem se esquecer que é um seu igual na participação, na alegria, no desejo e na disposição.
Pode (e deve) disputar com a criança no espaço respectivo de cada episódio lúdico, como se outra criança fosse, afirmando cada preferência como um direito ao “prazer do jogo”, ao “direito de brincar” e ao privilégio de “mandar”. Entre crianças está sempre pressuposta uma certa hierarquia, não isenta muitas vezes do fermento ingrato da prepotência intolerante. Aqui a atitude do camarada mais velho deve temperar a fatalidade de tais comportamentos com a maleabilidade forte que permite sublimá-los sem distanciar a criança da realidade, sem educar para a prepotência, a cobardia, a irresponsabilidade ou a anarquia.

Não há criança nenhuma que não reconheça instantaneamente no adulto a diferença essencial do que é uma participação envolvida e interessada numa brincadeira, por oposição àquela outra coisa indesejável que é a presença desajeitada, “tolerante”, meio impaciente meio autoritária, tantas vezes vencida pelo cansaço ou pelo aborrecimento!…

Para brincar com uma criança é preciso dispor duma frescura igual, ou tão semelhante na sua natureza, que a criança possa aceitar como genuína.

A generalidade das crianças é, a esse propósito, muito mais “tolerante” com as “insuficiências” dos adultos do que estes em relação àquelas.
É uma questão de necessidade: a criança brinca com quem pode, não brinca com quem quer!…
O mais dramático é que tenha, muitas vezes, que estar a brincar sozinha fazendo de conta que não o está.
Muitas e muitas vezes é esse o cenário que se repete. Todas as crianças passaram por isso muitas vezes, sem que isso as tenha prejudicado, felizmente, de forma definitiva.
Mas esse prodígio deve-se mais à frescura das crianças que ao talento dos adultos e o melhor seria que tudo fosse condizente com a alegria que premeia ambas as partes, representando cada uma o papel que lhe cabe, com satisfação genuína.


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Seria injusto não dizer algo a respeito desta obra, dado que ela atinge um nível muito complexo de composição cromática, cuja autoria – para quem tenha olhos para ver – jamais poderia ser minha, dada a “autoridade” na demarcação e na articulação das zonas componentes. É necessário acentuar neste caso que o nosso “grupo de trabalho” já evidencia o domínio de certas rotinas que foram sendo apropriadas e que harmoniosamente se impõem sem enfado, com a lógica conveniente que cada tarefa envolve. Sem o fenómeno das sucessivas intervenções do “secador”, esta coexistência de “cores limpas” não teria sido possível.

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O que venho dizendo a respeito da espontânea criatividade do Flávio não se aplica a este trabalho. O que aqui vemos denota claramente a intrusão excessiva no trabalho compositivo feito pelo artista menos jovem. Esta imagem, aliás, foi introduzida nestes textos apenas muito depois da sua versão original, como exemplo ou excepção à regra. A ordenação é excessiva e fica aqui apenas para demonstrar o seguinte: a lógica dos elementos em presença – obviamente resultantes de colagem (essa grande auxiliar de muitas destas façanhas de aprendizagem pelo prazer puro) – apenas é tolerável mediante a fortíssima personalidade das manchas verdes sobre branco inventadas pelo Flávio, a que o rasgão mais irregular do papel branco que está em cima confere uma indispensável nota de liberdade.

Obra feita, obra acabada, fim e princípio, aurora e ocaso simultâneos, uma coisa nunca vista!…

O adulto rege-se por princípios de finalidade e a criança pode ter finalidades diversas, que podem implicar rupturas com a mesma.
O camarada mais velho deve estar atento a esses “percursos alternativos”, a essa vontade expressa através da atitude, mas não esquecendo que uma boa disputa pode valorizar o que cada um conquista para seu prazer, não desvalorizando ou forçando a parte “contrária”!…
Essa área de confrontações deve ser tonificada com uma boa disposição especial, para que o adulto possa “fazer passar” juntamente com o sentido de humor, algumas noções de “finalidade” e de “respeito pela tarefa”.
No caso do Flávio (e isso verificava-se igualmente, com variantes específicas no caso do seu pai, com quem eu tive o privilégio de desenvolver um vastíssimo elenco de brincadeiras artísticas) há uma tendência muito acentuada que tenho procurado interpretar da forma mais adequada, sem prejuízo da variedade de processos que estão envolvidos na nossa actividade:

O Flávio demonstra uma inibição determinada quanto à apresentação de “obra feita”, apressando-se a destruir cada desenho ou pintura, ou trabalho produzido, seja qual for a sua natureza.
Uma “solução” intermédia dessa necessidade pode ser substituida por um processo de ocultação, obliteração ou transfiguração do objecto recém-criado, que o camarada mais velho tem todas as vantagens em “negociar”, como atrás se diz.

Os especialistas devem ter uma opinião a este respeito, e penso que a atitude possa não ser caso único, antes frequente. Careço do tempo para ir investigar qual a razão deste comportamento, e configurei apenas uma explicação para o facto:

A “obra acabada” representa para a criança a eventualidade de ter de “medir forças” com o universo hostil duma lógica que não é a sua. Essa qualquer coisa que saiu das suas mãos não irá ser criticada, mas apreciada de uma forma que pode não lhe agradar pela “falta de naturalidade” das atitudes, e pelo desvio relativo a um sentimento de liberdade interior que é, dessa forma, desestabilizado.
A obra em si pode causar-lhe embaraços, dado que persiste como vestígio dum momento cuja satisfação se esgotou em si mesmo, aquilo que pode ir telescopicamente de encontro à noção elaborada e distante do acontecimento da “arte pura”, já de certa forma contornada no início destes escritos.


019 p Esta “obra” é um caso típico em que a “negociação” entre a revelação e a ocultação foi muito dura entre os dois “artistas”. Um boneco inicial (na circustância “um retrato”) resistiu a uma primeira cobertura de tinta, que não obliterou totalmente a figura por ser de tinta diluída. Seguiu-se um processo de colagens diversas (com outros elementos previamente trabalhados e recortados – eles próprios objecto de certas manobras de ocultação, que terminaram de forma “satisfatória” no momento em que o retrato perdeu o seu principal elemento significativo: o rosto!…).
A prepotência do artista mais velho revela-se pura e simplesmente pela presença aqui do retrato sobrevivente – destinado intuitivamente pelo Flávio à destruição pura e simples.
Para elaborar devidamente quanto à categoria deste retrato, que eu considero soberbo, receio bem que teria de gastar muito as teclas…

 

A utilização dos despojos da obra feita como forma de continuar brincando


utensílios:
Cola acrílica, secador de cabelo, tesoura sem pontas aguçadas, que sei eu…


Há outros materiais e ferramentas que encerram em si um certo mistério fascinante e virão fatalmente às nossas mãos. A cola e as tesouras, por exemplo. Uma resina acrílica adequadamente diluída em água que fica invisível e brilhante depois de seca é a nossa cola preferida.
No nosso caso houve um outro “aparelho mágico” que manipulámos abundantemente para tornar mais expedito o processo de secagem, por exemplo: um secador de cabelo!

Para quem passe por situações destas fica entretanto uma sugestão simples e prodigiosamente eficaz:
Segurando uma folha de papel, um A4 por exemplo, ligeiramente levantada e bem apoiada na mesa na outra ponta, temos um plano inclinado curvo, sem qualquer graça ou sentido imediato!
Se, contudo, injectarmos com o secador ar quente (ou frio, tanto faz) por debaixo da folha, ela fica animada duma energia vibratória que produz uma enorme alegria em qualquer criança!…

Se falo em capacidade estratégica na fabricação de acasos produtivos de boa disposição, este é o tipo de ensejos a não perder, como tantos outros já aqui mencionados.

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O comentário a este trabalho serve perfeitamente para descrever a inter actividade possível e desejável entre os participantes. O suporte é uma das nossas cartolinas coloridas, neste caso amarela (um aproveitamento volumoso de uma oportunidade “oferecida”, há anos já, por uma dessas inúmeras grandes superfícies). O ponto inicial do exercício/brincadeira foi-me confiado a mim: fazer bolas vermelhas!… O processo, que nunca é linear nem regular como aconselha uma comparticipação sempre activa, fornece um elemento sobre o qual o Flávio, por seu turno, intervém de forma bastante mais dinâmica. A sua especialidade é a de transgredir, animar ou desconstruir um alinhamento demasiado “estático” das bolas do artista mais velho e, logo, menos vital!… O resultado parece-me excelente e demonstra que o mesmo processo de elaboração pode resultar sempre de forma exemplar… se estiver presente essa condição (vulgar e insignificante ?) do génio “natural” das mãos duma criança!…

Cortar e colar papéis ou outros objectos entre si é sempre coisa apetitosa!…
No entanto, faz todo o sentido sujeitar a sequência dos nossos “trabalhos” ao aproveitamento dos desenhos e das pinturas feitos anteriormente.
De acordo com o que se disse acima, cada “obra” é normalmente sujeita a um ritual de “encerramento” que no caso do Flávio só com uma alguma subtileza da minha parte escapa à desaparição pura e simples.
Julgo que a substituição do processo da destruição traumática do objecto alcançado pela sua “metamorfose” é um ganho apreciável, porque inscreve na nova peça a memória dos gestos anteriores e os seus respectivos valores plásticos, elaboração essa já tolerada pelo Flávio, como resultante “apresentável” do nosso trabalho.

O que inicia um processo distinto do desenho ou da pintura, e nos permite entrar numa espécie de “manufactura”, geralmente de múltiplos semelhantes entre si, que a convenção das artes pode facilmente associar ao exercício da modelagem ou da escultura!…

Uma composição feita com recortes de materiais pintados por nós dois

Uma composição feita com recortes de materiais pintados por nós dois

O trabalho aqui apresentado é um aproveitamento dos já referidos “multiplos”, ou objectos da mesma natureza, reunidos sempre em quantidade significativa, passíveis dum processo de “entesouramento” ou “colecção” de afins, com uma designação oportuna, tanto podem ser diamantes, safiras ou rubis, como moedas de oiro, como planetas, eu sei lá.
Neste caso são coisas que fazemos às vezes de empreitada: bolas, por exemplo. Circulos sobrepostos, pintados, colados ou recortados, resultado da saborosa “destruição” desta ou daquela obra. Tais elementos são sempre guardados e renascem sempre através de outras brincadeiras, neste caso foram colados uns ao lado dos outros, numa cartolina de cor.
Se o observador notar uma espécie de “limpeza excessiva” no trabalho compositivo, pode ficar tranquilo: esse é um dos “processos de trabalho” mais bem tolerados pelo meu camarada mais novo: retira, por vezes, um certo gosto em remeter-se às funções de observador.
No que me diz respeito, condescendo em tornar mais operacionais as minhas funções porque vejo que elas, para além de estimularem certos desenvolvimentos da tarefa, fornecem um certo prazer contemplativo ao Flávio, elemento estimulante de algo de que já falei: o reforço da capacidade observativa e da “atenção”.

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