Category Archives: coxia central – teatro

A importância do jornalismo cultural

Um acontecimento cultural ou artístico sem eco ou resposta inteligente é um não-acontecimento. Sempre tive o interesse e o gosto de olhar e considerar o trabalho dos outros. Primeiro para meu uso, seguidamente para dar testemunho de opinião e sensibilidade. Julgo que uma sociedade que não responde de forma critico-apreciativa às manifestações culturais e artísticas é uma sociedade pobre, no sentido mais cortante e inconveniente do termo. A inteligência crítica é uma energia produtora de evolução em todos os sentidos. A cultura que não estimula essa atitude, se não está morta, está entregue ao calculismo e à falta de generosidade.

Costa Brites

“Prometeu Agrilhoado” pelo grupo “El Aedo Teatro” de Cádis

“Prometeu Agrilhoado” pelo grupo “El Aedo Teatro” de Cádis

 

Foi publicado no Diário de Coimbra de hoje, 21 de Maio de 2010


Seja o Teatro Grego, seja alto o verbo com que nos fala e cheios de mágico encantamento todas as imagens e seres que coloca diante de nós, as suas principais virtudes – contudo – são trazer-nos sempre algo de nosso próprio drama, da nossa privada e pública disputa com os deuses, de como organizamos o nosso combate com o destino dando exemplo vivo de como estão organizadas as contradições do mundo.
Se possível, quando no Teatro se ouça o ribombar do trovão, ele seja como o alerta de uma enorme inquietação ou o eco dum entusiasmo jamais sentido antes.
Digo estas coisas porque foi assim que as senti durante todo o espectáculo oferecido por “El Aedo Teatro” de Cádis, com largo número de assistentes juvenis acompanhados pelos seus professores que teve lugar em Coimbra, no pátio do Museu Machado de Castro, em sessão promovida pelo XII Festival Internacional de Teatro de Tema Clássico.
“El Aedo Teatro”
é um grupo formado por jovens que se dedicam ao teatro clássico cujas realizações têm propósitos de interesse didáctico mas que, mais do que ler textos e colocá-los em cena, está vocacionado para pensar o teatro e organizá-lo como encontro de ideias e opções difíceis. Sentados por todo o lado, muitos dos jovens espectadores empunhavam os livrinhos com o texto clássico apropriadamente editado pelo Festival. Notei que estavam atentos e que procuravam um nexo de sequência entre aquilo que se passava no palco e que diziam os actores e o texto clássico, traduzido a preceito do grego por uma especialista na matéria.
Notei alguma perplexidade: a representação não seguia – nem à letra nem de perto – o discurso exacto contido no texto. Mas os questionamentos sobre a necessidade e a existência dos deuses, o fogo roubado a Zeus por Prometeu e oferecido clandestinamente aos homens com generosidade e sentido libertador, a própria liberdade e a sua questionável ou precária condição face aos tiranos ficavam ali vivos e palpitantes como toda a lógica da criação de Ésquilo, os seus personagens e o mesmo encadeamento cénico. A questão ver-se-ia esclarecida mais tarde, no fim da peça, quando a larga audiência de espectadores teve a oportunidade de dialogar com a totalidade do grupo, em pleno pátio do Museu.
Como se sugere acima a companhia faz uma leitura dinâmica de cada peça, utiliza obras de autores diversos sobre o mesmo assunto, e adapta aquilo que julga mais adequado para traduzir as ideias do próprio original em função do efeito dramático, da claridade da mensagem ou da sua eficácia em cena. Neste caso foi-nos dito que foram tratados textos de Eugénio d’Ors e Goethe, em obras dedicadas ao mesmo tema de Ésquilo.
“O que importa é sabermos o que queremos contar”, esclarece um dos actores.
“A liberdade não existe se o homem não a busca” parece ter sido o mais forte motivo condutor ao longo de várias cenas, ficando a pairar como um grito de angústia a denúncia terrível das vozes da negação enfrentadas em debate: “A liberdade não existe” e “Zeus é o único fogo”, ao que responde Prometeu, o encarcerado: “Zeus não existe se o homem dele não necessita, Zeus não escuta, só castiga”.
Na empolgante cena final Prometeu falou, aos homens assustados, de uma nova vida, garantindo que a liberdade existe e que devem procurá-la numa nova dignidade, em futuro que se fará presente. Um bom final embalado pela terra que treme e pelo ribombar do trovão, eco das convictas palavras de Prometeu que, embora perseguido e agrilhoado, não parece arrependido de ter oferecido aos homens o fogo, símbolo da sua libertação e pai de todas as artes.
O XII Festival Internacional de Tema Clássico assim prossegue, sugerindo-se a todos os interessados que procurem seguir a sua realização, que tem todo o interesse.

Nota sobre a ilustração:

Kylix lacónica con Prometeo y Atlas
(Museo Gregoriano Etrusco) Cerveteri. 560-550 a.C. Cerámica figurada. Alto 14 cm – diám. 20,2 cm;


Entre las demás producciones de cerámica griega figurada, destaca la cerámica lacónica, testimoniada por una famosa kylix (copa) fabricada en Esparta poco antes de mediados del s. VI a.C. y atribuida al Pintor de Arquesilas II. En ella se puede admirar una de las primeras representaciones del mito de Atlante que hayan llegado hasta nosotros. Atlas, con barba, dobla las rodillas debido al peso de la masa que tienen que sostener sobre sus hombros, al haber sido condenado por Zeus a mantener separado el cielo de la tierra. Además de su castigo se añade el de un segundo Titán, su hermano Prometeo, culpable de haber dado el fuego a la humanidad, atado a un poste y sometido al suplicio perpetuo del águila que le roe el hígado, el cual cada noche vuelve a crecer para ser nuevamente comido. La asociación de ambos episodios ha hecho suponer que este pintor se haya inspirado directamente en la Teogonía de Hesíodo, en la que los dos Titanes se describen uno después del otro.

As telenovelas, o plano fechado e o campo-contracampo

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Esta crónica foi publicada este mês no Diário de Coimbra

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Já falei aqui a respeito da insanidade ficcional da telenovela, das disputas e da má educação que é sua vocação propagandear.
Um dia destes, na paz do lar, fui de novo surpreendido pela cena de uma das telenovelas portuguesas mais em evidência na actualidade: uma mãe e uma filha travavam um combate do mais aceso ódio em que o sorriso nervoso e crispado de uma e as lágrimas da outra eram a fronteira mais longínqua de um país escarninho de danação e amargura.
Depois disso já houve novos “rounds” desse combate de azedumes recalcados como se tal exercício necessitasse de treino ou fosse indispensável renovar em nós a lástima da aversão sem tréguas.
Cabe hoje falar aqui a respeito de alguns dos esquemas técnicos mais frequentes na confecção desse produto televisivo que é, antes de mais, uma indústria que movimenta recursos elevados e custos de produção caríssimos, o que demonstra o seu interesse na fixação de públicos dóceis, receptivos ao contexto publicitário abundantemente envolvente.
A colheita de imagens de uma telenovela é geralmente feita em cenários integralmente construídos para o efeito, com som directo, seguida de uma técnica de montagem que obedece a regras muito estritas, caracterizadas por uma trivialidade estética facilmente observável.

Termos chave são o “plano fechado” e a técnica do “campo-contracampo”

Quanto ao “plano fechado” basta dizer que ele é, como metáfora, a própria essência do processo narrativo da telenovela por insistir em concentrar a imagem num ângulo de visão sem espaço livre para a libertação do olhar, da curiosidade e da imaginação.
Para além de algumas imagens de abertura e de fecho que nos dão a conhecer o ambiente em que se desenrolam os episódios (com muito poucos exteriores e escassas cenas de acção) os diálogos (geralmente muito despojados, sintéticos e até rudimentares) são filmados por duas câmaras que revelam alternadamente o rosto de cada um dos intervenientes, não permitindo muito mais do que a articulação da fala, sem grande espaço concedido para a caracterização dramática. É o “campo-contracampo”.
Numa telenovela o vazio do discurso não convida a pensar e o realizador brinca com o espectador dando-lhe continuadamente pistas duvidosas para que com isso alimente a única curiosidade possível: saber quem foi o culpado da trama de confusos equívocos e esperar que tudo se resolva da forma mais previsível.
Os comportamentos são pouco edificantes, a inveja e a disputa não obedecem a regras e o desmascarar dos criminosos e dos oportunistas é quase tão difícil como na vida real, o que leva certos espíritos complacentes a julgar que a telenovela é “realista” porque se limita a reproduzir aquilo que se passa na realidade.
O encadeamento das cenas processa-se sem pausas ou acentuações que concedam ao espectador a faculdade de olhar e o privilégio de ver, pensando naquilo que está a acontecer, distanciando-se o suficiente para formular juízos críticos.
Na leitura de um livro podemos fazer uma pausa, voltar atrás para ler de novo e pensar no assunto. Na telenovela pode perder-se um episódio inteiro, os dados estão lançados desde o início e não há espaço algum para o imprevisto, o fenomenal e a excepção edificante.
Se houver duas telenovelas simultâneas em dois canais diferentes, temos uma vantagem: podem dar-se dez minutos a cada uma alternadamente, e nada se perderá com isso. Ou dormir uma soneca lá pelo meio. Deixa de ver-se uma cena de ódio, ganha-se uma de inveja ou de má criação e ao fim, casam todos na mesma uns com os outros.

As telenovelas, companheiras das tardes sem fim e das vésperas do cansaço

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Sónia Braga

Quando no dia 16 de Maio de 1977 foi apresentado o primeiro episódio da telenovela “Gabriela Cravo e Canela” os portugueses estavam bem longe de poder imaginar que esse iria ser, durante muitos anos, o horizonte mais duradouro dos seus passatempos televisivos, companhia de almas solitárias por tardes sem fim e testemunha das fadigas do fim do dia de tanta gente sequiosa de um momento diferente de escape, evasão e alguma curiosidade insatisfeita.
Das crianças aos adolescentes, das donas de casa aos elementos mais velhos das famílias, pessoas enfim de todas as qualidades e feitios carentes de melhor alternativa de utilização do tempo vazio antes do sono, todos procuram na fonte de águas pouco minerais dos episódios das telenovelas matar alguma sede de vidas novas e diferentes, noutro cenário e noutras companhias.
Que coisas levam tais pessoas consigo para o sono reparador? Que coisas aprendem esses jovens? Que imagem da vida compõem? Que sonhos sonham? Que desejos acalentam?
Alguma coisa fica, certamente, nos espíritos de quem vê e ouve. A linguagem, por exemplo. Mas não só isso. Há nas telenovelas uma escola de atitudes, uma ideologia para a disputa do quotidiano, uma lógica de moralidades e uma justificação de necessidades que não podem deixar de imprimir as suas marcas.
Os nossos avós antigos aprenderam a construir seus usos no rigor da família, na austeridade do trabalho e no temor das igrejas. Algumas gerações mais recentes conseguiram acesso a um universo mais aberto de horizontes mais largos, em locais de trabalho, escolas e instituições de todo o tipo.
Hoje é também o mercado de consumos que dita as suas leis e conforma as consciências. E o mercado das imagens, aquele que nos entra pela casa dentro com a nossa complacência e até um indisfarçável entusiasmo consumista. Não é a telenovela que vem até às pessoas. As pessoas é que lhe abrem as portas aceitando o universo de valores que lhes propõe.
Será bom que tenhamos consciência desses factos e que aprendamos a organizar em torno de nós próprios um círculo de defesas naturais. Ideal será estabelecer um processo de conviver com realidades mais positivas, se possível com gente dentro e valores humanos à mistura. Entre-se no site de uma das telenovelas portuguesas mais “badaladas” dos últimos tempos e consulte-se uma sinopse do enredo:
“…fulano e beltrano são dois irmãos gémeos, ambiciosos e sem escrúpulos que competiram entre si durante toda a vida. Em miúdos disputavam os brinquedos, em adolescentes as namoradas e em adultos a própria vida numa luta pela ascensão social”.
Melhor mesmo do que isto só o critério abertamente enunciado que sustenta a historieta:
“Uma novela é tão boa quanto o seu vilão. Nesta telenovela o vilão é servido em dose dupla: fulano e beltrano são dois irmãos gémeos. Mas esta não é a história clássica do gémeo bom versus o gémeo mau. Ambos são a maldade em pessoa. Nestes gémeos o laço que os une é o ódio…”
Um universo ficcional destes não o reservo nem para o meu pior inimigo.
Quantos milhões de olhos e quantas cabeças predispostas terá inundado de curiosidade absorta? Em quantas consciências terá ficado a morar essa indesejável galeria de fantasmas?
Eu não a vi. E o leitor (ou leitora), lembra-se da história?

Reflexão em torno do monólogo “coisa pública”

Reflexão em torno do monólogo “coisa pública”

Custódia Gallego em “Vulcão” de Abel Neves.

Diário de Coimbra de 9 de Março de 2010

A especialização do teatro conduz a diversíssimas variantes que fazem parte integrante da sua imensa riqueza. Algumas chegam a constituir modalidades suficientemente caracterizadas, com públicos certos e determinados para serem vistos em lugares próprios e dependem da riqueza de patrimónios colectivos sedimentados, consoante o caso, ao longo de gerações. Entre elas as que se estruturam em torno da ideia do monólogo.
Tudo de novo, pois, sob o sol, tendo este tipo de aberturas sempre um interesse muito legítimo, no caso da sociedade portuguesa, face à consolidação de públicos e à valorização que este sector da cultura tem vindo a registar, com a vantagem acrescida de afirmar uma saudável tendência descentralizante. A XII semana cultural da Universidade de Coimbra integrou, no âmbito do teatro, um conjunto de realizações sob o tema do monólogo “coisa pública”, que agregou, além de vários acontecimentos de reflexão e estudo, um conjunto de espectáculos de teatro concebidos sob o signo dessa modalidade específica. Os acontecimentos mais especializados desta iniciativa foram – como é habitual – dirigidos a sectores estrategicamente situados, sendo de acesso mais geral os que foram levados à cena no Teatro Académico de Gil Vicente e no Teatro da Cerca de São Bernardo. Poucas pessoas terão podido acompanhar todos os espectáculos do ciclo, tendo-me tocado a mim ver, no TCSB, dois dos cinco que foram apresentados: “Vulcão” de Abel Neves, com Custódia Gallego (encenação de João Grosso, ACE Teatro do Bulhão) e “Calendário da Pedra”, texto, encenação e interpretação da brasileira Denise Stoklos.
Ambos os espectáculos são notabilíssimos devido desde logo à presença de artistas que – sozinhas em palco – têm a capacidade hercúlea de concentrar numa só voz e num só corpo todo os conteúdos expressivos de uma construção narrativa, por mais específica que ela seja.
Custódia Gallego faz um trabalho mais próximo do teatro habitual, com uma história com diversos figurantes, um drama, em suma com suporte essencial no texto de que decorre e Denise Stoklos assume a pose de um “performer essencial” mais centrada na mímica, na coreografia, no exercício vocal, viajando em torno de si própria e do íntimo colectivo.
“…A estratégia aqui do performer é não ter estratégia. Diferente do ficcionista que segue uma linha pré-desenhada, ele busca o tónus da cena no seu ego, no seu âmago. Melhor dizendo o seu próprio tónus é a cena…” afirma Denise no texto em que apresenta, mais que a sua actuação particular, o contexto programático da sua forma de estar em palco.
Sem poder trazer aqui uma análise detalhada de ambos os espectáculos, de elevada qualidade e muitíssimo diferentes na sua génese e desenvolvimento cénico, terei que afirmar que ambos dependem de uma coisa que me parece um pouco contingente no teatro como veículo de transmissão de ideias, sentimentos e percepções do mundo: a vitalidade essencial e a resistência psíquica e física dos intérpretes respectivos, para além do seu talento genuíno. Apetece-me dizer que o espectador deixa de poder ver o tema, de atender apenas à palavra e ao gesto como produtores de uma certa ideia das pessoas e dos sentimentos que as animam, para passar a assistir a uma espécie de competição extremada do artista consigo mesmo. O espectáculo, de construção dramática, passa de certo modo à categoria de ultrapassagem emocional na qual o espectador sai esmagadoramente vencido pela extenuante energia posta em marcha pela actuação do solista.
Devastado pelo talento evidente, o espectador rende-se. Mas será que fica convencido ao nível do exercício quotidiano do pensamento sensível?
Será que da imensa energia dispendida e do elenco de recursos histriónicos, da ciência do dizer e da capacidade da construção gestual sobra alguma coisa para seu próprio consumo íntimo?
Esperemos que sim, dada a dinâmica de pluralismos de que o teatro é capaz e do merecido incremento de interesse que tem vindo a registar entre nós.

Reflexão em torno do monólogo “coisa pública”
Denise Stoklos, “performer essencial” de “Calendário da Pedra”
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O “Single Singers Bar” do Teatrão, o tal espectáculo que seria impossível noutros tempos

O “Single Singers Bar” do Teatrão, o tal espectáculo que seria impossível noutros tempos

Na fotografia de Paulo Abrantes: Margarida Antunes de Sousa, João Castro Gomes, Isabel Craveiro, Nuno Carvalho e Inês Mourão


O culto da noite e as estratégias do prazer têm séculos de tradições e correspondem a necessidades que não desaguam necessariamente no desconcerto do deboche nem na alienação licenciosa. Infelizmente, ousarão sussurrar algumas almas cinzentas e solitárias, a cuja porta bate com certa teimosia a fria mão de desencanto e o desconforto do coração incompreendido. A “má vida”, assim se tem chamado ao apelo secreto dos serões inundados por uma dose de licença e de sensualidade vital, na suspeita de que tudo aquilo que pressupõe se encontra fatalmente ligado ao conceito de “pecado”.
As propostas explícitas que nos trouxe o espectáculo para piano e canto apresentado pelo Teatrão, na Oficina Municipal do Teatro, o “Single Singers Bar”, se fosse apresentado “no meu tempo” neste mesmíssimo país e cidade em que nos encontramos, seria um caso de desaforo, de escândalo e constituiria por isso mesmo, um autêntico “caso de polícia”!…
Isto para entendermos o quanto mudou a sociedade em que vivemos no decurso de algumas décadas e para que se compreenda que as máscaras que entretanto caíram não escondiam monstros nem maldições fatais mais do que todos aqueles que a liberdade e o pluralismo conseguem resolver na complexidade de uma sociedade em permanente mutação.
A mistura de um bar/tabacaria com a de cabaret/teatro produz um “cocktail” do mais saboroso efeito, agora nestes tempos que – não nos iludamos – não são de licenciosidade mais desenfreada do que a de outros de antes por razões que nem cabem aqui, nem vale a pena explicar.
As inúmeras programações que têm sido apresentadas neste espaço (a tabacaria do OMT, um café/teatro) acusam essa vocação específica de associar o clima de convívio à fruição do teatro ao som da música e às artes da declamação e do canto.
Têm variadíssimos antecedentes entre os quais recordo como particularmente interessante “O Cabaret da Santa”, de Setembro de 2008, do brasileiro Reinaldo Maia e do português Jorge Louraço, também encenada – como o “Single Singers Bar” – por Dagoberto Feliz e que resultou de uma frutuosa parceria com o grupo Folias d’Arte de S. Paulo. Saliente-se que Dagoberto Feliz é fundador, actor e director musical da companhia paulista.
Neste espectáculo de agora, sem desprimor para nenhum dos outros intervenientes que com valor desempenharam os seus respectivos papéis, seja-me permitido salientar os dois belíssimos quadros do “casamento” e da “Lorelei” (nome estereotípico de mulher comum que também evoca o das ninfas das águas do romântico rio Reno…) protagonizados por Inês Mourão. O suporte pianístico fornecido por Jorge Marinheiro teve a máxima dignidade artística e o naipe de actores/cantores cumpriu de forma sugestiva e convincente o projecto que, mais do que um simples acto de teatro, configura um “espectáculo total ao vivo”, tão raro porque tão difícil.
Há que acrescentar que este trabalho se pode considerar um acto de coragem por todas estas razões e também pelo facto acima vagamente sugerido de constituir um desafio relativo aos fantasmas e temores tão frequentemente dissimulados por detrás de uma aparente e concertada moderação de gestos e de atitudes que pinta de cinzento muito do nosso quotidiano, cansado de tanta briga inútil e de tanta frustração envergonhada.

O “Single Singers Bar” do Teatrão, o tal espectáculo que seria impossível noutros tempos


Ficha Técnica e Artística:
Encenação: Dagoberto Feliz
Elenco:

Inês Mourão,
Isabel Craveiro,
João Castro Gomes,
Jorge Marinheiro (Pianista),
Margarida Sousa e
Nuno Carvalho

Figurinos e Adereços: O Teatrão
Desenho de luz: Alexandre Mestre
Montagem e Operação de luz: Alexandre Mestre, João Castro Gomes, Jonathan Azevedo e Rui Capitão
Cabeleireiro: Carlos Gago (Ilídio Design)
Fotografia: Paulo Abrantes
Grafismo: Sofia Frazão
Costureira: Fernanda Tomás
Direcção de Produção: Inês Mourão
Produção Executiva: Isabel Craveiro, Margarida Sousa e Nuno Carvalho
Direcção Técnica: João Castro Gomes
Produção: O Teatrão 2010

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“Saloon yé-yé” pelo Teatro Regional da Serra do Montemuro no TCSB, em Coimbra

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Publicado hoje, 12 de Fevereiro de 2010 no Diário de Coimbra


O Teatro Regional da Serra do Montemuro tem um sugestivo e bem organizado site na Internet que nos transmite, desde o texto de abertura “Convívios Comunitários”, a entusiástica sensação de que é perfeitamente possível fazer do teatro uma plataforma sem par de convívio e de abrangência cultural, com sede – imagine-se – na pequena aldeia de Campo Benfeito.
Em mais uma apresentação levada a efeito no Teatro da Cerca de São Bernardo, onde tem sede activa A Escola da Noite, esteve de visita aquele agrupamento de teatro com o seu castiço “Saloon yé-yé”, ou “paraíso à espera”.
Catt Pingado, Kid Mocas, Débora Boy, Xerife Olívia, Susy Carioca, Teclas Man, Lulu Quem-me-dera, Speedy Meu, FredySnif e Lucas Rosinha, além de Cavaca, o cavalo com cornos de vaca, são designações desopilantes de uma encenação de Graeme Pulleyn, com um soberbo texto de Abel Neves, companheiro e amigo d’A Escola da Noite, onde os seus textos já estiveram na origem de três espectáculos:
“Além as estrelas são a nossa casa”, “Além do Infinito” e “Este Oeste Éden”, apresentado no ano passado no TCSB.
Tive o grato prazer de assistir ao “Saloon yé-yé” sentado muito perto duma criança acompanhada de seu pai (belíssima acção de amor pela renovação da cultura) e ir apreciando uma variedade de atitudes, perguntas, interjeições e estados de ânimo que valeram, além do mais, para dar credenciais à vitalidade contagiante do Teatro neste espectáculo (de sala literalmente cheia, diga-se de passagem).
A peça, cheia de cor, movimento, música e “mistérios” dignos de uma activa mescla de cinema, banda desenhada e “music-hall”, tem um texto cuja construção e desenvolvimento potencia o espectáculo muito para além da frivolidade aparente do menu acima descrito.
Num país onde as famílias adormecem atormentadas pela dramaturgia inconcreta de telenovelas que são autênticos “workshops” para a malvadez e a má criação, com direcções de actores mais que questionáveis e textos para mentes conformadas à mediocridade, impressiona ver assim um trabalho bem feito onde a palavra toma o lugar que lhe compete, trazendo à tona temas sérios e concretos da vida real, pleno de plasticidade semântica, riqueza de intertexto e neologismos cheios de graça e intenção irónica.
Nesse sentido o espectáculo, servido por um excelente grupo de actores plenos de qualidade e polivalência expressiva, permite uma diversidade de leituras verdadeiramente intergeracional, em que as eventuais cenas de “violência” são sublimadas por um adequado processo de “câmara lenta” em fundo de música condizente, que enche de gáudio os mais jovens espectadores sem descomprometer os mais maduros pela verdade escondida por detrás do expediente cénico.


O Teatro Regional da Serra do Montemuro tem também uma clara vocação para intervir na área educacional e formativa e um programa de digressões que levam longe a sua actividade. Parabéns e continuação do bom trabalho!

FICHA ARTÍSTICA
Texto: Abel Neves
Encenação: Graeme Pulleyn
Direcção Musical: Carlos Clara Gomes
Cenografia e Figurinos: Ana Brum
Construção de Cenários: Carlos Cal
Direcção Técnica: Paulo Duarte
Design Gráfico: Zé Tavares
Direcção de Produção: Paula Teixeira
Assistência de Produção. Susana Duarte

Interpretação
Abel Duarte,
Eduardo Correia,
Paulo Duarte,
Daniela Vieitas,
Neusa Fangueiro.