Acerca da nobreza de antiguidade da louça de Coimbra, na perspectiva dos artistas

NOTA:
Este texto aparece aqui muito depois de ter sido escrito, e deveria ser revisto agora, à luz de uma visão das realidades talvez ainda menos animadora.
Neste Verão de 2016, passeando casualmente pela Baixa de Coimbra, por onde passo agora muito mais raramente, vi que numa série de montras de produtos para-turista-levar-de-lembrança, sem ter tido coragem de entrar para ver “melhor”, exibiam-se alguns exemplares obtusos de “uma coisa” vagamente alusiva à tradicional loiça de Coimbra.
Eram pequenos abortos de cor e feitio muito menos que exótico, revelando a um olhar perplexo as citações minimamente caracterizadoras dessa dita “loiça de Coimbra”.
Não sei se o conteúdo do texto que vem a seguir pode aplicar-se a esse fenómeno degenerativo que faz mal à vista e… arrefece a alma!…

Este texto mereceria, evidentemente, ilustrações condignas. Mas o autor, que na altura em que escreveu este texto, não alcançou a oportunidade mais favorável de ter podido publicá-lo com a devida dignidade, não tem agora o tempo livre para inserir tais ilustrações, que fazem imensa falta. As minhas desculpas. JCB

Este breve conjunto de impressões feito muito assumidamente “na perspectiva dos artistas”, é para chamar a atenção para um desses repositórios de interessante valia sentimental e não menor préstimo para o deleite dos sentidos que é a faiança artística de Coimbra, criada não se sabe bem há quantos anos.
A sua antiguidade e nobreza são plenamente referíveis à herança de séculos de uma mescla de culturas e da sensibilidade colectiva, pano de fundo do nosso carácter de nação ligada ao mundo e às suas sete partidas.

Presente há algum tempo num encontro de ceramistas activos na área de Condeixa, dizia-me um deles:

– Se não se faz qualquer coisa pela louça decorativa de Coimbra, já poucos anos faltam para que se perca – uma vez por todas – o vasto património da arte de pintar vasos, pratos, travessas, potes e canecas como nós fazemos. Agora as crianças estudam até mais tarde e os pais já não as mandam para a fábrica aprender a ser pintores de cerâmica, tarefa secular alimentada por salários de miséria que já ninguém deseja para os seus filhos. Quando esta geração de artífices morrer, não vai ficar ninguém capaz de manter viva ou sequer recordar esta arte do tempo dos avós dos nossos avós!…

Falando-se de louça de Coimbra, toda a gente parece saber exactamente do que se trata, embora seja um tema muito escassamente analisado naquilo que diz respeito à sua categoria de actividade produtiva, às suas determinantes histórico-simbólicas e a outras inerências de ordem objectiva e subjectiva.
Desfrutando de bastante simpatia, evidencia uma apreciável tenacidade produtiva, representando o país e os seus imaginários no contexto altamente concorrencial do mercado externo de produtos de artesanato decorativo.
A louça de Coimbra tem sido uma actividade generosa – quase na sua totalidade dirigida para a exportação – e talvez fosse possível demonstrar que, “per capita”, é um sector de rendimento bastante interessante por comparação com outras actividades económicas produtoras de riqueza.
O que se poderia obter com uma melhoria da atenção prestada a este fenómeno não interessa apenas a um reduzido núcleo de profissionais abnegados que têm conseguido produzir um trabalho útil, apesar de não disporem de apoios significativos: interessaria a toda a sociedade culta e poderia reforçar as qualidades de um sector que tem subsistido com bravura onde outros falham e fecham portas, apesar das vicissitudes de que só têm conhecimento os verdadeiros interessados…

A louça de Coimbra não é mais insigne, mais elegante ou refinadamente “pura” no elenco dos seus modelos e técnicas de construção porque tem sido deixada evoluir de forma desacompanhada, sem apoios culturais, classificação tipológica e horizontes de certificação ou evolução estética.

Os grandes centros das artes decorativas que viveram e prosperaram no mundo e que produziram matéria de admiração e prazer nunca dispensaram o desenvolvimento de centros de estudo, de coleccionadores especializados e de mecenas ilustrados que – na maioria das vezes – aproveitaram o esplendor dessas mesmas obras para ver acrescentado o seu próprio prestígio.
À louça de Coimbra, se ela não dispuser de nenhum desses elementos de estudo e valorização, poderá acontecer o mesmo que a tantas outras modalidades artísticas que passaram a ocupar a galeria das memórias perdidas, das quais pouco ou nada se sabe.
Ao procurar concretizar alguns dos propósitos acima enumerados, não deverá obviamente legislar-se a vontade da arte nem constranger-se a liberdade criativa de quem trabalha e sonha. O que pode – e deve – é criar-se cultura, elucidar os percursos trilhados desde o passado, das origens até aos melhores exemplos do trabalho entretanto conseguido.

Na prática deveria ser possível poder concretizar:

  • centros qualificados de venda onde, para além da coleção de peças que representem de forma genuína os melhores valores e qualidades plásticas da louça de Coimbra – com referentes históricos identificados – seja igualmente possível encontrar:
  • documentos informativos de diversas categorias, de acordo com os níveis de curiosidade intelectual de cada interessado, que esclareçam o fenómeno de forma adequada, conferindo-lhe prestígio e dignidade.

Tal propósito dificilmente se concretizará sem algum apoio oficial e terá que configurar a instalação de um Centro de Desenvolvimento da Cultura da Cerâmica Decorativa de Coimbra, vocacionado para o estudo e desenvolvimento deste sector em particular. Tal instituição deveria cobrir uma determinada área, um determinado conjunto de profissionais e de empresas e tudo o que pudesse ordenar e valorizar a memória cultural que define a natureza profunda e as remotas origens desse fenómeno. Numa palavra, instituir e defender isso que chamo no título deste trabalho “a nobreza de antiguidade da louça de Coimbra”.

Esse trabalho nunca foi feito e faz imensa falta.

A Louça de Coimbra:

Uma sensibilidade espartilhada entre a indiferença da “sociedade culta” e a ditadura do intermediário…

A abordagem produtiva tem sido voluntarista e desconexa, com diversidade de resultados, essencialmente sujeita às condições de interpretação do artífice e, em última análise, à lógica do intermediário, geralmente um comerciante que tem ao seu alcance uma clientela estrangeira e que avalia os objectos no imediatismo da sua vendibilidade.

As peças preferidas são as que sabem captar o primeiro golpe do olhar, a adesão simpática do comprador, referindo ainda quem sabe que, nos anos mais recentes, é também motivo de preferência a apresentação de obra com aparência de certa “perfeição” técnica, o que afasta de consideração os argumentos inicialmente mais coerentes com a “popularidade” artesanal e respectivos acidentes.
Os artífices produtores, cada um com a respectiva dose de capacidade de leitura dos modelos a que tem acesso e com um sentimento particular do que “deve ser” a sua interpretação dos mesmos,  têm a percepção dessas contradições e insistem no facto de que não estamos perante uma produção de peças destinadas a igualar ou a concorrer com o requinte da porcelana.
Do que se trata aqui é do objecto decorativo de faiança, de cujas origens tradicionais fazem parte recursos modestos marcados pela intuição, ostentando como principal factor de comunicabilidade a sua singela espontaneidade, que tem servido para legitimar outras modalidades de criação artística como é, por exemplo, o azulejo pintado à mão.
A “louça de Coimbra”, no domínio de tais argumentos, foi sendo capaz de captar as atenções ao primeiro golpe de vista do viajante interessado e é por isso que se mantém viva, à tona de um processo concorrencial que nada deve a esforços de organização artística e cultural, infelizmente.
A esse fenómeno criativo conviria a cumplicidade do comprador culto, informado, capaz de escolher em termos de uma certa autenticidade e gosto, dando prioridade à naturalidade espontânea, à singeleza de processos, à antiguidade de certas referências históricas, ao acidente artesanal, etc.
A louça de Coimbra, porém, não tem conseguido ganhar espaço na consideração dos apreciadores mais cultos, receosos de consagrarem algo menos legitimamente histórico ou menos legitimamente estético.

A louça de Coimbra não beneficiou dos favores dos coleccionadores mais credenciados, porventura por ser uma produção quase industrial dirigida ao negócio turístico, incompatível com a noção da raridade, do selecto e dos exóticos requintes que favorecem as altas cotações.
Está por isso escassamente presente nos lotes de leilões de produtos artísticos, e raramente ilustrada em obras gráficas de papel de luxo, etc.

Até em Coimbra, numa recente realização com categorização museológica e contributo de altas individualidades académicas a louça que dessa cidade se chama não conquistou no decurso de tempo a que a própria realização contempla (de século XVI ao século XX) a menção de uma única linha, de uma única palavra dita, de nenhuma imagem publicada!

Eu sei que a arte de ver as coisas depende da capacidade (e naturalmente da vontade) de as entender. Já tenho mais dificuldade em compreender o desígnio de ocultar deliberadamente algo que, se existe no campo das realidades palpáveis, mereceria – no caso de ser despiciendo ou medíocre – a correspondente apreciação crítica reprobatória. O silêncio puro e simples corresponde, como atitude intelectual, à incapacidade de ver ou à comodidade displicente de não tomar posição.
Suponho que se a cerâmica decorativa de Coimbra tivesse nascido em Itália ou em Espanha já teria tido a atenção e a procura que aqui lhe falta e que poderia ter entretanto atingido resultados e um nível de dignificação compatível com as qualidades que – apesar da adversidade – tem conseguido manter vivas.
Não posso deixar de mencionar neste ponto das minhas impressões um facto verdadeiramente lamentável de todo o processo em questão, que é aquele que deriva do espartilho de exploração oportunista a que são sujeitos os artífices.
Tirando partido de uma posição estratégia que neste caso é todo-poderosa, os intermediários compram o que melhor entendem, quando e como entendem e pagam… quando melhor lhes convém!
Os efeitos perversos desta situação estendem-se, naturalmente, a questões de concepção e de gosto, estando os trabalhadores da faiança na mão dos intermediários em mais do que um sentido, que é a posição mais desconfortável que é possível.

A louça de Coimbra, no domínio de tais argumentos, foi sendo capaz de travar com êxito a batalha que acima se descreve e é por isso que se mantém viva, à tona de um processo concorrencial que nada deve a esforços de organização artística e cultural, infelizmente.

Seria desejável mediante a valorização cultural do produto artístico alargar  o mercado em direcção ao comprador culto, informado, capaz de escolher em termos de uma certa autenticidade e gosto.

Era neste aspecto da questão que o estabelecimento de centros qualificados de venda, sob os auspícios de entidades responsáveis – libertos do oportunismo sem critérios dos intermediários – poderia desempenhar uma função da maior importância, conferindo à louça o sentido de cotação que lhe tem faltado, num contexto de dignificação cultural indispensável.

No contexto português, apetece a este respeito citar o caso exemplar da louça da Vista Alegre, de há longos anos rodeada de um clima de dignidade cultural excelente, que lhe tem conferido todo o prestígio de que desfruta. Com todas as diferenças inerentes aos universos respectivos, deveria ser possível desenvolver em torno da Louça de Coimbra um trabalho que lhe desse o mesmo tipo de apoio.

 O caso exemplar das altas cotações da pesada louça dos ceifeiros pobres

A atitude industrial dos leilões de antiguidades é compreensível. As peças que transaccionam têm de estar sujeitas a uma forte pressão especulativa para que dêem lucro. Nessas circunstâncias o melhor artista é o artista anónimo ou morto.
O número de peças que o mercado pode transaccionar está definitivamente encerrado e o seu valor trepa subitamente para níveis que teriam sido impensáveis antes, enquanto o criador estava vivo.
Há um caso enquadrável neste esquema, que considero exemplar:

Refiro-me à questão da “louça ratinha”, produto que foi inventado em tempos não muito remotos para satisfazer necessidades elementares de trabalhadores do mais humilde e do mais desprovido que havia no seio da sociedade portuguesa: aqueles que emigravam de vários lugares do país para as campinas alentejanas, onde os esperava um trabalho doloroso em condições de dureza incompreensíveis para a generalidade dos privilegiados coleccionadores das pesadas e toscas palanganas, que por acaso – ou sem ser por acaso – eram fabricadas em Coimbra.

Ninguém ligava muita importância a tais pratalhões, tendo o escritor José Régio e seu irmão Júlio Reis Pereira (o pintor Júlio), com invulgar “capacidade de ver” reunido uma colecção, colocando-os em exposição na notabilíssima Casa-Museu que foi residência do poeta[1].

De notar que entretanto se extinguiu o sistema de trabalho semiescravo a que estavam sujeitos os utilizadores de tal louça, a qual era transportada debaixo do braço em número de uma unidade por cada grupo, da qual se serviam ao fim do dia em cima de uma trempe, as costas doridas e dobradas sobre um prato só, do qual todos tomavam o modesto sustento.
Mortos os utilizadores e os clientes de tal produto, fechadas as portas das oficinas produtoras da “louça ratinha” (porque inteiramente indesejável no actual estado do mercado consumista), mágico se tornou o pitoresco encanto da mesma, ganhando espaço de negócio pela espiral de preços envolvidos.
Uma breve pesquisa na internet deu-me a conhecer que, já há tempos, um desses pratos – que no seu tempo deve ter custado alguns tostões – terá sido transaccionado por mil e quinhentos euros, o que fatalmente foi considerado um belíssimo negócio.
Não tenho grandes dúvidas de que – mortos todos os atuais produtores de louça de Coimbra – irá surgir “espontaneamente” um surto de “interesse” pela mesma, fazendo com que velhos exemplares restantes de um elenco de raridades esquecidas venha a granjear considerandos, análises monográficas e eventuais teses de doutoramento editadas em papel “couché”, com boas reproduções fotográficas.

[1] «Os Ratinhos. Faiança Popular de Coimbra», Museu do Azulejo – in EXPRESSO Cartaz de 31-1-98 (ref.Alexandre Pomar).

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