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Leiria e outras paragens

O único auto-retrato do pintor

Único auto-retrato do pintor / Martim Moniz, acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites 1990

Único auto-retrato do pintor / Martim Moniz, acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites 1990; nota: o quadro é uma composição muito intensa e a fotografia – como em tantos outros casos – não lhe faz justiça plena…

Este sector estava aqui à espera de texto e, quando comecei a colocar os títulos e todas estas minúcias digitais dei-me conta do título possível para um dos trabalhos: “O único auto-retrato do pintor”. Partindo do princípio, para mim óbvio, de que todos os meus quadros são como “auto-retratos”, nunca experimentei a vertigem de querer retratar “o homem”, na sua solitária individualidade. Prefiro coleccionar-lhe as visões…

Descobri depois uma carta que escrevera para oferecer aos coleccionadores respectivos (e que nunca remeti aos destinatários…) e que fala no assunto. Aqui ficam, portanto, as palavras escritas, fazendo companhia às imagens, no caso de haver paciência para lê-las.

Exmos. Senhores

(…)

Estive no passado fim-de-semana a executar a digitalização de slides de 6 x 6 de antigos trabalhos meus, entre eles o que me foi adquirido por Vós: O eléctrico no Martim Moniz junto à Senhora da Saúde e um outro que me foi adquirido pela Senhora Dª… (o do “Adro de Baixo, com mota”).
As tarefas de digitalização têm bastante importância não só pelo interesse que têm os artistas em guardar memória útil dos trabalhos já feitos, como devido às extraordinárias qualidades que as novas tecnologias nos oferecem e que permitem uma intensa revisitação das obras em autêntico mergulho nos seus mais íntimos segredos.
Sempre tive a consciência de que o primeiro dos trabalhos em questão é uns dos pouquíssimos, senão o único auto-retrato objectivo que jamais efectuei. A figura que me representa encontra-se praticamente perdida na margem lateral de uma paisagem urbana de cujos principais protagonistas são a cidade em si, que monumentalmente se agiganta por toda a perspectiva envolvente, e o objecto eléctrico irremediavelmente imóvel, dado que se apresenta sem o indispensável guarda-freio e sem um único espectante paassageiro. A paragem do eléctrico não possui banco onde descanse quem espera e os horários ou o mapa de localização dos destinos não colhe o interesse da figura que fatigadamente se arrima ao dispositivo de recolha de bilhetes usados, sopesando a cabeça.

Adro de Baixo e mota, acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites

Adro de Baixo e mota, acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites

No quadro da mota não há presenças pessoais à vista, representando contudo a máquina ruidosamente colorida o sinal das coisas moventes e activas. Ocupa uma margem lateral do que se vê e, como se introduz no campo visual no sentido contrário ao da escrita (ocidental…) não ficamos a saber ao certo se entra ou se está prestes a sair desse mesmo campo. A sua presença é eficaz mas tem a instabilidade lateral de algo que não quis impor-se ou dominar a figuração restante. As corrosões da parede, a meticulosa malha do pavimento e os segredos bem guardados da janela pedem meças à mota no seu protagonismo, usando muito embora o magnetismo desta para se colocarem em evidência.

É esse também o efeito da figura problematizante que aguarda um eléctrico dramaticamente condenado à imobilidade: polarizar a paisagem envolvente. Ou seja: são dois elementos laterais que contraditoriamente se salientam pela vocação de alheamento que evidenciam.

Pareceu-me importante dar a conhecer estas reflexões dado que estando esses quadros em Vosso poder, eles retratam-me duma forma particularmente expressiva e, já que as redigi para meu próprio uso, é interessante que sejam conhecidas por Vós. Não são portanto uma completa memória descritiva mas comunicam um segredo que não gostaria que se perdesse por enquanto…

Os meus melhores cumprimentos.

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