Category Archives: coxia central – cinema

A importância do jornalismo cultural

Um acontecimento cultural ou artístico sem eco ou resposta inteligente é um não-acontecimento. Sempre tive o interesse e o gosto de olhar e considerar o trabalho dos outros. Primeiro para meu uso, seguidamente para dar testemunho de opinião e sensibilidade. Julgo que uma sociedade que não responde de forma critico-apreciativa às manifestações culturais e artísticas é uma sociedade pobre, no sentido mais cortante e inconveniente do termo. A inteligência crítica é uma energia produtora de evolução em todos os sentidos. A cultura que não estimula essa atitude, se não está morta, está entregue ao calculismo e à falta de generosidade.

Costa Brites

Eugène Green, Soror Mariana e os azulejos

A RelPort

Publicado no Diário de Coimbra de 12 de Maio de 2010

Interessei-me desde há pouco pela figura de Eugène Green, o realizador de “A Religiosa Portuguesa”, e já li a seu respeito uma quantidade de coisas invulgares.
Por exemplo, os seus filmes incluem sempre cenas filmadas à luz de velas: projectores barrocos, assim chamados por terem detrás um espelho que ajuda a luz a comunicar às cenas uma suave luminosidade nocturna. E esclarece Raphaël O’Byrne, director de fotografia: “Deve ser o único realizador no mundo que filma sem luz eléctrica”.
Outra excentricidade, não menos surpreendente, é tratar-se de um nova-iorquino que não afina pelo diapasão “normal” pró-hollywoodesco. Antes pelo contrário, Eugène considera o seu país como “a barbárie”, abomina a produção fílmica norte-americana, adoptou há longos anos a França como local de residência e, imagine-se, tem uma acentuada fixação simpática pelos portugueses, por Lisboa e pelos mais sensíveis avatares da nossa cultura. Se eu fosse realizador cinematográfico e me encomendassem um filme sobre as qualidades emblemáticas de Portugal e dos portugueses, teria pudor em ser tão sentimentalmente frontal na exaltação da nossa personalidade simbólica.
Uma sequência de “A Religiosa Portuguesa” oferece-nos uma simples viagem de eléctrico e o olhar da câmara extasia-se e detêm-se em cada rosto, revelando a fisionomia meridional, o curioso olhar mourisco e o sorriso suspenso daqueles viajantes sem pressas. Numa cidade tão empedernida pelo cansaço, Eugène avalia os lisboetas com a imagem que deles retém e faz questão em nos mostrar o velho amparado nas canadianas a quem uma rapariga nova, tão solícita, oferece imediatamente o seu lugar. As escadinhas e calçadas tranquilas, os pátios escondidos, as portas antigas com pequenas janelitas, o sol forte por entre as ramagens, as paredes velhas com garatujas, as mais abertas perspectivas sobre a cidade enorme, os seus miradouros e jardins antigos, o dorso das colinas, os fontanários e bancos de pedra: Eugène vê tudo à lupa, explica, regala-se, ostenta como ornamento precioso aquilo que nós porventura desistimos já de ver ou simplesmente confundimos com velhice de alma decadente. Há muitos anos que não via um filme com fados inteiros e gente conhecida sentada, tornando explícita a morena estirpe lusitana de magriços e mouras encantadas.
E os azulejos, meu Deus, os azulejos!… Por todo o lado, detrás de cada vulto, de dia ou de noite, reforçando a solenidade da talha dourada e a convicção dos santos nas igrejas, em palacetes graves ou velhas dependências de casas modestas. Aparece por fim D. Sebastião, como se outra coisa faltasse para retratar o sentimento do inexplicável narrado num tom que explicitamente evoca a linguagem fílmica de Manoel de Oliveira, tão declaradamente presente que a própria protagonista e outras figuras são transferidas dos elencos favoritos do consagradíssimo realizador. Nada de tão fortemente emblemático poderia levar o filme tão longe como tem ido, a festivais e encontros com prémios e referências honrosas. A sua produção foi maioritariamente portuguesa e obteve subsídio do ICA (Instituto do Cinema e do Audiovisual), o que gerou certa polémica. Não impediu no entanto que tenha sido considerado por certas opiniões como “mais português do que muitos filmes portugueses”, tendo sido rodado em Lisboa por uma equipa técnica maioritariamente portuguesa, com base na que fez outra película de sucesso: “Aquele Querido Mês de Agosto”. “O Som e a Fúria”, entidade produtora do filme, foi criada em Setembro de 1998 e dedica-se em exclusivo à produção cinematográfica, procurando estabelecer um vínculo com o cinema de autor e independente. Já produziu 2 documentários, 23 curtas e 4 longas-metragens. No seu conjunto, estes filmes arrecadaram 53 prémios e 14 menções especiais em Festivais de Cinema. Também participa na distribuição das obras que produz, pelo que convém aos cinéfilos amigos mantê-la sob observação atenta.

Alice no país das maravilhas, o livro de tantos filmes

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DrawAlFoi publicado dia 26 de Março de 2010 no Diário de Coimbra

The Hatter opened his eyes very wide on hearing this; but all he said was ‘Why is a raven like a writing – desk?’

Lewis Carrol, de seu nome Charles Lutwidge Dodgson, foi um clérigo anglicano de muito respeitável família, precoce, sensível, gago, canhoto, cultíssimo, tendo ingressado em 1851 na mesma faculdade onde estudara seu pai, a Christ Church da Universidade de Oxford, onde veio a leccionar matemática. Dele pode dizer-se igualmente que, além de cientista dotado de promissora carreira, também era apreciador das novas tecnologias de então. Dedicou-se à fotografia com particular afinco, produziu em estúdio próprio milhares de originais que documentou de forma exaustiva, facto que – entre outros – justifica a sua inserção no mais elevado estrato cultural e artístico da sociedade inglesa da época victoriana. A sua obra literária deu origem a uma galeria de figuras e de situações de uma originalidade sem par, servidas por uma imensa subtileza de linguagem e um enorme sentido de análise psicológica, tudo envolvido por um halo de irrealidade que em inglês costuma designar-se por “nonsense”, um “não-sentido cheio de conteúdos latentes” de elegante complexidade.
As suas duas obras mais conhecidas “Alice no país das maravilhas” e “Alice do outro lado do espelho” têm fornecido matéria a um sem número de referências analíticas e inúmeras criações artísticas, de que o cinema se tem servido abundantemente. São agora aproveitadas para fazer um filme que, com algumas afinações de enredo “made in Hollywood”, conta a história conjunta mais uma vez, aproveitando o pano de fundo de enorme notoriedade que a obra do sofisticado inglês conseguiu granjear praticamente por todo o mundo.
A novidade essencial desta milionária realização é a de nos trazer a história contada a três dimensões, facto que se arrisca a ser cada vez mais frequente em filmes de grande notoriedade e movimento, de proveniência norte americana já se vê, por ser – fatalmente – a única origem de praticamente todo o cinema visto entre nós, em salas ou mesmo na televisão.
Além do acréscimo das percepções visuais, os animais são todos assustadores e aquele “Jabberwocky” tem qualquer coisa de familiar dos monstros das guerras das estrelas, figuras medonhas que matam tudo que lhes aparece à frente e que têm um rugido que até faz abanar as cadeiras.
Sendo o imaginário de Lewis Carrol uma ferramenta de profundo interesse na interpretação metafórica de uma quantidade de estranhezas e complexidades do nosso espírito e da natureza das coisas, seria talvez proveitoso que da ida a este filme alguma coisa ficasse na mente do espectador médio para além do ruído e dos efeitos especiais que comandam o espectáculo.
Mas receio bem que para isso seja fundamental um mergulho silencioso e delicado na leitura dos seus livros, o que cada um de nós poderá fazer em qualquer altura com o apoio garantido da nossa capacidade imaginativa que entende capazmente as “falas do Inconsciente” e que também fornece, estou seguro, imagens a três dimensões.

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"Prestígio Real" um filme dos anos 50 que adorava ver de novo, presente aos pedacinhos na internet…

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A Internet reserva-nos as maiores surpresas e as mais inesperadas descobertas.
Das memórias cinematográficas dos primeiros anos da minha adolescência faz parte um filme indiano, produzido e realizado por Mehboob Khan que foi exibido em Portugal aí por 1956, mais coisa menos coisa.


O título Indiano é Aan (que quer dizer “orgulho”) o título inglês é “The savage Princess” e em português era intitulado “Prestígio Real”.
Numa entrevista de Fevereiro de 2007 diz-nos Fonseca e Costa que “…marcou uma geração com a opulência dos seus exóticos décors, o pendor desmesurado pelo melodrama romântico, onde a menina pobre casava sempre com o belo filho do marajá depois de vencidas contrariedades aparentemente intransponíveis, tudo acompanhado por canções e músicas de fazer chorar as pedrinhas da calçada…
(nesta película o caso não era bem esse, mas a diferença era apenas de simetria porque era o rapaz pobre que casava com a filha do marajá!…)
O filme foi um sucesso extraordinário e lembro-me ainda de muitas cenas que agora reencontrei, em toda a sua frescura e musicalidade, no YouTube!…
Recordo com a mais viva emoção uma das muitas canções do filme que, naqueles tempos recuados sem televisão (a rádio tenha apenas meia dúzia de frequências audíveis…), era repetida sem cessar pelos altifalantes da Feira de Março, em Leiria!…
Tinha por título: “Dil Mein Chupake Pyar Ka” e era interpretada por Mohammed Rafi.

Algum tempo depois começariam as desavenças entre Portugal e a União Indiana a respeito das crescentes pressões sobre Goa, Damão e Diu, que acabariam com a reocupação daqueles territórios pelas tropas indianas.
Não cabe aqui descrever uma infinidade de peripécias ligadas com esses factos que culminaram, entre outras coisas, com o fim da importação de filmes da India que viria a ser retomado apenas depois das transformações ocasionadas pelo 25 de Abril.

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“O Leitor”, Eros e Thanatos, a celebração da palavra e o labirinto dos tribunais

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De read

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Públicado no Diário de Coimbra de 24 de Fevereiro de 2009

Na abnegada pesquisa que costumo fazer a respeito dos filmes que comento encontro sempre coisas fantásticas. Desta vez foi uma entrevista do próprio Stephen Daldry, realizador do filme, cruzada com um artigo do Los Angeles Times de Setembro de 2008 a respeito das lutas intestinas entre os principais investidores e mandantes da “indústria”, anteriores ao lançamento de “O Leitor” para a competição aos Óscares.
Digamos que essas histórias por detrás do cinema não são menos emocionantes que o próprio conteúdo das ficções, tendo o espectador que reunir coragem para entender a obra como algo derivado do talento criativo de certos artistas envolvidos e não apenas a resultante das catacumbas do negócio e dos seus avatares.
“O Leitor”, como tantos filmes, é baseado num livro, neste caso da autoria de Bernhard Schlink, escritor alemão que analisa factos ligados ao sentimento de culpa derivado das atrocidades cometidas no decurso da segunda guerra mundial. Investigações posteriores identificaram a figura feminina que teria dado lugar ao perfil de Anna Schmitz, protagonista do drama em causa e que seria nem mais nem menos que uma odiosa carcereira do campo de concentração de Buchenwald.
Quer o livro, quer o filme, oferecem-nos contudo uma personagem muito menos forte e determinada de que apenas ficamos a conhecer o lado da sensibilidade vulnerável e da precariedade de recursos de carácter.
Um julgamento casual muito depois do fim da guerra levam-na a depor perante um soleníssimo tribunal e é com aparente facilidade que um grupo de outras carcereiras muito mais astutas conseguem atirar com ela para uma terrível condenação de prisão perpétua.
É condenada por ter escrito de seu próprio punho uma elaborada nota de culpa, ela, que nem sabia ler nem escrever.

O filme é muito complexo, muito bem construído, foca diversos assuntos de mão cheia: o remorso por omissões, a questão do holocausto, a consciência colectiva da culpa, a tenacidade fria dos vencedores endinheirados, o ensino das leis, as trágicas contingências da Justiça e dos seus “funcionamentos”, etc.
É-me impossível por isso abordar aqui tudo o que poderia ser dito a respeito e irei ficar-me por um ponto que me pareceu magistralmente sugestivo.
Num contexto finamente erótico (qual é o filme de bilheteira mundial que poderá esquivar-se a esse primordial argumento de sucesso? …) uma mulher de rosto assustado e perdido encontra um rapaz na fina-flor da sua adolescência, o qual consegue conduzir aos encantos do leito sem nenhuma resistência. Prendado estudante de ensino médio (que na Alemanha não é campo de batalhas inglórias…) domina com finesse e voz bem timbrada textos clássicos, dramas consagrados e outras peças literárias de precioso encantamento.
O principal acessório desse convívio apaixonado organiza-se por conseguinte em torno da celebração da palavra sentimental e dramática, sentida, ouvida e sonhada.
Por razões que o enredo não clarifica totalmente a protagonista suicida-se ao fim da história. E é intelectualmente cruel e teatralmente alemão que tenha escolhido uma pilha desses livros clássicos como alçapão do seu cadafalso.

Num filme que não resolve nenhuma das suas contradições maiores mas é farto de sugestões problemáticas, este é mais um enigma com que Hollywood responsabiliza a consciência crítica do espectador. E não é pouca coisa nem elogio de somenos a cento e vinte e três minutos de cinema sem pacote de pipocas e com tampões bem postos nos ouvidos por causa do barulho infernal das projecções fílmicas dos dias de hoje.

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O “Ensaio sobre a Cegueira” em adaptação cinematográfica de Fernando Meirelles, a não perder

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cegueira
Publicado no Diário de Coimbra de 31 de Dezembro de 2008 (Feliz Ano Novo!…)

O “Ensaio sobre a Cegueira” de José Saramago é uma portentosa alegoria da condição humana e do mundo tal e qual se encontram, entregues a uma cegueira muito mais que simplesmente metafórica, revelando os humanos uma incapacidade quase natural de encarar problemas colectivos com alguma generosidade, altruísmo ou até o mais elementar bom senso.
O filme “Blindness” do realizador brasileiro Fernando Meirelles é uma versão cinematográfica da obra do escritor português, motivo que tem imenso interesse para todos aqueles que têm seguido o auspicioso devir do seu notável trabalho literário.
O filme é de uma qualidade fora do comum, segue de muito perto o espírito e a letra da obra em que se baseia e enfrentou de forma criativa as não poucas dificuldades que um tal enredo certamente apresenta.

A notável co-produção do Brasil, Japão e Canadá permitiu ao realizador brasileiro a adopção de soluções cenográficas muito avançadas com níveis de extraordinário realismo, grande número de figurantes e contextualização visual impecável.
A história trata da eclosão de uma inexplicável “cegueira branca” que surge como disparador duma situação limite como aquelas que as artes narrativas frequentemente utilizam para desencadear o drama. Coloca em questão a dificuldade que os homens têm de se organizar de forma pacífica e benévola face às situações de crise, que tendem a ser constantes por essa mesma razão. Demonstra também a extrema vulnerabilidade da espécie humana face a catástrofes gerais, de que a cegueira aqui é um mero exemplo simbólico.
Ao que parece, não basta ao Homem estar por natureza condenado à morte, não bastam todas as suas limitações e relativismos: fora do seu núcleo pessoal mais estreito, e logo que tenha de repartir o seu destino, acorda em si o impulso egoísta e a lamentável incompreensão.
Na refrega de todas essas contradições surgem sempre os actos de heroísmo isolado, as demonstrações de corajosa lucidez e de comovente generosidade que tão importante lugar conquistam na literatura, no teatro e nos outros testemunhos que o homem está condenado a escrever com sangue e lágrimas. Pena é que nem todas essas histórias estejam destinadas a um fim feliz.

15-pUma grande virtude do filme de Meirelles é a de estimular a revisitação da notável obra que lhe dá origem, efectuando o espectador interessado a ponte entre ambas, no pleno usufruto do melhor de cada uma.
É com essa a coabitação de valores positivos que as artes presenteiam os homens, numa clara demonstração de que todos ganhariam se nos comportássemos como irmãos solidários. E para que não fosse tão frequente termos de repetir, com amargura atravessada na garganta que “estamos cegos porque estamos mortos” ou que “estamos mortos porque estamos cegos”, envolvidos pela teia de um dilema sem resolução por não passarmos, muitas vezes, de “cegos que vendo, não vêem”.

O bom hábito de ficar ao fim do filme lendo a lista de todos as pessoas e organizações que colaboraram na sua produção tem o mérito de revelar que o cinema, como muitas outras formas de intervenção artística, resulta da sobreposição de esforços inteligentes entre pessoas e organismos distintos.
O genérico de “Blindness”, dada a sua extensão, é um caso superlativo e exemplo positivo de colaborações que podem contrabalançar o cepticismo que a mensagem do livro e do filme podem semear no nosso espírito.
Nem tudo está perdido e a paz construtiva é possível sempre que os homens quiserem.

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“A Turma” – uma batalha difícil entre rebeldes intuitivos e seus únicos aliados possíveis

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Foi publicado no Diário de Coimbra de 17 de Dezembro de 2008

É pena que este filme, com argumento escrito por um professor que se interpreta a si próprio (François Bégaudeau), não seja constituído como tema intensivo de trabalho para todos aqueles que estão implicados no ensino e, ao dizê-lo, estou a pensar literalmente em toda a gente. Principalmente os pais de filhos que frequentam o ensino secundário, aparentemente o único dono de todas as problemáticas e controvérsias, como se os outros níveis de ensino não fossem, também eles, território de complicadas contradições.
“A Turma”, de Laurent Cantet, é um pedaço de cinema duma raríssima qualidade comunicativa. Oferece-nos uma peça de ficção tão meticulosamente construída no seu todo e nas partes que a constituem, que parece um naco de vida arrancado no seu estado puro à experiência vivida algures por professores, alunos e respectivas famílias.
Quem assistir ao filme é transportado para dentro da escola duma tal forma que esquece a sua condição de espectador, tornando-se quase testemunha de factos realmente ocorridos com pessoas que, um dia destes, iriam cruzar-se connosco caso vivêssemos lá, naquele complicado subúrbio de Paris. Não nos iludamos, contudo: a nossa realidade é cada vez mais semelhante àquela, numa sociedade cada vez mais confusa, assimétrica e problematizada.
O espaço exíguo da sala e o recreio igualmente atravancado são os cenários principais que nos são mostrados numa escola francesa onde não falta, apesar de tudo, um conjunto razoável de recursos técnicos e respeitáveis princípios de organização disciplinar.
Os momentos mais intensos do filme são os que documentam a argumentação cerrada entre professor e alunos, em pleno decurso das lições de língua francesa. O exercício da palavra, os seus mistérios, tesouros e artifícios são a reserva de subjectividades sempre candentes que revelam toda a complexidade da natureza humana.
E é aqui que se demonstra que a um professor não basta conhecer todo o conjunto de matérias que lecciona. Tem também que ser pedagogo no sentido mais lato do termo, psicólogo, sociólogo, pastor de almas solitárias, cúmplice de dramas ocultos, advogado de defesa em julgamentos de salomónica transcendência. Isto para além dos horizontes de certo desespero, do cansaço e daquilo que um outro importante filme francês de 1967 de André Cayatte designava como “Les Risques du Métier” ou seja, “Os Ossos do Ofício”.

O professor: o único aliado possível

A dignidade fechada daquela mãe africana que mal saberá, mas não ousa, falar em francês, defende o seu filho com as razões mais concretas da sua experiência particular. Expulso da escola o filho caminha atrás dela, silenciosamente confuso na revolta impotente contra coisas de que apenas intuitivamente se apercebe. O nosso coração comprime-se porque sabemos que o professor que deixou atrás de si poderá ter sido, sem que ele o saiba, o único aliado possível que a sociedade lhe terá oferecido num combate que mal começa e que ninguém imagina como irá terminar. A riqueza expressiva desta notável realização cinematográfica está no vastíssimo leque de questões que levanta e no modo como nos deixa a pensar no assunto.
Infelizmente, como acontece com uma larga quantidade de obras exemplares, também este filme – apesar do seu enorme êxito – acabará por ser visto essencialmente por gente que necessitaria menos de vê-lo que os seus mais legítimos destinatários. Mais do que tudo será um erro considerá-lo um espectáculo “para professores”, dado que para estes – no que tem de mais pungentemente chocante – nada mostra para além daquilo que já abundantemente conhecem, na tempestuosa batalha que travam, dia a dia, por detrás das portas fechadas das aulas que dão aos filhos de toda a gente.

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