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Os painéis de azulejos da Rua Olímpio Nicolau Rui Fernandes

Os painéis de azulejos da Rua Olímpio Nicolau Rui Fernandes

A seguir às grandes movimentações sociais do 25 de Abril surgiu na longa parede que se estende à frente do Mercado D. Pedro V uma espécie de mural revolucionário de que deve haver escassas memórias em escondidos arquivos fotográficos.
Eu mesmo guardei alguns slides que documentam esse vestígio do entusiasmo popular e que comprovam esclarecidamente que o acto de requalificar esses muros, entre 1984 e 1986, não foi um grande acto de coragem: foi apenas um acto de lucidez mínima, conforme documenta a imagem acima.
Quanto aos azulejos de substituição houve certamente pressa demais em fazer obra e não houve coragem de consultar alguém que estivesse à altura do restante património edificado na cidade. O local, pela sua extensão e configurações seria sempre problemático, não ajudando o facto de ser um espaço que se atravessa geralmente sem olhar para o lado.
Conheci o seu executante como brioso profissional de artes gráficas, o Senhor Amílcar Matias, do qual conservo a melhor recordação pela sua paciente e laboriosa cordialidade. A encomenda que lhe fizeram era coxa, o conceito da obra proposta não se insere nem na tradição monumental da cidade nem na memória que o país (julga que) tem do que são os azulejos como técnica artística de revestimento.
A obra configura-se como uma simples “passagem de slides”, citações tal e qual de ângulos monumentais da cidade de fotogenia elementar. As figuras escolhidas de “postal turístico” são envolvidas por um halo de brancura que produz com a parede envolvente um contacto duma frieza extrema em tudo distanciado de qualquer dos opulentos capítulos da gramática expressiva da azulejaria portuguesa. Uma obra de arte que cobrisse todo o enorme espaço em questão teria que ter sido concebida como um todo organicamente estruturado, com diferenciações no tipo de cobertura e vectores criativos bem orientados quanto ao seu conteúdo plástico e referencial.
Consideremos apenas dois casos concretos de murais cerâmicos que se tornaram emblemáticas dos locais onde se situam: o conjunto de sete painéis de azulejos para a AAC, “A Evolução do Traje Académico” de 1958, de João Abel-Manta, situado em Coimbra apenas algumas centenas de metros mais acima, e o painel da Ribeira Negra de Júlio Resende, à saída do tabuleiro inferior da Ponte de D. Luís I, no Porto, de 1985, exactamente contemporâneo daquele que estou a referir.
Os primeiros estão perfeitamente enquadrados na estrutura arquitectónica de que fazem parte, representam uma pesquisa rica de alusões significativas relativamente ao tema proposto e alternam de forma ideal com materiais de cobertura criteriosamente escolhidos e plasticamente orientados. O segundo é uma obra de estética muito austera e forte sinalização humanista, em suportes de grés vidrado de 30×30, que se cinge à curva ascendente de forma escalonada num aproveitamento ideal da altura a que se encontra, para se tornar visível e atingir força monumental. Infelizmente a obra em apreço não tem nenhuma destas características, não possui potencial simbólico nem expressão emblemática que lhe valha e irá doer enquanto durar, pela insignificância burocrática da concepção que lhe deu vida.
Ao fim de uma geração lá segue desempenhando o seu papel de zona de passagem que não empolga ninguém, de que quase nada se tem falado nem ensina a ver aquilo que a cidade tem de mais valioso.

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Amilcar Matias: Era natural de Casais do Campo, estudou na Escola Avelar Brotero e exerceu ao longo de toda a sua vida a actividade de artista gráfico com extensa obra feita, que complementou com actividades criativas diversas no domínio da cerâmica, da ilustração e do cartaz. Também se dedicava com gosto à pintura que expôs por diversas ocasiões, nomeadamente na galeria do Primeiro de Janeiro, em Coimbra.

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O painel de azulejos do Instituto do Emprego de Coimbra, de Eduardo Nery, na Avenida Fernão de Magalhães, em Coimbra

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Aspecto do painel de azulejo “Jardim da Manga”

Este comentário foi publicado no dia 26 de Fevereiro de 2010 no Diário de Coimbra

Depois de ter falado em datas muito diferentes e distanciadas do painel de azulejos do Montepio Geral e do trabalho de cromatismo urbano do ex-Edifício dos CTT, faltam-me ainda mencionar duas outras obras da concepção de Eduardo Nery que se encontram nesta cidade e que podem ser observadas em espaços públicos. Uma encontra-se no Instituto do Emprego e Formação Profissional, no nº 660 da Avenida Fernão de Magalhães e outra num dos corredores do Centro Cirúrgico de Coimbra, na Espadaneira, ao lado direito da estrada que conduz a Taveiro.
É a primeira destas duas que vai ser aqui hoje brevemente analisada no que tem de plástico-simbólico e no que significa para um espaço público ser prendado com um elemento de valorização patrimonial e artístico, usando para mais essa (dita) singela e muito particular técnica das artes decorativas, tida como sendo um dos mais genuínos exemplos do génio criativo da alma lusa. Mais uma vez se deve a sua criação à centralidade lisboeta pois deriva de uma opção de encomenda tomada na capital pela direcção do então designado Instituto de Emprego que no decurso dos anos oitenta tinha alguma dinâmica interna quanto a aquisições directas para a decoração de espaços onde instalava os seus serviços. Aliás, foi também uma empresa de Lisboa que foi encarregada da execução do painel e da sua aplicação no local em 1988, a Azularte, Lda.
Tem a particularidade de conter uma alusão ao património arquitectónico da cidade de Coimbra, mas essa escolha deve-se à sensibilidade do artista e às suas memórias e não a qualquer outra razão específica.
É um trabalho que tem como suporte os mesmos azulejos de chacota grossa que fazem o regalo de espaços nobres e selectos mas que oferece para além disso a sugestão do fantástico e do inesperado: o familiar mas esteticamente requintado templete do Jardim da Manga arranca para o céu como se fosse uma nave espacial, quebrando a serenidade monástica do convento de Santa Cruz em cujo segredo tantos anos viveu, rodeado de silêncio e de pensamento. É uma ruptura feita a partir da naturalidade tranquila dum painel à maneira do Sec. XVII, conformado com o seu branco e azul e com a sua perspectiva renascentista, em cujo ponto de fuga se opera a “explosão” dinamizadora da figura que ascende aos céus animada de velocidade e evidenciada pela cor amarelo laranja. As próprias peças cerâmicas que no motivo inferior se encontram ordenadas em malha vertical/horizontal, ganham um dinamismo que passa pela meia esquadria e atinge a inovação de deixar vazios certos sectores do painel que revelam a própria base do reboco de suporte, com azulejos aplicados “ao acaso”, animados pelo acidente explosivo da inesperada “nave do futuro”…
A transformação que a realidade presente veio trazer ao ambiente claustral de antanho não é excedida em muito pela sugestão da nave espacial já mencionada. Para os frades que ali leram e pausadamente meditaram, a passagem de milhares de automóveis e autocarros, o rio de gente e o ruído, pouca diferença fariam da explosão de uma nave que os derrubasse de espanto e de antecipação mágica. Aqui, como em muitas situações da vida, a realidade equivale a própria ficção e rouba lugar ao sentimento de surpresa ou à capacidade de ilusão que resta no nosso espírito.
Esforçando-se por alcançar alguma coesão com o espaço envolvente, Eduardo Nery insistiu em alargar a sua intervenção à barra inferior e aos pilares de suporte, para criar uma complementaridade com a arquitectura do local e para que o tema do painel não parecesse tão despojadamente casual como em princípio poderia ficar se lhe faltasse esse remate ambiental.

O painel de azulejos do Instituto do Emprego de Coimbra, de Eduardo Nery, na Avenida Fernão de Magalhães, em CoimbraO mesmo painel numa visão mais geral. Notar a barra inferior que se prolonga mais para a esquerda e a cobertura azulezar do pilar situado ao lado direito da imagem, referidos no texto acima

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Manuel Cargaleiro no Museu do Vinho Bairrada, na Anadia

Cabral Moncada

Manuel Cargaleiro, painel de azulejos, 1992; visto site Cabral Moncada Leilões, pesquisa internet.

 

Publicado em 20 de Janeiro de 2010, no Diário de Coimbra

Naquele Sábado apresentei o meu neto a Manuel Cargaleiro. A cena toda começou comigo a chegar atrasado e a ter de me armar em fulano da imprensa para furar sem cerimónias por uma sala já à cunha para assistir a uma sessão impregnada pelo orgulho legítimo de uma comunidade trasbordantemente presente. O dever de ofício constrange-me a dizer coisas insignificantes como ter falado com fulano, ter ouvido falar sicrana, ter sido abraçado com emoção à frente de toda a gente por António Pedro Pita e ter tido pena de comer tão pouco leitão e apenas provado o vinho.
Importante foi ter apresentado o meu neto a Manuel Cargaleiro sem ter tido a coragem imaginária de lhe dizer a verdade magnífica: olha, este senhor é que me ensinou a pintar antes de passares tu a ser meu professor em artes. O meu neto Flávio, além de ser a minha mensagem genética ao futuro do Universo, descobriu e ensinou à Vóvó, que é uma ingénua celestial em mecanismos técnicos, como é que funciona aquele saca-rolhas do Museu que ele conhece de ginjeira de casa do avô Vítor.
Quando me apanhei frente daquele que não é Cristo mas a quem todos chamavam Mestre, fui dizer-lhe assim: conheço Manuel Cargaleiro muitíssimo bem há mais de quarenta anos e vinha apresentar-lhe três gerações de olhares convergentes nas sumptuosas simplicidades produzidas pelas suas mãos que me fazem lembrar as do meu avô mas de facto era impossível porque mal tem idade para poder ter sido meu pai.
Agora que me desculpe a primorosa e, como é tradicional, opípara, realização do acontecimento e um dos respectivos catálogos, o que diz respeito a MC: Obra Gravada é uma expressão que pode estar (e estará) correcta, mas acorda no apreciador ansioso uma gama tão vasta de expectativas e horizontes que me obriga a falar da distância formidável a que se encontra a vibração matérica dos originais propriamente ditos. Uma tela é uma tela; as gotas de tinta têm a espessura de rastos de sangue fossilizado por um dramatismo sem tempo; a passagem de um pincel arrastado com suavidade por sobre outra camada de tinta deixa um tracejado de vestígios que só a alma vê, se tiver vícios de uma sensualidade que cavalga a utopia. Para dizer bem isto só, por exemplo, Agustina Bessa-Luís, e eu era lá capaz de escrever um artigo para o Diário que chegasse aos calcanhares da grande Senhora.
Já lá voltei à Anadia, sem o Flávio, a mana e o pai, para ver tudo mais uma vez. O Flávio agora tem mais que fazer do que mergulhar na “pintura vitoriosa” de uma varanda que “é a coisa mais importante que há numa casa” e nos “jardins suspensos” como os de Sintra que têm muitos nomes “e descem dos muros como um lenço de lágrimas”.
Já lá voltei, como ia dizendo, para ver de facto o que há para ver e o máximo dos máximos é um filme que é mostrado numa salinha estreita com tamboretes forrados de negro que não deixam adormecer ninguém. Fala Mestre Manuel Cargaleiro, vêem-se montes de coisas de agora e do meu tempo e convive-se com o sorriso impassível do artista.
As obras que estão patentes servem para que pessoas como eu consigam alcançar para além das cristalinas ilusões de quem ama sobreviver no corpo e pelo espírito e persiste na teimosia de reviver todas as sensações deste e de outros mundos.

Cargaleiro-Museum

Manuel Cargaleiro; óleo s/ tela 1979; Museu Cargaleiro / Castelo Branco (pesquisa internet)

.Tudo isto na Anadia num centro cultural que tomara Coimbra e só tenho de dizer um dia destes ao Senhor Litério Augusto Marques que a sinalização está tão bem feita que até eu que sou um tipo desenrascado a chegar a sítios me vejo, sempre que lá tenho ido, em palpos de aranha para chegar ao Museu do Vinho Bairrada.

Métro station Champs-Elysées-Clémenceau (3)

Manuel Cargaleiro, painel de azulejos,  Paris; Métro station Champs-Elysées-Clémenceau, pesquisa internet blog Paris-bise-art

Escrevi uma primeira versão do comentário a este acontecimento, que guardei sem publicar, e que me atrevo a mostrar a seguir, por diversas razões que vão sublinhadas a bold:
Foi a exposição de Manuel Cargaleiro em 1973 na Galeria São Mamede em Lisboa que me repassou de indeléveis emoções, como ainda hoje acontece sempre que me encontro com obras suas, e bem recentemente assinalo a exposição que esteve presente no Museu Municipal de Coimbra, a qual não tive o ensejo de referir apreciativamente neste mesmo Diário de Coimbra. Temos todos agora a oportunidade imperdível de visitar uma mostra de múltiplos de sua autoria, de diversas épocas, no Museu do Vinho Bairrada, na Anadia.
Entre outras prendas dessa iniciativa tenho a salientar a projecção de um filme a respeito do Mestre que corre repetidamente durante 50 minutos – à discrição de qualquer visitante, e que recomendo de uma forma inequívoca. Pegando nas próprias palavras de MC ao longo desse documentário refiro a sua admiração pela obra de Henri Matisse. Aligeirando um pouco a pressão anímica que me estorva de dizer porventura aquilo que deveria, formulo apenas uma pergunta que muitíssimo ou nada pode ter a ver com tudo isto: Será Manuel Cargaleiro o Henri Matisse português, ou será Henri Matisse o Manuel Cargaleiro francês?
Qualquer resposta a esta pergunta será tão tonta como a pergunta em si mesma, servindo-me eu dela, aqui e agora, para me libertar do peso opressivo de ter de dizer tudo aquilo que deveria caber no meu discurso e não cabe.
MC tem sido caracterizado por uma certa crítica atabalhoada como um decorativista assumidamente feliz com o mundo, detentor de pleno sucesso, privilégio insuportável para certas almas tão abundantes como presumidas. Uma outra versão não menos precipitadamente redutora costuma referenciá-lo como sucedâneo venturoso vagamente protegido de Maria Helena Vieira da Silva.  Não tenho tempo a perder com idiotices mas estou disponível, agora ou em outro local a combinar, para desmontar de maneira incansável e apaixonada o desastroso disparate destas presunções sem tom nem som.
Tive, há cerca de 30 ou 40 anos atrás, a oportunidade de ver um filme documental em que o próprio artista tinha a suma coragem e a generosidade raríssima de dar a conhecer de forma franca o seu modo de estar frente à paleta do óleo ou perante a estante do inventor de obras cerâmicas. Executou, nem mais nem menos, à frente de todo o mundo, a forma como congeminava e levava a termo o mesmíssimo tipo de obras que já então eram entendidos e admirados por todos os seus inúmeros seguidores. Retirar desse modo ao gesto criativo o segredo da intimidade não o enfraquece nem o diminui. Permite sim que se escreva na parede luminosa da sensibilidade, em letras bem visiveis ao longe, uma mensagem de convívio directo com o espírito das artes e com a alegria do gesto consequente.

Fotografias de J.M.F. Coutinho na Livraria Almedina estádio, em Coimbra

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lagrima

 

Publicado hoje, 15 de Janeiro de 2010, no Diário de Coimbra

Fazer fotografia pode ser um simples passatempo ou uma vaga vocação de registo de imagens marcada pelo sentido da contingência do tempo, das coisas ou dos seres.
Há, contudo, um reduzido número de pessoas que fazem fotografia como um pintor pinta, como um actor de teatro representa ou como um poeta constrói os seus poemas. Ou seja, para sobreviver. Para manter com a realidade e toda a complexidade de que ela se reveste uma ligação mais estreita, essencial e expressiva; uma tentativa de equilíbrio de forças que nos restitua aquele sentimento indispensável de pertença, de domínio, de entendimento das coisas.
Registar as imagens, por conseguinte, como tentativa de materializar impressões que merecem sobreviver e que jamais “aconteceriam” para além do seu segredo mágico, salvas da infinitude das coisas desconhecidas pelo privilégio do olhar.
O fotógrafo torna-se pois intérprete e tradutor de uma coisa imponderável, diferente e destacada do próprio objecto da imagem em si, uma transcendência nova, uma criação, em suma.
J.M.F. Coutinho é um fotógrafo que se situa exactamente nesse ponto de vista, tendo além disso o hábito de querer arrastar consigo uma quantidade de outros artistas, na senda de uma procura sem fim. Serve-se de todos os meios das modernas tecnologias ao seu alcance para fazer confluir inventores de imagens, praticando uma militância de generosidades que se torna rara na voragem de indiferenças de um quotidiano tantas vezes vencido pelo turbilhão das imagens sem sentido, pela torrente invasora do excesso televisivo, publicitário, propagandístico.
Olhando um conjunto de fotografias suas organizo o que vejo entre dois extremos tipológicos. Num deles amostras da realidade, objectos e seres nomeáveis, marcados entretanto por uma economia expressiva que os coloca muito perto do silêncio, da solidão e duma preocupação de mostrar apenas o essencial. No outro extremo a componente documental vai-se rarefazendo, dando lugar a uma visualidade pura, transformando o objecto ou a porção captada do real em exploração de texturas compactas ou densidades subtis. A luz, a água, a transparência ou a natureza palpável de objectos ainda perfeitamente identificáveis, por vezes, transformam-se em “acontecimentos” autónomos que não ouso classificar de abstractos, mas que independem largamente da sua matriz visual primária. Uma tal procura torna essencial o visível conferindo-lhe uma dimensão filosófica pela austeridade dos meios, sem lhe furtar a componente poética pela carga de “equívocos” ou de mistério que consigo transporta. No meu entender a sólida substância de que se constroem muitos dos trabalhos de J.M.F.Coutinho torna fácil memorizá-los. Tomo por isso a liberdade de os purificar da sua categoria de objectos legendados, ou legendáveis. E ao folhear as suas imagens, quanto mais olho, mais vejo. É este, penso eu, a função primordial da diligência de qualquer artista de artes visuais: dar a “ver”, de forma amplificante, uma certa captação das infinitas faces do mundo. Amplificante, no sentido em que daquela única imagem podemos extrair muitas imagens, ou muitas percepções do mesmo objecto retratado. O objecto ganhou vida própria, transformou-se numa entidade autónoma face ao próprio motivo e à sua circunstância.

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Fotografias de J.M.F. Coutinho na galeria da Livraria Almedina, ao estádio Municipal da cidade de Coimbra.

J.M.F. Coutinho e a sua obra fotográfica

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infinito


Conheço de J.M.F. Coutinho, isto é José Manuel Ferreira Coutinho, artista fotógrafo, por um variado conjunto de textos escritos que divulga na internet a respeito do seu percurso pessoal e ficheiros gráficos anexos, além de uma variada presença noutros sites especializados em fotografia.
Tive ainda acesso a um volumoso pacote de originais seus, o que alargou bastante a memória que tinha da exposição que fez no edifício Chiado, as “Filosografias”, e melhor me lembraria se para esta mesma mostra tivesse sido feito um catálogo, como é hábito na instituição relativamente à generalidade dos artistas que ali expõem e que se justificaria plenamente pelo mérito das obras expostas.
Vou deixar de lado o evidente prazer (ou necessidade) que sente em titular os seus trabalhos, depois mesmo de ter lido a defesa que faz dessa atitude. Lembro-me agora que também eu coloco títulos aos meus trabalhos de pintura. Com a diferença que os títulos que coloco aos meus trabalhos “nada” têm a ver com o conteúdo plástico dos mesmos. Ou seja, fogem deliberadamente a qualquer coisa essencialmente inerente à sua matéria plástica. Não confluem. São apenas um eco que, numa parede oblíqua, atira para outras paragens a multiplicidade das leituras possíveis. Ficam por isso ligados apenas à sua “matéria crítica”. No meu entender a sólida substância de que se constroem muitos dos trabalhos de J.M.F.Coutinho torna fácil memorizá-los. Tomo por isso a liberdade de os purificar da sua categoria de objectos legendados, ou legendáveis. Tenho uma das suas vinte e cinco fotografias aqui ao meu lado, e tenho olhado para ela à medida que venho escrevendo este texto e cada vez me sinto mais capaz de “vê-la” por dentro da sua complexidade, da sua espessura significativa. Como tenho as vinte e cinco fotografias sobrepostas faço agora um outro exercício de observação: Substituo a primeira das provas observadas por uma outra da série que aqui possuo. E o fenómeno do ganho de legibilidade repete-se a cada mudança de imagem.
Chegando a este ponto da apreciação do trabalho de Coutinho é praticamente supérfluo dizer que se trata dum diligente militante de causas artísticas, envolvido em projectos muito ambiciosos de agremiação cultural, envolvendo muita gente de muitos lugares.
Leio mais uma vez alguns dos seus textos e acho significativa a associação da calma e da serenidade, que usualmente valorizam e caracterizam os seus momentos de captação de imagens fotográficas.
É muito interessante fazer a conotação desta ideia com o conjunto de trabalhos que produz e aprender com isso a associar a atitude de olhar com a capacidade de ver. Encontrar, sobretudo, na pluralidade dos objectos e dos lugares que coloca ao alcance do observador aquela “pico” de tensão, que gosta de chamar “punctum”, à maneira de Roland Barthes, e que de forma tão particular pode ser chamado a referenciar algumas das suas captações.
A tranquilidade observativa, um certo culto do “silêncio”, são de facto condimentos particulares do seu modo de ver. Esse princípio ordenador conduz-nos a uma outra dimensão das suas observações: a tendência de sintetizar, de confinar ao essencial os meios de que se serve sem que eles percam a opulência expressiva. Uma imagem pode ser reduzida ao seu essencial, pode não depender de efeitos documentais e de focagem, pode “transgredir” até e não perder a capacidade de nos esclarecer, dando-nos prazer e provocando-nos emoção, ainda conforme Barthes. Alguma arte fotográfica parece conduzir esse princípio de economia de sinais a um despojamento tão extremo que subtrai inteiramente ao observador o motivo de olhar para ela. J.M.F. Coutinho é um homem delicado e não quer seguramente deixar-nos de “olhar vazio”. Algumas das suas sínteses mais concentradas são, aliás, aquelas que mais emoções nos comunicam. Umas vezes através da alusão poético-simbólica, outras vezes mediante o reforço da plasticidade dos elementos colhidos, por uma concentração de valores significativos de encontro à sua própria saturação.

segredo

No Edifício Chiado, em Coimbra, pintura de J. M. Bustorff (Ícaro espera por vós…)

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Ikarus ou homâge à El Greco, 2009 Têmpera a ovo com pigmentos s/ tela 220 x 220 cm


Não estamos em Creta, mas talvez nos encontremos de certa forma no exílio. O Rei Minos veste-se de mil disfarces e o voo de Ícaro perde sustentação despenhando-se sobre um mar de sombras desconhecidas, fragmentando-se em inúteis penas desirmanadas aquilo que foram asas, derretidas pelo sol impiedoso que condena sem remédio a cobiçosa ânsia de altitude, de fortuna e de domínio ilimitado de horizontes. A visita à exposição de Jochen Maria Bustorff desenrola-se toda dentro da sala iluminada e encanta-nos Mozart, a finura da sua musicalidade, da mesma forma que nos confrangem os alucinantes desastres da guerra, a semi-oculta paixão de Cristo pela carnavalesca contradição da desconcertada violência e nos aquece o sangue a cálida presença de mulatas estendidas ao sol, algures perto dos trópicos. Mas Ícaro está lá, à entrada da exposição, como um aviso solene pelo qual passamos quase distraídos, como se nada fosse o espectáculo de um homem despenhando-se na vertical, complicado pelos remotos mistérios do mito e pela teatralidade do drama barroco. Homenagem a El Greco ali se diz mas pergunto eu se não se tratará com efeito de um outro retrato de todos aqueles que olham muito e confusamente procuram organizar na mente a acumulação de sinais, o coro de gritos, a chinfrineira das campanhas.
Olha, aquele tipo vai de cabeça a fundo, dirão alguns. Os mais tímidos poderão pensar, não sem algum temor, será aquilo o retrato de algum de nós? Jochen Maria Bustorff, cujos cruzamentos com a identidade cultural portuguesa conduziram o seu próprio nome à curiosa assimilação simplificante de José Maria Bustorff apresenta aqui uma pintura de tão genuína autenticidade que dispensa as habituais referenciações estilísticas e a enumeração das dignificantes influências matriciais.
Bustorff evidencia a vitalidade própria das grandes culturas e dos homens cujo destino parece conduzi-los a medir forças com o mundo em geral, numa recusa evidente desse relativismo fácil em que se deixa enlear a maioria. Vários continentes, uma apreciável pluralidade de horizontes e uma multidão de alusões complexas fazem parte do seu campo de pesquisas, vivências e questionamentos de natureza universalista, logo, tendentes a ultrapassar toda e qualquer contingência ou limitação atribuível ao “meio”.

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Via Láctea, 2000-2005 Têmpera a ovo com pigmentos s/ tela 300 x 600 cm


A técnica que exibe em formações de vocação monumental é duma enérgica virilidade, rica de todos os equívocos da visão prospectiva da complexidade do mundo em desdobramento de alusões concretas possíveis de decifrar e de esclarecer (ao que o pintor não se escusa numa aberta franqueza de propósitos) não isentas contudo do confortável recheio de paradoxos que tanto estimulam a mente sequiosa do sagrado fascínio da pintura.
A tecnologia de que lança mão é toda fruto de pesquisa e de fabrico próprio (têmpera de ovo, pigmentos de origem remota, resinas autênticas e outros expedientes oficinais genuínos) e os suportes apresentam-se libertos de todos os complexos de loja de artigos de pintura. Aqui e ali eles próprios fazem parte da “pintura” que se deixa ver, denunciando a visão instantânea e o gesto rápido.
Da exposição fazem ainda parte uma notável galeria de retratos de pessoas anónimas, figuras de sociedades ainda distantes, de culturas recheadas de humanidade de que apenas temos a vaga ideia por noticiários geralmente assustadores de realidades traumáticas. São retratos de gente como nós e ajudam a saturar de humanidade este acontecimento artístico, que tem muito que se lhe diga e para o qual todos os meus leitores estão empenhadamente convocados, caso se deixem impressionar pelo que fica dito.

No Edifício Chiado “ciranda de muitas luas” de Roberto Chichorro

 R Chichorro

Publicado no Diário de Coimbra de 3 de Novembro de 2009

Em mais uma realização em torno da ideia da pintura como visão do mundo oferece-nos presentemente a Galeria de Exposições Temporárias do Museu Municipal da Cidade de Coimbra uma “ciranda de muitas luas” construída com obras de vária natureza da autoria de Roberto Chichorro.
A mostra evidencia uma cuidadosa generosidade expositiva, com reminiscências do trabalho do artista em obras de certa antiguidade, mescladas com outras de mais recente produção e com exemplares de várias modalidades de expressão artística.
Diz-me o dicionário que uma ciranda é uma joeira ou uma espécie de dança popular. Mais me diz que cirandar é “andar de um lado para o outro nas lides da casa”.
Tenho dificuldade em fixar-me em cada uma destas opções, embora o nome por si mesmo, ainda que distante de qualquer significado, já tenha seu movimento garboso e uma graciosidade inexplicável.
As muitas luas coroam a totalidade de sentidos com uma solenidade nocturna que está bem expressa num abundante número de obras de Chichorro que – não obstante – nos oferece uma pintura feliz.
Dizer pintura feliz não é dizer pouco, embora as categorizações habituais não se conformem com uma tão grande simplicidade classificativa e prefiram afirmar coisas mais substanciais de nível “onírico e surreal” ou envolvendo a sugestão do “cubismo pictórico”.
Eu dou-me por satisfeito chamando esta arte pelo nome, dizendo que é feliz, poética, aromática e suavemente nocturna.
Se a chamo nocturna, acrescento que é feérica, vibrante de cores, e as luas – de facto – transportam consigo a carícia morna de noites cálidas de odores acentuados.
As figuras presentes convivem frequentemente com animais até ao ponto de se resolverem em metamorfismos como ressonância de energias secretas e mitologias remotas. Porém, além da sugestão simbólica da música há como que uma gravidade nostálgica em todos os presentes, um silêncio contemplativo de inseguras expectativas.
Abstenho-me quanto à familiaridade anunciada entre esta pintura e a de Chagall, e também não me perco em considerações complexas de africanidade relativa naquilo que toda a pintura pode ter de localmente imagético ou de apelo universalizante.
A pintura de Roberto Chichorro, apesar de fortemente intuitiva, solta, impregnada do gesto livre, construída à base de manchas que entre si travam um diálogo permanente de correspondências e contaminações tonais, parece-me predominantemente cerebral. Cada figura ou cada grupo de figuras se apoia ou é enquadrado “cenograficamente” por elementos estruturantes de raiz geométrica, mesmo que muitas vezes habilmente atenuado o seu efeito mediante a liberdade do tratamento cromático e com o apoio de variado leque de soluções de complemento gráfico.
A variedade de espaços assim dinamicamente modulados é intuitivamente apropriado pelo pintor das mais variadas formas, entregue a uma evidente espontaneidade de execução e ao notório prazer de acrescentar tonalidades contrastantes, gestualismos variados, tracejados, referenciais de registo caligráfico, etc.
Por detrás de algumas figuras ergue-se a estruturação geometrizada de painéis ou tapeçarias numa simpatiquíssima alusão às artes cerâmicas, de que o artista não deixa de dar testemunho em obra feita noutro sector da sua produção, que se alarga em exemplos eloquentes de imaginário escultórico pleno do referencial surrealista.

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A não perder, obras artísticas de Roberto Chichorro no Museu Municipal de Coimbra, Edifício Chiado, até 21 de Novembro.

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