Category Archives: coxia central – teatro

O trigésimo aniversário da Cooperativa Bonifrates, de Coimbra, com a peça “Estilhaços”

Foi publicado hoje, dia 5 de Fevereiro de 2010 no Diário de Coimbra


O aniversário da Cooperativa de Teatro Bonifrates não teve lugar ao fundo daquele húmido corredor de garagens onde humildemente vamos ver os belíssimos espectáculos que desenvolve e apresenta. Foi acolhida, sim, no Cine-Teatro de Condeixa, numa magnífica infra-estrutura cultural onde todos desejariam se centrasse uma mais continuada actividade da sua inerente vocação de palco de artes, actualizadas algumas depreciações originadas pela própria descontinuidade no seu uso.
A peça “Estilhaços” (aquilo que resulta de qualquer coisa que ameaça por ter explodido sem apelo) já foi vista antes e apreciada na rigorosa metodologia (pode dizer-se científica) com que foi elaborada, no contexto que ela própria descreve: os horizontes fechados da violência doméstica, os verdadeiros protagonistas e gente ligada às instituições especializadas no seu tratamento sociológico e humanitário.
O texto da peça adopta uma versão literária sem diálogo interactivo entre os personagens, apresentando-os, ainda por cima, predominantemente confinados ao casulo de uma solidão muito menos que simbólica: uma espécie de gaiola ou célula cujo significado metafórico cruza de modo eficaz o sentido de um guichet de repartição, de toca de um esconderijo ou de célula de uma prisão.
É uma terrível “invenção cénica” que ampara um dinamismo de mutações permanentes na geometria do espectáculo e de que raramente se liberta a maior parte dos intervenientes.
Alguns deles “parecem” mais soltos, numa pose de intrusos aparentemente livres da lógica imediata do espectáculo. Puro engano, essa diferenciação resulta simplesmente de um artifício perfeitamente conseguido para diferir no tempo ou no espaço a “continuidade” lógica de planos narrativos.
No encadeado de monólogos intimamente trágicos a que se entregam todas e cada uma das “almas aprisionadas” existe, contudo, um intervalo de tolerante espírito de sacrifício, uma necessidade de justificar o injustificável e a ingénua alusão aos instantes fugazes de paz ou felicidade. O que não nos liberta a todos nós, actores e espectadores, é o estampido final que nos remete subitamente para o plano irrecusável da responsabilidade cívica e da noção inequívoca das realidades.
“Estilhaços” não é seguramente um espectáculo vocacionado para substituir um serão de sofá e telenovela. Ele é, mais propriamente dito, uma espécie de anti-telenovela, pelo rigor inflexível com que nos obriga a ver a sociedade despida dos subterfúgios duma aparente facilidade em espreitar pelo buraco da fechadura do sofrimento alheio, longe de todos os cenários da sociedade consumista do sucesso e dos finais felizes.
O único final feliz que pode descortinar-se em “Estilhaços” é olhar de frente a verdade completa, sem bónus de concorrente vencido ou prémio de consolação de participante ingénuo.
A continuidade da apresentação da peça está felizmente garantida por um protocolo estabelecido com a CIG (Comissão para a Igualdade de Género). Parabéns a ambas as instituições.

A fuga de Wang-fô no Teatro da Cerca de São Bernardo, em Coimbra

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Publicado no Diário de Coimbra de hoje, 29 de Janeiro de 2010

Enquanto nós, corpulentos e laboriosos caucasianos ensaiávamos a nossa titânica descoberta científica do mundo, outros grupos de povos há muito tempo voavam alto na senda de todas as possíveis aventuras do Homem, inventando tantas coisas que não cabe aqui serem sequer resumidas.
O TCSB teve a feliz ideia de nos vir mostrar um desses outros exemplares da raça humana, de tez lunar e estatura frágil, que nos conta a história felizmente recuperada das águas tempestuosas da distância intercontinental por Marguerite Yourcenar, escritora de um dos maiores livros da minha vida: “As Memórias de Adriano”.
Joana Pupo
(e a respectiva talentosa equipa de trabalho) dá corpo ao subtil contador de histórias que trata com gestos de vaporosa imaterialidade a enorme saga de um pintor e de seu leal ajudante e dedicado companheiro, através de aventuras que eu gostava de ter vivido, por transportar também comigo esse sonho sem nome que é o de dar vida a telas pintadas com poderes milagrosos e irradiante lucidez. Com secretas pretensões também eu gostaria de ter os meus trabalhos coleccionados pelos trágicos imperadores do Reino dos Han!…
O espectáculo é de uma sumptuosa simplicidade e resolve o problema central da arte de todos os tempos: fazer o máximo com o mínimo. Desenrola-se envolvido pela cor predilecta da liberdade do corpo enquanto dorme e é no seio desse negro que Joana o povoa de uma narrativa que exige esforço de atenção, é certo, para todos aqueles que estão habituados a querer elevar-se da insignificância da vulgaridade.
Não vou contar aqui a história adaptada nas suas simples complexidades nem vou aborrecer o leitor apressado que lerá (?) algures esta minha confissão de espanto: Houve na China um pintor chamado Wang-fô que ressuscitou o seu discípulo Ling do lenço vermelho da decapitação; o tal companheiro que o ajudava a transportar por vales e caminhos duas caixas vazias de bagagem, mas que levavam dentro de si tudo aquilo que queira a tenacidade imaginária dos privilegiados espectadores carentes de sortilégios, tal como aqueles que vi aquela noite na sala do TCSB.

Acabo com duas auspiciosas anotações:

Primeiro, a de que a verdadeira história de “Comment Wang fô fut sauvé” tal como a versão simplificada (?) de Marguerite Yourcenar, estão ao alcance de todos na internet, e bem assim uma infinidade de preciosos acompanhamentos pedagógico-literários da obra em questão.
A história original é – em extensão e complexidades de enredo – diferentíssima da excelente versão de Marguerite.
Segundo, foi um prazer sentar-me para ver este espectáculo numa sala povoada por pessoas de todas as idades, a maiora das quais podiam ser meus filhos ou netos.

ficha técnica

ideia e interpretação Joana Pupo colaboração criativa Tiago Hespanha apoio contador de histórias Cristina Cartaxo apoio interpretação e figurino Inês de Carvalho apoio movimento Ana Borges apoio técnico Mafalda Soares de Oliveira design gráfico Joana Pinho Neves fotografia Iuri Albarran operação de luz e som Rui Capitão assistente produção Carla Carreira produção Vagão, Assoc. Para Viagens Culturais e Artísticas

 

Dom Quixote (de Coimbra) pelo Teatrão, na Oficina Municipal do Teatro

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Publicado no Diário de Coimbra de 31 de Dezembro de 2009

Quando vi o anúncio do espectáculo do Teatrão, senti um ligeiro arrepio devido à indicação de que se trataria de um “Dom Quixote”, sim, mas “de Coimbra”.
A seriedade do trabalho que a companhia costuma apresentar dava-me as melhores garantias, mas não pude evitar aquele sentimento de temor perante uma aventurosa efabulação romântico-evocativa das virtudes mais usualmente celebradas da eterna Lusa Atenas.
A verdade dos factos veio tranquilizar-me dado que até a sóbria referência à paisagem que nos cerca é traduzida por um gesto poético da mais categórica eficácia teatral.
Um Dom Quixote pujante e juvenil (e que melhor metáfora poderia desejar-se para o que Coimbra gosta de ser) puxa do cantil de Sancho Pança e desenha no mapa imaginário que cada espectador transporta no seu olhar benevolente, por entre as árvores plantadas no instante, um rio Mondego, líquida sinuosidade em cujos recônditos ecoam os odores e sonoridades que nos têm embalado durante séculos. A plateia, plena de juventude, entende e vibra com essa forma subtil de dizer as coisas, tais como podem ser ditas mediante os melhores mecanismos da inteligência do Teatro.
É curto aqui o espaço para referir todas as implicações do trabalho construtivo desta iniciativa teatral, feita para ser, mais do que uma “simples” peça de teatro, um autêntico e variado projecto de intervenção e criatividade cultural. Comece-se por dizer que a peça em apreço é tudo menos simples e encaixa num universo cenográfico repleto de artimanhas e artefactos aparentemente “improváveis” para as fadigas e paixões “del ingenioso hidalgo de La Mancha”.
Com a parafernália envolvente de um decadente pátio das traseiras da sociedade consumista (ao qual não falta um avelhentado ecran por onde desfilam alusões ao entrecho e seus heroísmos) organiza-se no cenário um surpreendente “espelho do mundo”.
Há ali de tudo porém, para surpresa do espectador, para que ganhe credibilidade a narrativa fabulosa do Cavaleiro da Triste Figura e de alguns dos seus celebrados e dramáticos contendores, desde o Cavaleiro da Branca Lua aos maximamente simbólicos moinhos de vento de todas as visões às quais faz falta a consistência das duras realidades da vida.
O burro de Sancho vai aparecendo aqui e acolá, pitorescamente travestido pelos mais ingénuos e decadentes disfarces, marcando presença de que se não duvida porque impera no olhar de quem vê a receptividade franca que só o Teatro concede.
O final da peça é outra das surpresas que faz com que a história de Alonso Quijano e seu prosaico escudeiro possa entrar, aqui e agora, num imaginário a que queiramos chamar nosso.
As “dramatis personae” ascendem para o alto, lá onde no céu se alumia um cosmos de fantasiosas estrelas e cavalgam inesgotáveis instantes da fugacidade que lhes dá vida, pela via láctea da esperança; a tal reserva de energias que dá à juventude a tenacidade de continuar a ser o que é, continuando o Teatro a fermentar nas almas a lúcida compreensão da complexidade da vida.

Com peças como esta, com encenação e actores como estes, não podem queixar-se todos aqueles que se manifestam enfadados pela invasão do tédio e da trivialidade. Uma vez por semana, pelo menos, saiam da frente dos seus televisores e, TODOS AO TEATRO, que é atitude sempre nova e de urgente utilidade!…

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Ficha técnica e artística:
Dramaturgia: Jorge Louraço Figueira /
Encenação: Isabel Craveiro /

Elenco:

  • Inês Mourão,
  • João Castro Gomes,
  • Luís Campos Eiras e
  • Margarida Sousa / 

Música Original: Afonso Rodrigues e Filipe da Costa /
Apoio ao Movimento: Leonor Barata /
Desenho de Luz: Jonathan de Azevedo /
Dispositico Cénico e Figurinos: Helena Guerreiro /
Adereços, Construção e Montagem do Cenário: José Baltazar /
Vídeo: Alexandre Mestre / Sonoplastia: Rui Capitão /
Fotografia: Paulo Abrantes /
Grafismo: Sofia Frazão /
Costureira: Fernanda Tomás /
Produção Executiva: Isabel Craveiro, Inês Mourão, Leonor Barata e Margarida Sousa /
Equipa técnica: Alexandre Mestre, João Castro Gomes, Jonathan de Azevedo e Rui Capitão Contactos com as escolas: Nuno Carvalho /

Produção: O TEATRÃO 2009.

“Sabina Freire” de Manuel Teixeira-Gomes, pela Companhia de Teatro de Braga e pela Escola da Noite, no Teatro da Cerca de São Bernardo, em Coimbra

sabinafreire61clicar nas imagens para ver em ponto maior

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Publicado no Diário de Coimbra de 4 de Dezembro de 2009

“Sabina Freire” é uma “comédia” pesada que acaba com um retrato de morte ao som de um achado de Tony de Matos, assim qualquer coisa muito mais saborosa e muito menos terrível que “o nosso fado”…
Ir ver esta peça é o melhor conselho que posso dar a qualquer espectador que tenha interesse por espectáculos construídos com paixão e a melhor cultura teatral. A cenografia é fluida e esteticamente eficaz, a direcção de actores e as respectivas interpretações são intensas, criativas e perfeitamente equilibradas, e não falta à encenação um conjunto de subtilezas que desafiam o sentido de observação do espectador avisado, adereço imprescindível para que uma apresentação cénica seja aquilo que deve ser: uma heróica empresa para quem a faz e um inteligente desafio para quem a desfruta.
Sem desprimor para detalhes mais sérios das profundidades da peça, agrada-me referir uma variedade de tipos que vão aparecendo do princípio ao fim e que se aproximam de forma quase literal de figuras carismáticas da banda desenhada.
Entretanto o espectáculo não se justifica apenas por si próprio, dado que se destina a fazer parte das comemorações do centenário da República e, ainda por cima, lança mão de um texto escrito por um intelectual finíssimo, homem de muitas artes e saberes, que muitos anos depois viria a ser presidente desta mesma República.
A obra, cuja qualidade nos faz pensar que melhor seria ter-se ganho um bom dramaturgo do que perder-se um desenganado presidente de república, traça da sociedade circundante uma análise perspicaz, irónica e quase trágica. Hesito em escrever o “quase” porque, à parte ter o próprio considerado a sua obra uma “comédia”, não lhe falta uma dimensão tão vasta de implicações sociais e psico-analíticas que, mais de cem anos depois (foi escrita em 1905) ainda se oferece como um retrato praticamente impiedoso de circunstâncias e fenómenos que o tempo não lavou e que todas as arquivoltas do devir histórico não têm conseguido senão aprimorar (e oxalá esteja eu bem enganado!…)
O desamor da injustiça social, as convenientes acrobacias da “gente fina”, a organização metódica das negociatas, o salamaleque jeitoso, o poder volúvel, a ambição desmedida que não recua nem perante o crime e (oh, céus!) o crime em que a própria vítima é o agente de ilibação do criminoso são metáforas sim, mas suficientemente realistas para cidadãos cansados disso no palco permanente da vida.
Homenagear uma república não está nada mal mas fazê-lo com uma obra-mestra de um seu presidente que se viu obrigado a renunciar ao cargo às vésperas de uma longuíssima ditadura, auto-exilando-se na Argélia, e que só pôde regressar ao seu país depois de morto e até assim com incómodos da polícia política, já é uma atitude problematizante que baste.

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Manuel Teixeira-Gomes aos 20 anos (1881), visto pelo pintor Marques de Oliveira


Por todas as razões e mais uma, “Sabina Freire”, da autoria de Manuel Teixeira-Gomes e encenação de Rui Madeira, em proveitosa parceria de companhias, no Teatro da Cerca de São Bernardo, em COIMBRA ou em qualquer outro palco, a não perder.

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Ficha Técnica:

Sabina Freire
de Manoel Teixeira-Gomes

Theatro Circo (Braga)
Teatro da Cerca de São Bernardo (Coimbra)

Encenação: Rui Madeira


Elenco:
Actores da CTB:
Solange Sá (Sabina Freire),
André Laires (Júlio Freire),
Jaime Soares (Dr. Fino),
Carlos Feio (Padre Correia e Procurador Ferreira).


Actores d’A Escola da Noite:
Sílvia Brito (Maria Freire),
António Jorge (Augusto César e Ministro),
Ricardo Kalash (Epifânio),
Miguel Magalhães (Josezinho Soares),
Lina Nóbrega (Josefina).


Cenografia: Rui Anahory
Figurinos: Sílvia Alves
Desenho de Luz: Fred Rompante
Criação de Som e Imagem: Luís Lopes
Criação Gráfica: Carlos Sampaio

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Rei Édipo de Sófocles pela ESAD de Málaga, ou o XI Festival de Teatro de Tema Clássico no Museu Machado de Castro

Museo Gregoriano Etrusco, Edipo e a Esfíngie de Tebas, Kylix, c. 470 AC

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Publicado no Diário de Coimbra de 15 de Julho de 2009

As imensas diferenças que nos separam da sociedade grega e a funesta erosão da história (as guerras fratricidas e a insensatez tão trágica da humanidade em preservar a paz, a justiça e a concórdia) fazem com que as prodigiosas realizações helénicas nos apareçam sempre como visões de um mundo crivado de complexidades, mas fascinante.
Sabemos que o teatro na Grécia antiga não era um simples divertimento ocasional e representava, outrossim, uma série ordenada de celebrações que tinham tudo a ver com o civismo da polis, a sua religiosidade e toda a vasta gama de padrões morais e sociais do seu tempo. No caso da tragédia conduziam o espectador pelos itinerários da sua emoção profunda até às culminâncias da katharsis, no “alinhamento ético entre as emoções e a razão”, ou na “harmonização das mesmas emoções com as percepções e juízos do mundo”.
Mais perto de nós, e na actualidade, a mesma sociedade que é capaz de reunir em Madrid 85 mil adoradores dum pobre (???) rapaz da Ilha da Madeira, dono duma inteligência muscular de sonho, escutando em apoteoses de delírio inútil o seu próprio espanto de discurso vazio, traz-nos de Málaga um grupo de estudantes de arte dramática encenando o Rei Édipo de Sófocles.
Os espectadores presentes seriam cerca de mil vezes menos mas emocionaram-se muito mais profundamente, tendo desfrutado das vantagens de uma noite mágica e muito mais fresca que a tarde das confusas paixões de Santiago Bernabeu.
O espectáculo decorreu no belíssimo enquadramento do pátio do Museu Machado de Castro, cercado pelo clima quase ateniense de uma colina ornada pelo “horizonte de perros” e de sinos que pela noite entrante vieram dizer-nos a seu modo que a hora e o drama estavam de visita e que nos tocava a nós vivê-los em toda a sua intensidade.
O grupo de estudantes malaguenhos da Escuela Superior de Arte Dramático teve uma prestação notabilíssima pelo seu rigor e, essencialmente, pela paixão de visceral entrega ao labor de representação teatral.
Estiveram presentes um conjunto magnífico de vozes em cuja solidez expressiva não será despropositado reconhecer a pujança genética das grandes tradições do cante andaluz e a intensidade sanguinolenta das celebrações da Paixão, recheando de contradições e complexidades o bem proporcionado recinto e o esplêndido pórtico.
O prólogo desde logo nos confronta com exigências de castigo justo por crimes infamantes, e que motivação mais actual do que essa, mais tremendamente adequada para justificar que nos debrucemos sobre suas causas e efeitos?
Não fugindo a um enquadramento próximo do imaginário clássico, sem interferências de “actualidade” provocante, a impressionante encenação que nos veio de Málaga tão vigorosamente interpretada pelos seus jovens não deixa de rematar com uma silenciosa cena de “apropriação” sorrateira do poder por um personagem que – como todos os políticos de sucesso – consegue sobreviver às tragédias de todos os outros homens e cingir de forma “oportuna” a sua testa com os seus símbolos máximos.
É um apontamento subtil, já fora do texto e depois de consumada toda a tragédia, que nos dá a entender que estes estudantes e seus mestres não são apenas académicos conformados, mas cidadãos preparados para abordar criticamente a essência da realidade, deixando disso um testemunho precioso e eloquente.

Oedipus Rex. 1922. Oil on canvas. 93 x 102 cm. Max Ernst

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O Cabaré da Santa do Teatrão, ou os melting pots que falam português na Casa Municipal do Teatro

foi publicado no Diário de Coimbra


Estamos de facto num tempo de prodígios nem todos funestos, felizmente. Estive agora mesmo de visita ao blogspot.com do Teatrão e, imagine-se, tenho ao meu alcance trailers alojados no YouTube de algumas das suas realizações teatrais e acesso à asa brasileira deste enérgico condomínio artístico, o Folias de Arte, de São Paulo. O trailer, que era exclusivo do universo cinematográfico está agora ao serviço do teatro. Os meus sinceros parabéns!
O universo de significados especializados de que o parágrafo anterior é prova evidente é expressão elementar das mutações culturais que a actualidade nos oferece com toda a vastidão de consequências fracturantemente férteis que o fenómeno envolve.
O Cabaré da Santa é um notável trabalho de teatro que também trata, a seu modo, desse estado de coisas e representa para os privilegiados espectadores de teatro de Coimbra uma oportunidade a não perder de passarem um belíssimo serão na companhia de jovens que nos apresentam um espectáculo poderosamente inoculado por uma elaborada teia de ilusões que dá o braço a uma forte componente musicológica em contexto de propícias complexidades linguísticas e interculturais.
Rica de intertexto, vibrante e imprevisível, a peça desestabiliza o espectador mais composto através dum excitante e excitado percurso com variedade de facetas e abordagens culturais e artísticas que podem ser apropriadas ao gosto de cada um.
Este Cabaré poderá, desejavelmente, ser visto e apreciado mais do que uma vez. Não só porque é uma complicada teia de enredos difíceis de descodificar plenamente numa primeira abordagem, mas também porque pode ser apreciado com mimos de chá, vinho do Porto ou bom tinto (eu sou testemunha…). Na minha modesta opinião esta última componente devia estar mais assiduamente presente em certo número de eventos culturais, et pour cause…
Se esta terra ainda vai cumprir seu ideal, se o Amazonas desagua de facto no Tejo numa pororoca ou se vamos de ter de rever o nosso perfil são coisas que não me dão muito cuidado. O mundo muda com tal rapidez que vaticínios, neste como noutros casos, é melhor esperar pelo fluir deste jogo que não acaba nunca. Fundamentais serão de facto, além das inevitáveis razões da elaboração intelectual, o humor e o sexo, essas duas artes tão necessárias como difíceis no que envolvem de sensibilidade, subtileza e a sempre indispensável inteligência.
A peça evolui também nesses terrenos, não abusa nem exagera, mas sempre ventila um pouco o clima aparentemente árido da fleuma nacional. Vendo as fotografias da versão brasileira da peça publicadas na internet, ficam comprovadas nesse sentido as vantagens da miscigenação cultural entre Portugal e o Brasil e… a distância enorme que nos separa do “impávido colosso” que é o país do Carnaval.
Depois das inenarráveis negociatas de todas as épocas entre Portugal e Brasil, de que a peça também se faz eco e metáfora, depois da “invenção da mulata” – a atitude dita mais genial dos portugueses além mar – e da telenovela, cabe agora ao vulgar de todos nós descobrir e desbravar já não as veredas do sertão, mas esse privilégio sem fim que representa para nós a desconhecida genuína cultura daquele país. A sua variedade, o seu colorido, os atrevimentos que não conhecem fronteiras de raça e de preconceito, a excitante enormidade do seu espaço físico e dos intermináveis horizontes do seu espírito esperam por todos nós de braços abertos.
A peça acaba com a concepção luminar de um certo Brasil descobridor de um certo Portugal. Certo, não tem problema, meu irmão.
Quanto a mim mais me inspira, para já, um sempre novo e prodigioso oiro do Brasil com pele de todas as cores, revestido de todos os aromas da terra de que podemos e devemos, por todas as razões imagináveis, lançar mão aberta. E fazê-lo decididamente, com toda a magnífica legitimidade de usarmos a mesma língua, recompensa merecida de séculos de labutas dolorosas e viagens arriscadas.
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“Orgia” de Pier Paolo Pasolini, pelos Artistas Unidos, no TAGV

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Publicado no Diário de Coimbra de 23 de Fevereiro de 2006

Ir ver uma peça como “Orgia” de Pier Paolo Pasolini sem fazer um certo trabalho de contextualização ou sem dispor de referências sobre o critério estético e cultural que correspondeu à sua origem, pode largar o espectador no labirinto de uma perplexidade indesejável.
Menos mal que desta vez ainda tivemos a oportunidade de adquirir, a um preço módico, por adequada iniciativa dos Artistas Unidos e dos Livros Cotovia, uma tradução de dois originais de Pier Paolo, entre os quais o desta peça.
Quem tenha uma memória alongada da obra do autor, cujo “Evangelho segundo S. Mateus” de 1964 produziu no Portugal desses tempos uma impressão avassaladora, e se disponha a compulsar alguns textos de sua própria autoria sobre teatro, o suicídio, a “diferença” e muitas outras coisas, ficará mais à vontade perante esta anunciada “crónica das pobres emoções sadomasoquistas de dois cônjuges pequeno-burgueses”.
Como fazê-lo? Indo à Internet, é claro, bastando consultar a sempre enorme quantidade de “sítios”, entre os quais um que me embarcou directo num depoimento do próprio artista sobre “Orgia” e duma breve mas explícita entrevista dada na altura em que a peça se estreou em Torino, Setembro de 1968.
O endereço desse documento é compridíssimo e a sua publicação sob forma escrita seria improdutiva. Para os interessados, como é hábito, publico esta crónica no blogue acima indicado, onde ficará uma ligação directa para esse precioso documento, com o qual deixo os meus leitores, o que me poupa a exercícios de inútil erudição.
Quanto à peça foi uma magnífica oportunidade para conhecer o soberbo texto de PPP, à qual se fez ausente a plateia de interessados espectadores do TAGV, frequentemente numerosa quando se trata de peças “estreladas” por nomes apetecíveis do universo mediático.
Muita coisa poderia dizer-se sobre ela e sobre os inesgotáveis temas de que trata.
Ainda na qualidade de espectador fiel dos filmes de Pasolini, senti-me um pouco “arrefecido” pela carência de actores cuja figura, cuja voz e cujo estar fosse compatível com a habitual “paisagem humana” das suas obras de cineasta. Ninguém aqui deseja comparar evidentemente o elenco de uma peça feita na Lisboa dos nossos dias, e o de um filme original do autor, frequentemente confiado a actores arrancados por ele mesmo à vida vivida naquela margem mais intensa e radical em que ele próprio se movia.

“E agora divirtam-se”, disse o enforcado

É com esta frase, de uma ironia desapiedada, lançada pelo protagonista de Orgia aos espectadores – “seus inimigos” – que termina o prólogo desta peça, escrita por um autor que considerava o monólogo como o mais teatral dos acontecimentos, critério em que assentava a sua noção de “teatro de palavras”.
E já agora, venha ou não a propósito, sobre sexo:
Numa sociedade como a nossa, onde tão assiduamente se papagueia a legitimidade do “diálogo abertíssimo” e da “informação a 360 graus” sobre as questões da sexualidade, nem por isso a peça declamada no TAGV pôde ter concitado a curiosidade sobre este tema raro numa sociedade secularmente “letrada” e “culta” na qual, ou eu me engano muito, ou muita gente anda por aí a fazer de conta que não faz parte da paisagem.
A propósito dos incompreensíveis ausentes, a menos que já saibam tudo sobre a matéria ou estejam cem por cento enfadados pela estética pasolineana, poderia talvez concluir-se que sobre o assunto pesa ainda a aversão do medo, ou a indiferença amassada na hipocrisia, estigmas iguaizinhos àqueles contra os quais Pier Paolo esgrimiu a sua trágica e contundente mensagem.
Esta coluna, que fala apenas de teatro (ou seja, da matéria de que é feita a vida toda) não quer deixar de lançar este confidencial alarme, referindo muito de passagem um silêncio equívoco que persiste ou uma fome que, adiada, pode cavar na alma o poço frio duma indiferença problemática por nós mesmos.