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Acerca da nobreza de antiguidade da louça de Coimbra, na perspectiva dos artistas

NOTA:
Este texto aparece aqui muito depois de ter sido escrito, e deveria ser revisto agora, à luz de uma visão das realidades talvez ainda menos animadora.
Neste Verão de 2016, passeando casualmente pela Baixa de Coimbra, por onde passo agora muito mais raramente, vi que numa série de montras de produtos para-turista-levar-de-lembrança, sem ter tido coragem de entrar para ver “melhor”, exibiam-se alguns exemplares obtusos de “uma coisa” vagamente alusiva à tradicional loiça de Coimbra.
Eram pequenos abortos de cor e feitio muito menos que exótico, revelando a um olhar perplexo as citações minimamente caracterizadoras dessa dita “loiça de Coimbra”.
Não sei se o conteúdo do texto que vem a seguir pode aplicar-se a esse fenómeno degenerativo que faz mal à vista e… arrefece a alma!…

Este texto mereceria, evidentemente, ilustrações condignas. Mas o autor, que na altura em que escreveu este texto, não alcançou a oportunidade mais favorável de ter podido publicá-lo com a devida dignidade, não tem agora o tempo livre para inserir tais ilustrações, que fazem imensa falta. As minhas desculpas. JCB

Este breve conjunto de impressões feito muito assumidamente “na perspectiva dos artistas”, é para chamar a atenção para um desses repositórios de interessante valia sentimental e não menor préstimo para o deleite dos sentidos que é a faiança artística de Coimbra, criada não se sabe bem há quantos anos.
A sua antiguidade e nobreza são plenamente referíveis à herança de séculos de uma mescla de culturas e da sensibilidade colectiva, pano de fundo do nosso carácter de nação ligada ao mundo e às suas sete partidas.

Presente há algum tempo num encontro de ceramistas activos na área de Condeixa, dizia-me um deles:

– Se não se faz qualquer coisa pela louça decorativa de Coimbra, já poucos anos faltam para que se perca – uma vez por todas – o vasto património da arte de pintar vasos, pratos, travessas, potes e canecas como nós fazemos. Agora as crianças estudam até mais tarde e os pais já não as mandam para a fábrica aprender a ser pintores de cerâmica, tarefa secular alimentada por salários de miséria que já ninguém deseja para os seus filhos. Quando esta geração de artífices morrer, não vai ficar ninguém capaz de manter viva ou sequer recordar esta arte do tempo dos avós dos nossos avós!…

Falando-se de louça de Coimbra, toda a gente parece saber exactamente do que se trata, embora seja um tema muito escassamente analisado naquilo que diz respeito à sua categoria de actividade produtiva, às suas determinantes histórico-simbólicas e a outras inerências de ordem objectiva e subjectiva.
Desfrutando de bastante simpatia, evidencia uma apreciável tenacidade produtiva, representando o país e os seus imaginários no contexto altamente concorrencial do mercado externo de produtos de artesanato decorativo.
A louça de Coimbra tem sido uma actividade generosa – quase na sua totalidade dirigida para a exportação – e talvez fosse possível demonstrar que, “per capita”, é um sector de rendimento bastante interessante por comparação com outras actividades económicas produtoras de riqueza.
O que se poderia obter com uma melhoria da atenção prestada a este fenómeno não interessa apenas a um reduzido núcleo de profissionais abnegados que têm conseguido produzir um trabalho útil, apesar de não disporem de apoios significativos: interessaria a toda a sociedade culta e poderia reforçar as qualidades de um sector que tem subsistido com bravura onde outros falham e fecham portas, apesar das vicissitudes de que só têm conhecimento os verdadeiros interessados…

A louça de Coimbra não é mais insigne, mais elegante ou refinadamente “pura” no elenco dos seus modelos e técnicas de construção porque tem sido deixada evoluir de forma desacompanhada, sem apoios culturais, classificação tipológica e horizontes de certificação ou evolução estética.

Os grandes centros das artes decorativas que viveram e prosperaram no mundo e que produziram matéria de admiração e prazer nunca dispensaram o desenvolvimento de centros de estudo, de coleccionadores especializados e de mecenas ilustrados que – na maioria das vezes – aproveitaram o esplendor dessas mesmas obras para ver acrescentado o seu próprio prestígio.
À louça de Coimbra, se ela não dispuser de nenhum desses elementos de estudo e valorização, poderá acontecer o mesmo que a tantas outras modalidades artísticas que passaram a ocupar a galeria das memórias perdidas, das quais pouco ou nada se sabe.
Ao procurar concretizar alguns dos propósitos acima enumerados, não deverá obviamente legislar-se a vontade da arte nem constranger-se a liberdade criativa de quem trabalha e sonha. O que pode – e deve – é criar-se cultura, elucidar os percursos trilhados desde o passado, das origens até aos melhores exemplos do trabalho entretanto conseguido.

Na prática deveria ser possível poder concretizar:

  • centros qualificados de venda onde, para além da coleção de peças que representem de forma genuína os melhores valores e qualidades plásticas da louça de Coimbra – com referentes históricos identificados – seja igualmente possível encontrar:
  • documentos informativos de diversas categorias, de acordo com os níveis de curiosidade intelectual de cada interessado, que esclareçam o fenómeno de forma adequada, conferindo-lhe prestígio e dignidade.

Tal propósito dificilmente se concretizará sem algum apoio oficial e terá que configurar a instalação de um Centro de Desenvolvimento da Cultura da Cerâmica Decorativa de Coimbra, vocacionado para o estudo e desenvolvimento deste sector em particular. Tal instituição deveria cobrir uma determinada área, um determinado conjunto de profissionais e de empresas e tudo o que pudesse ordenar e valorizar a memória cultural que define a natureza profunda e as remotas origens desse fenómeno. Numa palavra, instituir e defender isso que chamo no título deste trabalho “a nobreza de antiguidade da louça de Coimbra”.

Esse trabalho nunca foi feito e faz imensa falta.

A Louça de Coimbra:

Uma sensibilidade espartilhada entre a indiferença da “sociedade culta” e a ditadura do intermediário…

A abordagem produtiva tem sido voluntarista e desconexa, com diversidade de resultados, essencialmente sujeita às condições de interpretação do artífice e, em última análise, à lógica do intermediário, geralmente um comerciante que tem ao seu alcance uma clientela estrangeira e que avalia os objectos no imediatismo da sua vendibilidade.

As peças preferidas são as que sabem captar o primeiro golpe do olhar, a adesão simpática do comprador, referindo ainda quem sabe que, nos anos mais recentes, é também motivo de preferência a apresentação de obra com aparência de certa “perfeição” técnica, o que afasta de consideração os argumentos inicialmente mais coerentes com a “popularidade” artesanal e respectivos acidentes.
Os artífices produtores, cada um com a respectiva dose de capacidade de leitura dos modelos a que tem acesso e com um sentimento particular do que “deve ser” a sua interpretação dos mesmos,  têm a percepção dessas contradições e insistem no facto de que não estamos perante uma produção de peças destinadas a igualar ou a concorrer com o requinte da porcelana.
Do que se trata aqui é do objecto decorativo de faiança, de cujas origens tradicionais fazem parte recursos modestos marcados pela intuição, ostentando como principal factor de comunicabilidade a sua singela espontaneidade, que tem servido para legitimar outras modalidades de criação artística como é, por exemplo, o azulejo pintado à mão.
A “louça de Coimbra”, no domínio de tais argumentos, foi sendo capaz de captar as atenções ao primeiro golpe de vista do viajante interessado e é por isso que se mantém viva, à tona de um processo concorrencial que nada deve a esforços de organização artística e cultural, infelizmente.
A esse fenómeno criativo conviria a cumplicidade do comprador culto, informado, capaz de escolher em termos de uma certa autenticidade e gosto, dando prioridade à naturalidade espontânea, à singeleza de processos, à antiguidade de certas referências históricas, ao acidente artesanal, etc.
A louça de Coimbra, porém, não tem conseguido ganhar espaço na consideração dos apreciadores mais cultos, receosos de consagrarem algo menos legitimamente histórico ou menos legitimamente estético.

A louça de Coimbra não beneficiou dos favores dos coleccionadores mais credenciados, porventura por ser uma produção quase industrial dirigida ao negócio turístico, incompatível com a noção da raridade, do selecto e dos exóticos requintes que favorecem as altas cotações.
Está por isso escassamente presente nos lotes de leilões de produtos artísticos, e raramente ilustrada em obras gráficas de papel de luxo, etc.

Até em Coimbra, numa recente realização com categorização museológica e contributo de altas individualidades académicas a louça que dessa cidade se chama não conquistou no decurso de tempo a que a própria realização contempla (de século XVI ao século XX) a menção de uma única linha, de uma única palavra dita, de nenhuma imagem publicada!

Eu sei que a arte de ver as coisas depende da capacidade (e naturalmente da vontade) de as entender. Já tenho mais dificuldade em compreender o desígnio de ocultar deliberadamente algo que, se existe no campo das realidades palpáveis, mereceria – no caso de ser despiciendo ou medíocre – a correspondente apreciação crítica reprobatória. O silêncio puro e simples corresponde, como atitude intelectual, à incapacidade de ver ou à comodidade displicente de não tomar posição.
Suponho que se a cerâmica decorativa de Coimbra tivesse nascido em Itália ou em Espanha já teria tido a atenção e a procura que aqui lhe falta e que poderia ter entretanto atingido resultados e um nível de dignificação compatível com as qualidades que – apesar da adversidade – tem conseguido manter vivas.
Não posso deixar de mencionar neste ponto das minhas impressões um facto verdadeiramente lamentável de todo o processo em questão, que é aquele que deriva do espartilho de exploração oportunista a que são sujeitos os artífices.
Tirando partido de uma posição estratégia que neste caso é todo-poderosa, os intermediários compram o que melhor entendem, quando e como entendem e pagam… quando melhor lhes convém!
Os efeitos perversos desta situação estendem-se, naturalmente, a questões de concepção e de gosto, estando os trabalhadores da faiança na mão dos intermediários em mais do que um sentido, que é a posição mais desconfortável que é possível.

A louça de Coimbra, no domínio de tais argumentos, foi sendo capaz de travar com êxito a batalha que acima se descreve e é por isso que se mantém viva, à tona de um processo concorrencial que nada deve a esforços de organização artística e cultural, infelizmente.

Seria desejável mediante a valorização cultural do produto artístico alargar  o mercado em direcção ao comprador culto, informado, capaz de escolher em termos de uma certa autenticidade e gosto.

Era neste aspecto da questão que o estabelecimento de centros qualificados de venda, sob os auspícios de entidades responsáveis – libertos do oportunismo sem critérios dos intermediários – poderia desempenhar uma função da maior importância, conferindo à louça o sentido de cotação que lhe tem faltado, num contexto de dignificação cultural indispensável.

No contexto português, apetece a este respeito citar o caso exemplar da louça da Vista Alegre, de há longos anos rodeada de um clima de dignidade cultural excelente, que lhe tem conferido todo o prestígio de que desfruta. Com todas as diferenças inerentes aos universos respectivos, deveria ser possível desenvolver em torno da Louça de Coimbra um trabalho que lhe desse o mesmo tipo de apoio.

 O caso exemplar das altas cotações da pesada louça dos ceifeiros pobres

A atitude industrial dos leilões de antiguidades é compreensível. As peças que transaccionam têm de estar sujeitas a uma forte pressão especulativa para que dêem lucro. Nessas circunstâncias o melhor artista é o artista anónimo ou morto.
O número de peças que o mercado pode transaccionar está definitivamente encerrado e o seu valor trepa subitamente para níveis que teriam sido impensáveis antes, enquanto o criador estava vivo.
Há um caso enquadrável neste esquema, que considero exemplar:

Refiro-me à questão da “louça ratinha”, produto que foi inventado em tempos não muito remotos para satisfazer necessidades elementares de trabalhadores do mais humilde e do mais desprovido que havia no seio da sociedade portuguesa: aqueles que emigravam de vários lugares do país para as campinas alentejanas, onde os esperava um trabalho doloroso em condições de dureza incompreensíveis para a generalidade dos privilegiados coleccionadores das pesadas e toscas palanganas, que por acaso – ou sem ser por acaso – eram fabricadas em Coimbra.

Ninguém ligava muita importância a tais pratalhões, tendo o escritor José Régio e seu irmão Júlio Reis Pereira (o pintor Júlio), com invulgar “capacidade de ver” reunido uma colecção, colocando-os em exposição na notabilíssima Casa-Museu que foi residência do poeta[1].

De notar que entretanto se extinguiu o sistema de trabalho semiescravo a que estavam sujeitos os utilizadores de tal louça, a qual era transportada debaixo do braço em número de uma unidade por cada grupo, da qual se serviam ao fim do dia em cima de uma trempe, as costas doridas e dobradas sobre um prato só, do qual todos tomavam o modesto sustento.
Mortos os utilizadores e os clientes de tal produto, fechadas as portas das oficinas produtoras da “louça ratinha” (porque inteiramente indesejável no actual estado do mercado consumista), mágico se tornou o pitoresco encanto da mesma, ganhando espaço de negócio pela espiral de preços envolvidos.
Uma breve pesquisa na internet deu-me a conhecer que, já há tempos, um desses pratos – que no seu tempo deve ter custado alguns tostões – terá sido transaccionado por mil e quinhentos euros, o que fatalmente foi considerado um belíssimo negócio.
Não tenho grandes dúvidas de que – mortos todos os atuais produtores de louça de Coimbra – irá surgir “espontaneamente” um surto de “interesse” pela mesma, fazendo com que velhos exemplares restantes de um elenco de raridades esquecidas venha a granjear considerandos, análises monográficas e eventuais teses de doutoramento editadas em papel “couché”, com boas reproduções fotográficas.

[1] «Os Ratinhos. Faiança Popular de Coimbra», Museu do Azulejo – in EXPRESSO Cartaz de 31-1-98 (ref.Alexandre Pomar).

Visualidades

 

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A edição de “Visualidades”, abaixo disponível em ficheiro pdf, fez-se no mês de Outubro de 1993, quando teve lugar – na Casa Museu da Fundação Bissaya Barreto – a exposição de pintura e desenhos com a qual encerrei o ciclo de pintura urbana que vinha seguindo de há vários anos. Do texto do livro, que de certa forma procura fundamentar o essencial desse mesmo ciclo de trabalho, colhi este breve texto de abertura:

falas do pintor/ 1
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O pintor inventa em serenidade laboratorial a cidade mágica que é a projecção do seu espírito, a memória da sua sensibilidade, a materialização das suas carências.
Mas o pintor é também um cidadão. Alguém que vive a realidade factual, e dela procura dar um testemunho eficaz e produtivo.
Quando a evidência insuportável dos absurdos consegue passar por “normalidade tolerável”, o exercício da razão torna-se um esforço penoso. Depois de duas ou três gerações de “anestesia” perante os desastres flagrantes das nossas explosões urbanísticas, a Cidade arrisca o pior dos males: que os seus novos habitantes aceitem como “normalidade tolerável” serem emparedados em cimento, vendo seus filhos fugir de medo pelas veredas de betuminoso – percurso escasso para os horse power,símbolos obsessivos da vitalidade restante.
O pintor não sorri. A Cidade, irrecuperável em seu labirinto, entrega-se aos vorazes activos e aos cúmplices passivos que odeiam sua paz e seu futuro. O pintor não retrata uma cidade. Crucifica-se na memória dum espaço interior – “Ersatz” de vivências apetecidas, num mundo tão necessitado como distante. Para o pintor a Cidade mantém o fascínio de que dá testemunho em sua urgência e seu apelo. “De facto” é apenas o cenário no qual se desenha, enorme, o temor pela “sobrevivência” dos seus filhos.

A obra dum artista é indesculpável, seja qual for a roupagem de que se cinja.
O pintor sofre permanentemente em louvor e lamento da cidade deserta.

 

Coimbra, Maio de l993

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A seguir a transcrição de uma entrevista que ainda hei-de referenciar melhor quanto à data e à entrevistadora, que foi uma Senhora, e que foi publicada para o diário “As Beiras”. O tema da entrevista é o da abertura de novos ciclos de pintura, na sequência do referido ciclo da paisagem urbana.

Com esta exposição abre-se uma nova etapa no seu percurso artístico. Que motivos operaram esta mutação e quando teve o seu início?

A sua pergunta tem interesse para esclarecer as pessoas que apenas me conhecem superficial ou recentemente, através das inúmeras estampas que têm circulado por Coimbra (entre elas alguns milhares em edições pirata e copianços diversos…) e duma ou outra passagem acidental por exposições do ciclo chamado “da cidade de Coimbra”.
Quanto às pessoas que me conhecem melhor, que convivem comigo e partilham – já não digo os meus segredos – mas todas aquelas outras partes de mim (ia a dizer dos meus heterónimos…) esses acharão a coisa mais natural deste mundo, e não vão ficar nada surpreendidos. Com efeito, este “imaginário” vive comigo desde que me conheço e em fases anteriores já foi bastante dado a conhecer. Tem estado unicamente à espera de novos momentos de revelação sob a forma de obra estruturada e consequente, o que exige pesquisa e desenvolvimento, muito trabalho e dedicação.

 Fale-nos das figuras que povoam as suas últimas telas.

Essa questão daria para uma conversa que quase não tem fim… Um pouco como essas próprias figuras, saídas não sei bem donde, duma forma quase sempre inesperada e muitas vezes, por assim dizer, torrencial!… Eu não sei se posso qualificar-me, com propriedade, um surrealista. Aliás, se não assumo inteiramente essa filiação, é apenas pelo facto de me sentir também ligado a outras formas de ver o mundo e as coisas, e de não querer ficar apegado a nenhum “ismo” em particular, o que neste momento não faria nenhum sentido. Os surrealistas, no entanto, trataram muito dos fenómenos da imaginação, exploraram o subconsciente, o sonho, o fantástico, e os mecanismos da sua revelação, através da associação das ideias, da “escrita automática” etc., a par do enorme desejo de mudar o mundo, o que sempre foram coisas que muito me fascinaram. Por ter tido acesso a esse tipo de cultura, reconheço existir em mim uma espécie de disponibilidade ou abertura do espírito a vozes estranhas, a visões instantâneas quase automáticas, que qualquer pessoa que desenha espontânea e livremente bem conhece.

 Há dois termos que surgem com uma certa frequência no seu discurso. Um, mais entendível, o termo “desenho”. Outro, aparentemente mais deslocado, o dos “heterónimos”. Qual a importância dum, e qual a justificação do outro?

Sem ter a pretensão de lhe “passar um sermão” sobre o chamado “acto criador”, o que é facto é que ele existe, e depende duma “forma”, de “meios de expressão”, duma certa técnica, em suma. Há pessoas que se exprimem através de gestos largos, de técnicas elaboradas que exigem escola. Outras são mais simples, ou intuitivas, porque não tiveram acesso a formas adequadas de ensino artístico. Na minha qualidade de português não privilegiado, não comecei por ter acesso às formas mais sofisticadas de técnica artística. Um lápis, um pedaço de papel, dois dos “media” mais simples deste mundo, e pronto, tanto basta para dar início a tanta coisa magnífica e fantástica!
Resumindo portanto, e sem ter de passar por razões transcendentes e pretensiosas, foi essa uma das primeiras formas de me conhecer e de me descobrir. Passadas não sei quantos milhares de horas, desenhar, para mim, é a coisa mais natural que pode haver. E, certamente, uma das que mais prazer me dá.
Quanto aos heterónimos, adoptei esse expediente com certa moderação. Não queria que fosse julgado oportunismo “colar-me” à grande figura de Pessoa, para justificar uma vocação (e uma enorme necessidade) de encetar permanentes metamorfoses na minha linguagem. Daí, como já leio Pessoa praticamente há quarenta anos (nessa altura não era ainda grande moda…) e dado que comecei a falar dos “meus heterónimos” aos meus amigos, acabei por me habituar, o que “veste” magnificamente quer o meu gosto por Pessoa (que nem sequer é incondicional…) quer uma tendência, que não reprimo, de renovação incessante…

 Como é que pode explicar, nesse contexto, a firmeza de atitude que manteve durante todo o seu ciclo anterior, que dedicou à paisagem urbana?

 

Essa questão está muito bem posta e é-me difícil responder por poucas palavras. Repare que no momento exacto em que encerrei o chamado “ciclo da cidade de Coimbra” (que passou por muitas cidades portuguesas, e por várias cidades estrangeiras…), confrontado com a necessidade de conferir coerência a toda essa questão, tive o cuidado de publicar um livro de dimensões diminutas, mas bastante significativo para mim (chamado “Visualidades”).
O livro valia tanto mais pelo próprio prefácio, de autoria do meu Amigo António Pedro Pita, uma pessoa que segue o meu trabalho praticamente há trinta anos. Tanto nessa análise, como noutros textos de sua autoria (especialmente o que escreveu para o catálogo desta minha exposição na Casa Municipal da Cultura) o assunto se encontra visto duma forma muito difícil de sintetizar, mas de um modo que acho exemplar.
Lateralmente, e friso: lateralmente, posso apenas dizer que esse ciclo envolveu de facto uma atitude de imensa disciplina intelectual, e uma dose enorme de dedicação e investigação em diversas áreas, essencialmente as que dizem respeito às paisagens que se observam de olhos fechados, aquelas que mobilam um mundo construído na mente, e que também serve para questionar o real!
Não sei se o ciclo foi devidamente compreendido, o futuro o dirá. Mas de qualquer forma penso ter sido uma fase de criatividade muito intensa, que teve o seu encerramento, mas de que não abjuro, nem repudio de forma alguma, por maior que seja a mudança aparentemente, e friso: aparentemente efectuada.

 Adiante-nos então as suas expectativas quanto a esta exposição.

 

Uma coisa muitíssimo difícil de delinear, como sabe, a expectativa dos artistas. Penso que, no sentido mais adequado, os artistas pretendem apenas prosseguir o seu trabalho de forma eficaz. E coloco o centro de gravidade do termo no íntimo essencial da obra, como coisa revelada/reveladora.
Sobretudo quando se atinge a minha idade, ou antes disso se o juízo ajuda, começa a poder ver-se o mundo um pouco distante de nós, e nós nele como uma imagem transcendente de nós próprios.
Tenho às vezes imensas faltas de paciência com a insensibilidade dos aparelhos sociais, políticos e outros. Encho-me de raiva, o que me desconcerta. Sinto-me como um cachopo a quem roubaram todos os brinquedos. Com o tempo desenvolvi, no entanto, uma certa impassibilidade feita, senão de conformação, de distanciamento, iria dizer: filosófico. E regresso sempre aos meus amigos, à minha família, aos meus desenhos, à cultura, às artes, a todas as coisas que irão de facto ficar para sempre, como os melhores sinais da passagem dos homens por esta vida.

ficheiro pdf, clicar para ter acesso:

COSTA BRITES, Visualidades

 

A louça de Coimbra, tradição e actualidade

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Caro visitante,

O estudo deste tema artístico-cultural é dos que exige, além do gosto e da boa vontade, meios adequados, os quais não são fáceis de reunir. É preciso ter acesso a colecções para poder observar e reflectir e, na sua falta, é necessário ir coleccionando o melhor que for possível encontrar. Geralmente esse trabalho de pesquisa e de enamoramento pelos objectos leva o seu tempo e não é de todo grátis.
As visitas, o convívio com interessados e conhecedores, o ambiente selecto dos antiquários e dos leiloeiros de peças valiosas não está ao alcance de qualquer um. Leituras, muito estudo, bons livros raros, mestres que se tenham por fortuna revelado prestáveis na passagem de segredos e noções “sólidas”, etc.
Sobre estes últimos acasos da sorte não me vou pôr com sentenças filosóficas, dado ser sabida que a propensão para a generosidade desprendida não é moeda muito corrente.
Os melhores interessados nesta matéria, por outro lado, construiram um saber feito de antiguidade, dedicação e pertinácia. Quem corre por gosto não cansa, é sabido.

O modelo que assim comecei por definir é digamos, o modelo “clássico”, com mais uma série de variantes indeterminadas que o leitor poderá conhecer muito melhor do que eu, Pelo ar da carruagem, o visitante também já deve ter percebido que não estou nesse contingente – geralmente distinto – de apreciadores qualificados.

O meu estilo é completamente diferente. Entrei pela porta dos fundos. Comecei a gostar com simplicidade há muito tempo, a poder de olhar de longe, como quem espreita. Se fiz alguma reflexão nunca foi na categoria do coleccionador, nem rico nem meio rico. E, para ser sincero, alguns dos apetrechos de “finesse” que acima refiro, conheço-os só por imaginar que possa ser assim. É por assim dizer, uma intuição de tipo meramente literário.

O meu ambiente, aquele de que mais gosto, é o das oficinas dos homens modestos que fazem estas coisas desde crianças, muitas vezes.

As peças que tenho aqui fotografadas foram, na sua maioria, compradas directamente em oficinas de pintores de cerâmica. Não são peças distintas, antigas, com nome na praça. Mas são minhas, exceção feita a algumas que pertencem à coleção do meu amigo Dr. José Machado Lopes e que devidamente identifico. E, como já esclareci algures, um bom número das peças que tenho compradas foram oferecidas a amigos. Nas vezes que fui ao estrangeiro em tarefas algo culturais ou artísticas, levei sempre… loiça de Coimbra. Um sucesso, caros amigos!…

Neste texto, escrito a azul, que é uma das cores mais fáceis da paleta do artista cerâmico pelos efeitos que produz e pela estabilidade do pigmento a altas temperaturas, tenho o prazer de afirmar – como é possível ver as páginas aqui dedicadas à pintura de azulejos – que não sou desses insígnes “connoisseurs” nem abalizado investigador. A minha maneira de gostar da cerâmica pintada é a mais directa e a mais entranhada que pode existir: é com a vontade, com o coração e com todos os dedos  de ambas as mãos.

Um dos pontos mais salientes e valiosos desse querer e desse gostar situou-se na abordagem e no conhecimento que estabeleci com vários artistas da cerâmica de Coimbra. Entre outros de mais ligeiro contacto refiro com muito apreço e consideração os Senhores:

  • António Barrico Vaz, de Sebal Grande;
  • António Dias Salgueiro Póvoa, de Sobreiro/Condeixa;
  • António Rebêlo, também de Sebal Grande e
  • Belmiro Miranda Quitério, nascido em Coimbra e criado em Vila Pouca de Cernache.

Se me for possível compatibilizar com as minhas actividades pessoais e familiares tenho a intenção de vir a alargar o conhecimento com estas e com outras pessoas deste mundo, nem sempre fascinante porque ingrato, custoso e nada magnânimo que é o mundo dos artistas pintores de cerâmica decorativa de Coimbra.

Disso irei ter muito tempo para falar convosco, um pouco mais adiante no tempo, num trabalho que venho fazendo a este respeito, que já está a muito mais de meio, mas que ainda não está tão completo como gostaria. A publicar em breve, digamos!…

Grande abraço a todos
CB.

JML

col. JML

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A louça de Coimbra é uma produção significativa porque dá vida a produtos que contém em si um potencial expressivo de índole artística e cultural genuíno e com as suas raízes profundamente mergulhadas no tecido de referências que nos caracterizam como povo e como universo de relacionamentos estético-históricos.
Se fosse um processo devidamente acompanhado desde a sua remota antiguidade, poderia constituir certamente um património artístico de muito mais dilatado valor, não deixando por isso de se poder organizar no presente e no futuro como meio de trabalho e de rendimentos de mais acentuado interesse.
Não vejo nenhuma espécie de contradição ou inconveniente na convergência destes dois factores de apreciação e não é difícil descortinar por esse mundo além exemplos claramente demonstrativos da conveniência objectiva e subjectiva desta forma de encarar o fenómeno.

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O Seculo XVII, o "desenho miúdo" e as influências que chegaram da China

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A Louça de Coimbra não tem conseguido, por várias razões que merecem análise, atingir os favores da atenção dos meios mais especializados que transformam certos produtos aparentemente simples em objectos de culto, coleccionismo, devoção e transacção dignificada.
Há qualquer coisa de excessivamente familiar, uma proximidade sentimental que sufoca o sentido de segredo das coisas selectas. Por outro lado a vitalidade e a concreta juventude de muitos dos seus executantes, tornam a presença destes objectos numa aquisição que podemos adiar para amanhã, ou para depois.
Eles estarão sempre ali e nós bem podemos adiar este amor que só na altura estratégica de uma prenda de oportunidade se fará valer.
Às vezes pergunto-me se tais razões serão necessárias para explicar o motivo dessa subalternidade e se tudo não passa simplesmente de uma tremenda falta de atenção, uma pobreza interior que nos leva a ignorar coisas preciosas apenas porque nos são familiares.

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Estas duas peças que aqui se encontram fotografadas de diversos ângulos evidenciam um conjunto de dispositivos de caracterização plástica perfeitamente típicos deste tipo de faiança decorativa.
A hierarquização do espaço decorativo é efectuado pela inclusão de frisos, faixas, cadeias ou simples juntas de separação que, em alternância de tonalidades, conferem à peça a sua “solidez” expressiva, numa evidente preocupação de ocupar todo o espaço disponível.
As reservas centrais, delimitadas por dispositivos de configuração geométrica, revelam a palpitante “paisagem” orientalista saturada de ramificações, flores e vegetalismos diversos no seio da qual evoluem os conhecidos protagonistas tradicionais, que a tradição dos nossos artífices associa à sua cultura campestre e cinegética mas cujo significado, na matriz de remotos imaginários bem identificados pela cultura chinesa, há muito se perdeu na distância. 

Na peça de cima, no suporte e na borda, aparece a chamada “faixa barroca”, enrolamento em volutas de folhas estilizadas, referida como sendo a vertente ocidental deste tipo de decoração tão fortemente influenciada pela porcelana importada da China no Sec. XVII, no período final da dinastia Ming. Reinaldo dos Santos, no entanto, na sua obra “Oito Séculos de Arte Portuguesa, História e Espírito” refere que:

“…são frequentes as orlas decorativas citadas como frisos barrocos, mas na realidade são de origem chinesa da época Chia-Ching. O termo de barroco pode prestar-se a mal-entendidos, melhor seria chamar-lhes “ramos ondulantes…”.

Não me sinto capaz de arbitrar esta questão mas, entre “faixa barroca” e “ramos ondulantes” a minha preferência vai claramente para esta última expressão, muito menos comprometida com fórmulas culturais estereotípicas e mais de acordo com a íntima respiração das forças naturais…

As peças aqui representadas foram executadas pelo meu amigo e artista António Dias Salgueiro Póvoa, de Sobreiro, Condeixa-a-Nova. 

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Presença inexplicável de Orientes familiares, sons e odores de terras onde nunca fomos, saudades feitas de loiça colorida

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Mos LP


Não é necessária ciência alguma nem histórias complicadas com letras e datas. Não é preciso explicarem nada.
(Os sábios só estorvam com seus livros pesados bem escondidos debaixo do braço e suas palavras lentas como lajes de sepulturas…).
De onde conhecemos estas coisas é daqui de dentro, da lembrança de tardes paradas na memória ou do ramo de flores secas esperando sem tempo naquela jarra tão familiar.

col. JML

Vai passarinho vai, leva esta carta à minha namorada! Corre cachorrinho corre, vê se trazes novidades boas do meu amigo!
Oh, quem me dera poder subir às torres altas do castelinho que repousa naquela nuvem e espreitar dali as vivas cores dos dias de nunca mais!
Desenhadas a azul e branco são como capelas de sonho no cimo dos montes claros.
Pintados de cores diversas são como mesas postas em toalhas de alvo linho.

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esta peça foi executada pelo meu amigo Senhor Belmiro Quitério

De onde conhecemos perfeitamente tudo isto? Eu sei lá…
Em que praças ou em que ruas teremos cruzado os homens que descobriram, as mãos que fizeram, os poetas que desvendaram? Vá lá saber-se…
Talvez tenha sido tão-somente como diz aquela arrebatadora canção de Vitorino:

“…nas ondas do mar
do mundo inteiro
terras da perdição parco império mil almas
por pau da canela e Mazagão.
Pata de negreiro
tira e foge à morte
que a sorte é de quem a terra amou
e no peito guardou
cheiro da mata eterna
laranja, Luanda sempre em flor…”

Este texto foi publicado na Revista de Informação do SBC, de Julho/Agosto de 2008

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por entre os canaviais os coelhinhos e lebrões…

Mos JML p

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A peça aqui presente é um pote facetado, com tampa, decoração “desenho miúdo” azul e vinoso muito típica na faiança decorativa de Coimbra com influência chinesa do Sec. XVII.
Na base e na tampa frisos de contas e na borda uma faixa barroca. Na zona central desenvolve-se o que os artífices designam como “a paisagem” essencialmente constituida por flores e folhagens de sabor oriental, entre as quais, ao lado direito do coelhinho se torna visível uma variante do adorno que é conhecido como “canavial”. Os “coelhinhos” (que nalgumas descrições são chamados “lebrões”) saltam por entre a vegetação.

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O nomes da coisas