Rogério Silva

Convido todos os visitantes a uma visita demorada e atenta à página que dedico à memória do pintor Rogério Silva, grande amigo e homem de valiosa actividade cultural e artística. Conheci-o no fim dos anos sessenta em Ponta Delgada, nos Açores, onde tive o prazer de colaborar com as valiosas iniciativas que promoveu através da bem conhecida “Galeria de Arte Gávea” que fundou na cidade de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira do mesmo arquipélago.

Página pessoal dedicada à pessoa e à obra de Rogério Silva

garça voando em agonia, Rogério Silva

garça voando em agonia, Rogério Silva

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Biografia de Rogério Silva, textos, apreciações críticas, depoimentos

Tríptico, (xilogravura), reproduzido na capa do diário "A União" de Angra do Heroísmo de 14 de Junho de 1969, Rogério Silva

Tríptico, (xilogravura), reproduzido na capa do diário “A União” de Angra do Heroísmo de 14 de Junho de 1969, Rogério Silva

Não existe disponível na net nenhuma biografia alargada e sensibilizada de Rogério Silva, cuja vinda a Coimbra em 1978, muito tempo depois de ter emigrado para a América, me forneceu a sugestão muito subtil de fazer o que pudesse para divulgar o “espírito da Gávea”. O Rogério Silva era, além de tímido, delicadíssimo e não ousava fazer pedidos impositivos. Entregou-me nesse momento dois conjuntos de catálogos de exposições da Gávea, cuidadosamente reunidos para esse efeito, além de seis catálogos das principais exposições que havia realizado, entretanto, nos Estados Unidos. A subtileza da sugestão não sonhava com a fulgurante eclosão da internet.
Tinha reunido entretanto outros documentos que divulgo neste momento, os jornais que adquiri, os que me foram oferecidos pelo Carlos Faria e algumas coisas – para mim raras – como os livros de Ivone Chinita e Santos Barros, com os quais me encontrei em Coimbra depois de vir dos Açores. Os vestígios da Gávea foram-se esfumando, as visitas de Carlos Faria estavam sujeitas ao seu calendário de viagens para o que os lisboetas chamam “o Norte”, e a internet foi-se desenvolvendo e afirmando cada vez mais notoriamente.
Quando Carlos Faria nos deixou construí a primeira dose de lugares da net que consagravam a minha memória dos Açores. Sonhava com uma ampla adesão de outras memórias que pudessem manifestar-se. Fechado esse ciclo, e feitas as necessárias aprendizagens digitais e internáuticas, começaram a surgir, daqui e dali, provas de um interesse específico na herança da Gávea. Rogério Silva era finalmente tema de curiosidades, daquelas que costumam bafezar as cinzas dispersas dos mortos confortavelmente ausentes. Resolvi por isso publicar o essencial de tudo o que possuia há longo tempo guardado. Agora já não sonho com a adesão de ninguém. Procuro apenas deixar um testemunho tão vivo e autêntico como aquele que ficou em mim. E recordar a face muito branca, a voz comedida, e o sorriso tímido de Rogério Silva que – aqui e ali – projectava entre as almas afins um clarão de esperanças pueris.
Ao fundo são publicadas, “ipsis verbis”, duas notícias biográficas suas que consegui reunir, em épocas diferentes, mediante pesquisas na net. São ambas do domínio de publicações do governo da Região Autónoma dos Açores; a primeira, algo mais circunstanciada não sei bem de que departamento dado que foi descontinuada e a última, ainda actual, do Arquivo e Biblioteca Pública de Angra do Heroísmo, cujo endereço vai indicado.

NOTA: o trabalho de esclarecimento e informação que levo a cabo nestas páginas e que, com muita honra publico – por serem parte integrante da minha própria experiência e excelente referência de afeto e admiração – podem conter imprecisões. Solicito por isso a compreensão de todos os leitores, estando aberto e agradecendo antecipadamente os reparos e contributos esclarecedores.

O resumo biográfico a seguir foi lido num dos catálogos das exposições de Rogério Silva e estende-se pelo artigo, com textos e ilustrações:

Rogério Silva nasceu na Feteira, Faial em 1929. Viveu em Angra do Heroísmo de 1947 a 1971, altura em que emigrou para os Estados Unidos, tendo fixado residência em New Bedford, Massachusetts.
Foi instrutor de Trabalhos Manuais na Escola Técnica de Angra e desde muito cedo estabeleceu relações com o mundo artístico português. Chegou mesmo a manter um contacto intenso com artistas em Lisboa. Colaborou com o Instituto Açoriano de Cultura, o Núcleo Cultural da Horta e a Direcção Escolar de Angra. Para além de tudo isto, porém, Rogério foi um infatigável impulsionador da arte nos Açores.
A sua carreira de pintor, desenhador e gravador incluiu uma vasta rede de atividades. Em 1954 teve lugar na Horta a sua primeira exposição individual. No ano seguinte reproduziu o acontecimento, agora em Lisboa. Também em Lisboa, e ainda nesse ano, participou numa exposição coletiva na S.N.B.A. e, em 1956, participa noutra, ainda em Lisboa, “Primeiro Jardim de Belas Artes”.
No período de 1956 a 1972 realizou várias exposições individuais e coletivas nos Açores;
Em 1958 lançou, com Emanuel Félix e Almeida Firmino, uma revista de letras e artes – Gávea − de que foi diretor artístico.
Durante a década de sessenta, colaborou na página “Letras e Artes” do Diário Insular, foi diretor artístico da página literária “Glacial”, de A União., e ilustrou doze livros sobretudo de poesia.

Gávea - Galeria açoriana de arte não comercial, função didática e cultural

Gávea – Galeria açoriana de arte não comercial, função didática e cultural

Em 1967 inaugurou a Galeria “Gávea” − Galeria Açoriana de Arte não comercial e com função didática e cultural − através da qual desenvolve uma diversíssima variedade de iniciativas de entre as quais se destaca a promoção da vinda aos Açores de numerosas exposições de artistas portugueses e estrangeiros.

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Em 1969 expôs no Teatro Angrense (Arte/Música/Poesia). Até 1971 foi várias vezes membro dos júris artísticos em concursos promovidos por diversas organizações e coordenou uma exposição de arte infantil de intercâmbio, Angra/Paris, Paris/Angra.
Em 1971, já com residência em New Bedford, voltou a promover exposições infantis em idênticos moldes, agora entre New Bedford/Angra—Angra/New Bedford.
Em 1976 expõs individualmente no Festival Português da Primavera, no “Bristol Community Colletge”, Fall River, Mass.:

catálogo Festival da Primavera, Gristol Community College, 1976

catálogo Festival Português da Primavera, Bristol Community College, 1976

Baptista de Lima, texto inserido neste catálogo, de apresentação de uma exposição feita por Rogério Silva no Museu de Angra do Heroísmo, em 1972:

O Pintor Rogério Silva credita-se entre os artistas açorianos não apenas por uma capacidade criadora e um talento tantas vezes exuberantemente mostrado, em realizações de elevado nível plástico, no vasto domínio do figurativo. Recordamos com prazer essas belíssimas marinhas que têm figurado em muitas das suas exposições e ainda os trabalhos de índole expressionista, diríamos até surrealista, que em determinada época brotaram com frequência da sua paleta, valorizando e enriquecendo a sua produção. Desejamos, contudo, assinalar neste momento em que o artista continua o seu diálogo com o público através da apresentação das suas mais recentes produções plásticas, a notável contribuição que tem dado aos Açores em geral com a ação que, benemérita e incansavelmente, tem vindo a desenvolver, através da Galeria “Gávea”. Não foi ainda prestada a Rogério Silva a homenagem que lhe é devida por este seu abnegado trabalho, graças ao qual alguns dos mais notáveis artistas portugueses das novas gerações têm sido conhecidos e apreciados nos Açores. As exposições da Galeria “Gávea”, apresentadas por Rogério Silva, em catálogos primorosamente elaborados, constituíram valiosa fonte de intercâmbio e promoção artístico-social no meio açoriano e muito desejaríamos que essa Galeria, após a sua partida para terras americanas, pudesse continuar a viver com a mesma atividade e a desempenhar entre nós a tão nobre e importante missão que Rogério Silva sonhou e soube porfiadamente levar a cabo, sem olhar a sacrifícios sem conta, durante tantos anos. É com saudade que agora o vemos partir, mas consola-nos a ideia de que os Açores vão ganhar mais um artista nos Estados Unidos e que do intercâmbio que deseja promover entre artistas e serviços de Belas-Artes portugueses e americanos resultará mais uma importantíssima obra digna do nosso reconhecimento e que, por todos, merece ser apoiada.

Baptista de Lima, Diretor do Museu de Angra do Heroísmo, Açores

Ainda em 1976 realizou outra exposição na “Câmara Municipal de Boston”, Mass.:

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Onésimo Teotónio de Almeida, texto de apresentação

O imigrante açoriano que tem demandado os Estados Unidos é habitualmente tradicional nas suas formas de expressão sociais. As suas manifestações artísticas são uma revives­cência da arte folclórica da Europa Ocidental preservada desde o século XV nas ilhas que o Atlântico isola do resto do mundo. Rogério Silva surge agora no meio dessa comunidade como prenúncio duma nova geração que encara o mundo de modo bem diferente. A maioria dos seus quadros são ainda açorianos de tema. Mas os Açores de R. S. não estão estagnados no bucolismo tradicional em que a história os deixou. Eles estão penetrados de dinamismo. A realidade não é um mundo de objetos no espaço separados do sujeito, mas uma complexa interpenetração de um e outro. O exterior e o interior misturam-se num movimento rítmico multidimensional de ângulos dinâmicos em que as cores participam de modo fundamental como parte integrante da vida que anima o quadro. Jean Bazaine afirmou algures que “a pintura dos nossos dias é uma espécie de existência, uma tentativa de respirar num mundo onde respirar já não é possível”. E possível respirar nos Açores o ar puro do espaço; mas a pintura de R. S. manifesta essa ânsia de respirar um tempo novo. Nos seus trabalhos feitos nos Estados Unidos, é o espaço-tempo totalmente novo que o artista procura respirar na sua obra. A arte foi sempre â frente. A distância entre ela e a vida foi sempre uma constante. Mas a existência dos artistas desvendando os caminhos do futuro é um sinal de esperança de que a vida não parará por falta de horizontes.

É bom que a arte de Rogério Silva esteja entre nós. Se multiplique e ajude a multipli­car os artistas. E que se divulgue.

Onésimo Teotónio Almeida

duas páginas do catálogo da Celebração Portuguesa do Festival Bostonian, 1976

duas páginas do catálogo da Celebração Portuguesa do Festival Bostonian, 1976, e lista de trabalhos expostos

Manuel Calado, comentário lido na Estação de Rádio WJFD, de New Bedford, Maio de 1976

“… justo é que se fale hoje aqui, de um homem, que é um valor no panorama artístico luso-americano. Referimo-nos a Rogério Silva, gravador, desenhador e pintor de incontestáveis méritos. E vem a propósito falar deste patrício faialense, devido à exposição de trabalhos que vai realizar no “Bristol Community College”, por ocasião do Festival Português da Primavera. Rogério Silva é, no seu género, um valor que importa destacar. As suas pinturas, gravuras e desenhos, denotam uma sensibilidade, uma minúcia, um gosto extraordinário pelo detalhe. Profundamente influenciado pelo meio onde nasceu e formou a sua personalidade, os seus desenhos e gravuras, refletem uma tonalidade marítima que não podia deixar de vincar os seus trabalhos. São o mar, a baleia, a gaivota, a imigração e a tempestade, elementos que nenhum homem das ilhas, e especialmente com a sensibilidade artística de Rogério Silva, pode deixar de sentir. A realidade de Rogério Silva, è uma realidade esquematizada, plasmada numa visão geométrica dos elementos, tendo mérito as suas criações, especialmente nos domínios do figurativo e do simbólico. Para Rogério Silva, vão pois os nossos parabéns, pela oportunidade de expor os seus trabalhos, de indiscutível mérito artístico.

Na mesma exposição do Festival Português da Primavera, estarão também patente, uma coleção de trabalhos da Cooperativa de Gravadores Portugueses. Deu-se portanto, mais uma dimensão ao Festival do “Bristol Community College”, com esta exposição de Rogério Silva, da qual acaba de ser publicado um excelente catálogo, com alguns trabalhos mais expressivos do artista. O catálogo em si, é já uma excelente obra de arte, produzida nas oficinas da “Chama Incorporated”, de New Bedford. E para terminar, duas palavras sobre o Festival Português da Primavera. Duas palavras de encómio para os seus organizadores, e para todos aqueles que colaboram na sua realização. Trata-se de uma iniciativa louvável, que muito contribui para o prestígio da nossa Comunidade, e para a consciencialização dos elementos do nosso grupo étnico, acerca das realidades culturais, artísticas, etnográficas, tradicionais, folclóricas, e até culinárias, daquilo a que chamamos, a Colónia Portuguesa da América.

Manuel Calado

Em 1977 foi escolhido para expôr de novo na Câmara Municipal de Boston, juntamente com representantes de mais dezasseis grupos étnicos:

catálogo exposição Casa da Saudade, New Bedford, Free Public Library, 1977

catálogo exposição Casa da Saudade, New Bedford, Free Public Library, 1977img291 a

João Afonso, texto de catálogo da exposição na New Bedford Free Public Library, 1977

ARTE DE ROGÉRIO

É bem possível e facilmente provável que possa vir a falar-se de uma arte de Rogério, isto é aquela arte que lhe dá a presença distintiva entre os seus pares. Com um sentido muito agudo de comunicar pela Arte as suas próprias mensagens de ordem puramente estética ou, então, de índole social e religiosa, Rogério Silva sabe, entretanto, entornar na expressão artística que cultiva laboriosamente não apenas processos técnicos clássicos mas também processos de criativa expressão. Jovem a caminho dos 50, Rogério está sempre a realizar-se. Na sua década dos vinte anos, explorou em tentativa de ”self made artist” as linhas paralelas do artífice habilidoso e de vários talentos e do pintor que, querendo, se interroga a si mesmo sem ajudas, angustiosamente confiante. Aplicado ao trabalho, ia observando a beleza natural das ilhas atlânticas, nascendo-lhe belos quadrinhos a óleo e a aguarelas, alguns hesitantes mas todos demonstrando uma segurança progressivamente conquistada. Depois, procurou em Lisboa o contacto com o meio artístico evoluído e o segredo das técnicas mais recentes. Entretanto, as suas lutas pela interpretação subjetiva dos fenómenos anímicos depararam-lhe perplexidades na vida e na saúde e desencontros estéticos que viria a vencer. Infletindo por necessidade profissional para o desenho geométrico e para as cores puras, logo descobriu notas individuais em que as linhas retas e o cromatismo elementar o podiam levar a expressões fantásticas de desenho arquitetónico capazes de invadir com virtude (valor) os campos artísticos. Aqui, a imaginação e o poder criativo firmaram a tal presença distintiva do artista entre os demais artistas. É o seu modo maior. Dos caminhos açorianos, de ilha para ilha e de cidade para cidade (com forte e amada presença na Terceira e em Angra), Rogério passou à Nova Inglaterra. Nos Estados Unidos desde há anos instalou-se sem pressas e sem ambições desmedidas mas com imensa vontade de seguir caminhos seguros. Preferindo as possíveis realizações cuidadamente exemplares que estariam em breve ao seu alcance, não forçou a sua presença. Tudo aconteceria a seu tempo. E aconteceu mesmo…

De onde: a série de exposições em que é convidado a participar. Dai: o apreço que cresce pelas qualidades pedagógicas e didáticas evidenciadas nos seus trabalhos e nas suas irrepreensíveis presenças, artisticamente valorizadas nos belíssimos catálogos que se esgotam com rapidez. A pintura em diversos processos, o desenho especializado, o de construtivismo geométrico, a colagem, a gravura com as expressões permitidas pelos métodos reprográficos diversos, as artes gráficas propriamente ditas, tudo isso e um imenso senso das perfeições de execução é quanto está ao alcance de Rogério e de nós outros que tanto aproveitamos do seu labor. Querido nos meios culturais pela certeza que põe nas suas relações corretas e plenas de carácter, esta boa pessoa que é Rogério Silva corresponde exatamente a um artista capaz, a um professor de ensino útil e oportuno. Dá gosto ter Rogério por amigo. Apetece acompanhá-lo em tudo quanto realiza aqui, na Nova Inglaterra, ou nos Açores, onde nasceu.

João Afonso – Boston, Outono de 1976

Rogério Silva, exposição Casa da Saudade, New Bedford Public Library, 1977

Rogério Silva, exposição Casa da Saudade, New Bedford Public Library, 1977, trabalhos expostos e referências de organização

Em Abril de 1977 Rogério Silva realizou ainda uma exposição individual a convite do Governo Português na “Biblioteca Pública da cidade de New Bedford” (Casa da Saudade), New Bedford, Mass.:

Exposição de Rogério Silva na Biblioteca Pública de New Bedford, a convite do Governo Portugês, 1977

Exposição de Rogério Silva na Biblioteca Pública de New Bedford, Abril de 1977.

João Afonso, texto do catálogo , Abril de 1977

A 26 de Maio de 1971 chegava aos Estados Unidos um artista português bem conhecido nos Açores. Cinco anos depois, em 1976 (dia e mês, por coincidência, 26 de Maio), esse artista expunha pela primeira vez neste país. A partir da Primavera do ano passado, Rogério Silva apresenta-se sucessivamente em:

  • Fall River (Portuguese Spring Festival);
  • Boston (Festival Bostonian-Portuguese Celebration);
  • novamente Boston e também no City Hall, já em 1977 (Festival Bostonian Retrospective, como artista português selecionado no contexto de 17 grupos étnicos presentes);
  • Nova Bedford (por ocasião da visita oficial de um membro do Governo português e a convite do mesmo Governo;
  • agora, pela quinta vez e igualmente em Nova Bedford, quando da festiva inauguração da “Casa da Saudade”, departamento oficial da “Free Public Library” desta cidade.

Quer isto dizer que, durante os últimos dez meses e a convite, Rogério Silva expõe cinco vezes, o que é facto muito significativo. Entretanto, é Rogério convidado a estar presente em:

  • National Print Competition and Exhibition (Michael C. Rockfeller Arts Center Gallery, Fredonia, N.Y.);
  • The Boston Printmakers 29th National Exhibition (deCordova Museum, Lincoln, Mass.);
  • Footprint (Davidson Galleries, Seattle, Washington);
  • National Print, Drawing and Photography Exhibition (Charlottesville, Va);
  • 111h National Print Exhibition (Silvermine Guild of Artists, New Canaan, Conn.)

Entre o dia da chegada aos Estados Unidos e a presente ocasião não faltaram os convites. Mas o artista é exigente para consigo próprio, tem profundo respeito para com o público, não se deixa tentar pelos fáceis interesses comerciais, entende que os seus trabalhos devem ser acompanhados por uma função didática e quer que nada seja em vão. Foi por isso que nos quatro primeiros anos de América arrumou a sua vida, trabalhando no desenho de construção civil, em que é mestre, e mesmo como operário de obras. O seu êxito artístico quanto àquelas exposições está provado pelo público que acorreu aos milhares designadamente em Boston; e está comprovado nos admiráveis catálogos que evidenciam a perfeição de artista também no campo das artes gráficas.

Entretanto, Rogério vai montar em Nova Bedford a sua galeria-oficina e pensa desenvolver nos Açores a missão da galeria Gávea que funcionou em Angra, Horta e Ponta Delgada. A cidade de Nova Bedford tal como os temas baleeiros, a história marítima portuguesa, a vida dos imigrantes na sua problemática social, psicológica e económica, assim também a paisagem física e etnográfica dos Açores: estes são os temas preferidos de Rogério. E tudo isso com arte própria, de características pessoais, a que o artista empresta uma assinatura bem conhecida e reconhecível sem dificuldade. Por isso falámos no catálogo da última exposição inaugurada pelo Dr. João Lima, Secretário de Estado da Emigração do Governo português, da Arte de Rogério. Essa exposição, a que assistimos, constituiu um êxito comprovado e damos disso testemunho.

João Afonso, Bibliotecário na Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Angra do Heroísmo, Açores, Nova Bedford, Abril de 1977

Exposição Rogério Silva, Biblioteca Pública da cidade de New Bedford, Abril 1977

Exposição Rogério Silva, Biblioteca Pública da cidade de New Bedford, Abril 1977, trabalhos expostos e referências da organização

Em 15 de Abril de 1978 Rogério Silva realizou a sua exposição de maiores repercussões nos Estados Unidos da América, levada a cabo na “Brown University” (Providence, R.I.), integrada na série artística “Musas de Portugal e Brasil”, promovida pelo “Centro de Estudos Portugueses e Brasileiros” daquela universidade.

Rogério Silva, exposição na Brown University, Providence, RI, 1978

Rogério Silva, exposição na Brown University, Providence, RI, 1978

George Monteiro Diretor do Centro de Estudos Portugueses e Brasileiros da Universidade de Brown

0 Centro de Estudos Portugueses e Brasileiros está altamente interessado na promoção e divulgação da cultura portuguesa e é particularmente importante que os luso-americanos reconheçam que a cultura e a arte de alto nível existem entre nós como forças vitais. Um caso específico é o da arte de Rogério Silva. Em luta contra limitações e adversidades do meio, ele dedicou a sua vida à arte em vários dos seus géneros. Pintor, desenhador, gravador, Rogério Silva merece a atenção de quem quer que esteja interessado nas artes. O Centro tem o maior prazer em apresentar a obra de Rogério ao público de Rhode Island através desta exposição individual na Biblioteca Annmary Brown Memorial, da Universidade de Brown. A existência da arte de Rogério e, em particular, o considerável conjunto de trabalhos que ele tem realizado como imigrante nos Estados Unidos, é um sintoma significativo da evolução operada e em operação na arte no mundo português e luso-americano.

Norbert J. Yasharoff – texto do catálogo publicado em “Horizontes USA”, (Janº/Fevº, 1978)

…A atitude positiva /de Rogério Silva/ explica a ausência de ambiguidade e imprecisão da sua obra, a firmeza e vigor do seu traço e a claridade dos temas apresentados. Também explica a sua adoção, nos últimos anos, de formas geométricas e cores puras, como principais meios de expressão. E reflete-se no fascinante acrílico “Futuro”, em que uma estrutura geometricamente complexa se transforma magicamente em alinhamentos cada vez mais claros e brilhantes, que conduzem a uma transfiguração invisível mas prometedora. Com todos estes atributos e realizações, por que motivo é ainda Rogério Silva virtualmente desconhecido fora do estado de Massachusetts? Há várias razões, tanto objetivas como subjetivas. (…)

New Bedford, lugar onde dificilmente um artista de talento como Rogério Silva pode esperar adquirir projeção nacional é, contudo, o único lugar em que, apesar de todas as dificuldades, problemas e divisões, ele sente que pode lançar novas raízes, longe da sua terra natal — entre velhos amigos e gente que se lhe assemelha. (…)

Inteiramente à parte dessas dificuldades práticas, Rogério Silva tem feito muito pouco por atrair a atenção do resto do país. Nada querendo vender à exceção de provas das ilustrações de livros, tem desprezado completamente o aspecto comercial da sua vida de artista. Não tentou entrar em contacto com agentes ou negociantes. Não contactou nenhum museu ou galeria, com ofertas de exposição das suas obras. Pouco faltou para não convidar críticos de arte de outras cidades a pronunciarem-se sobre as suas exposições.

Richard Pacheco, texto inserido no catálogo do critico de arte do “New Bedford Standard Times”, publicado a 30 de AbriI de 1978

ROGÉRIO SILVA – ALTERANDO PLANOS

Formas claras e precisas, espaços complexos e cores vibrantes caracterizam a obra de Rogério Silva. Os trabalhos revelam a influência do cubismo nas alterações de planos e na complexa definição do espaço, mas as cores são mais claras, brilhantes e de uma mais vasta gama do que as cores cubistas. Mesmo as cores mais escuras como o castanho-tabaco e o verde-azeitona possuem animação e vivacidade. São, além disso, complicados e dinâmicos no desenho e na cor. Frequentemente emerge das composições um motivo de mosaico, sugerindo por vezes edifícios. As pinturas oferecem muito movimento, levando-nos o olhar atrás e adiante, à volta e através das formas e das cores. A escolha de cores de R. Silva, a precisão e cuidado com que ele as seleciona, reforçam este sentido de movimento e de alterações de planos.

Em “Escola Hayden-McFadden — New Bedford”, a paisagem mais ou menos reproduzida é confrontada abruptamente por grandes letras e formas flutuantes que comprimem e nivelam o espaço natural com um quase-pesadelo, comum ao surrealismo. Em “Fábrica — New Bedford”, as formas rígidas do edifício criam um espaço profundo que é contradito pelo uso da cor. Os objetos ao fundo recebem cores brilhantes, como o vermelho, o que os transporta para diante do observador. Aquilo que parece meramente uma sugerência da atmosfera de sonhos do surrealismo recebe maior importância nas gravuras do que nas pinturas. Aqui, os objetos, figuras e motivos misturam-se e esvaem-se uns nos outros permanecendo, todavia, precisos e bem definidos.

Em “Choro de baleias e homens” surgem em todo o trabalho figuras e silhuetas de baleias como jogos de paciência de crianças em que se pede para se encontrar os objetos escondidos, por vezes disfarçados de outra coisa qualquer. Um trabalho como “Fragmentos num todo” leva mais além esta magia de objetos em metamorfose. 0 trabalho é uma junção de vários pormenores de outras gravuras patentes na exposição. A asa de um pássaro transforma-se, mais para o centro do quadro, na mão de um jogador de cartas. Apesar da mistura de formas colidindo umas nas outras e do por vezes intrincado espaço, os trabalhos nunca são confusos, mas antes sempre bem estruturados e claros. Possuem uma totalidade que brota de uma combinação magistral de cor e desenho.

Apesar do controle extremo tido na criação destes trabalhos, eles nunca são rígidos nem afetados; pelo contrário são entusiasmantes e plenos de energia. Com tudo o que tem lugar nestes quadros, não há nunca um sentido de confusão nem de pormenor desnecessário. Os trabalhos possuem uma forte carga de um fluxo suave que movimenta a vista através do quadro, captando aqui e ali pormenores deliciosos e ritmos “stacatto” de forma e cor. R. Silva é um excelente talento que desenvolveu uma mistura pessoal de cubismo e surrealismo, de lógica e sonhos loucos que tornam os seus trabalhos sobrepujantes e enternecedores.

Rogério Silva

Rogério Silva

O último catálogo que possuo das realizações artísticas de Rogério Silva nos Estados Unidos é este. Não nos informa nem onde nem quando teve lugar a exposição a que diz respeito, qual o motivo, tema ou título da mesma. Uma das entidades que está listada como apoiante da exposição é o Congresso das Comunidades Açorianas de 1978. O tema gráfico da capa e da contra-capa, que quase totalmente as ocupa, é uma serigrafia de 76 cm x 129 cm, com a legenda seguinte: “História de um livro – Pedra de Dighton”.
É um trabalho com um impressionante dinamismo descritivo, onde uma multidão de elementos alojados num vórtice de planos diferenciados, sob o efeito de impulsos tornados visíveis, linhas de força ou vetores que trespassam, projetam e interligam a miríade de tais elementos. Alguns deles têm uma gravidade espessa que é fácil equiparar à solenidade histórico-ideológica dos símbolos figurados. É pena que a tecnologia de reprodução seja rudimentar, agravado pela forte compressão das dimensões do original. O plano reticulado de suporte que se estende até ao horizonte fornece condições essenciais para uma colocação em perspetiva dos inúmeros elementos cuja leitura é tão enigmática como sugestiva, na proposta que o artista nos apresenta de os classificarmos e ordenarmos criticamente.
Está publicado no catálogo um artigo de um jornal de Providence com data de 12 de Maio, pelo que a exposição ocorreu naturalmente depois dessa data. Estou portanto perante a última realização nos Estados Unidos de que tive conhecimento e em que esteve envolvido Rogério Silva. Procuro cuidadosamente na internet os vestígios de outras exposições ou atividades artísticas, e encontro pouquíssimo. Há um site do governo doa Açores em que um senhor Luís M. Arruda (ver ao fundo), acrescentando pouquíssimo ao que eu sei e tenho aqui publicado, conclui de forma triste um resumo da vida de Rogério Silva:

“…Rogério Silva está representado em diversos museus e instituições dos Açores e da Costa Leste dos Estados Unidos (A. O., 2006). Na Horta deixou, pelo menos, o «Painel alegórico Faial-Pico» que, segundo Almeida Firmino «oferece uma síntese do esforço comum do povo que, neste lado do Atlântico, vive mais próximo e se confunde na faina do mar e labuta em terra. Uma visão exata do afã nesses dois aconchegados mundos.» (Firmino, 1973). Rogério Silva regressou à Terceira na década de 1990. Depois dedicou-se a ministrar cursos de gravura junto das escolas de várias ilhas. A sua morte ficou marcada por um profundo silêncio!…”

Onésimo Teotónio de Almeida, abertura do catálogo

Aí vai o Rogério a dar novas do velho Novo Mundo que lhe renasce na sua arte. Mensageiro— go-between— entre o cá e o lá desta fronteira larga que se dá pelo nome de Atlântico, Rogério faz-se ponte na arte.

Empenhado aqui com a mesma intensidade com que nos Açores se entregou à arte, ele segue projetando na forma e na cor dos seus trabalhos o idealismo quase visionário, utópico e otimista que anima o seu cometimento.

A New Bedford dos quadros da fase imigrante de Rogério é simultaneamente uma esperança de melhor e sinal de mudança já real no mundo imigrante que ele habita, em que se integra, e donde começa agora a dialogar com esse mundo maior da arte que, por não ter barreira de língua, não deixa de sofrer com as barreiras culturais e humanas. Desse diálogo já iniciado falam alguns textos inseridos neste catálogo. Aí vai o Rogério. Com dois VV, por favor.

Além de dois textos já antes divulgados de Norbert J. Yasharoff e de Richard Pacheco, surge um artigo de:

Edward J. Sozanski, crítico de arte do Providence Journal – Bulletin, 12 de Maio de 1978

O mundo de um excelente artista já não está escondido

Ao contemplar-se os quadros recentes de Rogério Silva, é difícil imaginar-se que foram criados por um artista que viveu nos Açores até 1971, e que agora mora em New Bedford e que não pretende salientar-se nem a si nem o seu trabalho.
Os quadros deslumbram em técnica e tema; apesar disso Silva não procura vendê-los através de revendedores ou galerias, nem tem sequer convidado museus ou galerias a apresentarem o seu trabalho.
0 seu constante esforço para se manter anónimo foi perturbado quando o Centro de Estudos Portugueses e Brasileiros da Brown University proporcionou uma exposição de 14 pinturas a óleo, todas feitas em 1974, e algumas serigrafias de data anterior, integrada numa série de sessões de arte.
R. Silva nasceu na ilha do Faial, nos Açores em 1929 e, de 1947 até vir para os Estados Unidos em 1971, viveu na ilha Terceira. A sua primeira exibição teve lugar na ilha do Faial, em 1955, e desde a chegada a este país tem exposto os seus trabalhos em New Bedford, Fall River e Boston.
A exibição na Annmary Brown revela não só desenvolvimento artístico mas também ajustamento cultural, os grafismos, na sua maior parte feitos nos Açores, põem em evidência um artista, tentando expressar um profundo compromisso com a sua ascendência e a sua cultura através de um estilo que mistura elementos do cubismo, do surrealismo e do futurismo com temas açorianos—baleias, barcos à vela e aves marinhas, por exemplo.
Há outros motivos comuns —tabuleiros de damas e dados, alusão talvez ao papel atribuído à sorte nas vidas e destinos das empresas marítimas açorianas.
A serigrafia “História de um Livro—a Pedra de Dighton”, feito em 1974, é ao mesmo tempo um catálogo e a culminação deste dualismo. Os artefactos culturais incluem agora o globo Gama e Magalhães , a cruz e o escudo lado a lado, com satélites e segmentos de fábricas.
Nos óleos o simbolismo cultural desaparece. Rogério Silva concentra-se na pura composição, usando elementos angulares e cores brilhantes. Alguns trabalhos são uma derivação clara de modelos arquitetónicos — escolas fábricas — se bem que altamente abstratos. Outros contêm espécies de vigamentos, ângulos e planos que sugerem elementos arquitetónicos e construções.
A influência que mais claramente domina é o futurismo, com uma presença menor do surrealismo, cubismo e mesmo uns laivos de “precisionismo”. As pinturas evocam um forte sentido de movimento, por vezes para dentro e para fora, outras vezes ciclónico. A geometria é áspera, de arestas precisas e linear—há algumas curvas, mas nada de formas suaves, nada que seja sequer remotamente biomórfico.
Enquanto o estilo varia de trabalho para trabalho, o sentimento absoluto de cor e balanço mantém-se consistente Excepto no que respeita à angularidade, algumas pinturas surgerem bastante o estilo pessoal cubista de Stuart Davis, particularmente no equilíbrio miríade de formas e o contraponto intuitivo de cores. Um deles incorpora até na composição números e letras, outra dominante do estilo de Davis.
0 trabalho de Rogério Silva deveria receber uma maior publicidade e embora ele não a procure, não parece provável que ele consiga continuar a guardá-lo doravante só para si.

Rogério Silva, desenho "Imigrantes divididos", desenho, 61 x 51 cm, Rogério Silva

Rogério Silva, desenho “Imigrantes divididos”, desenho, 61 x 51 cm, Rogério Silva

Heldo Braga, poema para os “Imigrantes divididos”

poema Heldo Braga

Biografias de Rogério Silva:

Publico abaixo duas biografias de Rogério Silva que consegui reunir, em épocas diferentes, mediante pesquisas na net, ambas do domínio de publicações do Governo dos Açores. São ambas publicadas integralmente, tal qual.

― Notícia biográfica de Rogério Silva de autoria de Luís M. Arruda, publicada num Portal do Governo dos Açores, que tenho nos meus arquivos e que foi descontinuado, dado que não aparece.

Silva, Rogério [R. Isauro da S.]

[N. Feteira, Horta, 22.2.1929 – m. Angra do Heroísmo, 12.6.2006] Pintor, desenhador e gravador. Com 18 anos de idade fixou-se na ilha Terceira onde foi professor de trabalhos manuais na Escola Comercial de Angra do Heroísmo (Telégrafo (O), 1953a) e havia de nascer para a pintura o artista que depois havia de ser (Firmino, 1973). Foi naquela ilha que contactou Martinho da Fonseca, mestre da pintura, a quem ficou ligado por laços da mais sólida amizade e compreensão.

Ainda em Angra do Heroísmo, em 1958, foi um dos fundadores, com Emanuel Félix e Almeida Firmino, da revista Gávea; esteve associado a Carlos Faria na editora Gávea/Glacial; e, em 1967, foi o grande impulsionador da Galeria «Gávea» – Galeria Açoriana de Arte, que funcionou no piso principal da sua residência, na rua Pêro Anes do Canto, com filial na rua D. Vasco da Gama, Horta, que realizou mais de 15 exposições, algumas delas nesta cidade. Foi com a Galeria «Gávea», não comercial e com funções didácticas, que promoveu diversas iniciativas, entre elas a vinda aos Açores de numerosas exposições de artistas portugueses e estrangeiros.

Depois de ter feito na Horta, em 1953, a sua primeira exposição individual de pintura (Telégrafo (O), 1953b; c), expôs em Lisboa, em 1954 e 1956 quando havia de ser descoberto por Artur Portela que lhe atribuiu uma posição honrosa entre outros artistas presentes numa exposição coletiva. Entre 1967 e 1972 realizou várias exposições individuais e coletivas.
Em 1971 fixou-se em New Bedford, Estados Unidos da América, onde promoveu a exposição infantil New Bedford/Angra – Angra/New Bedford, semelhante a outra promovida ainda na Terceira, naquele ano, Angra/Paris – Paris/Angra.
Expôs, em 1976, no Festival da Primavera, no Bristol Community College, Fall River, e na Câmara Municipal de Boston, e, em 1977 voltou a expor nesta Câmara, com mais dezasseis grupos étnicos e na Biblioteca Pública da cidade de New Bedford, a convite do Governo português. Em 1978, na Brown University (Providence, R. I.), integrada na série artística «Musas de Portugal e do Brasil» realizou a sua exposição de maiores repercussões.
Para Richard Pacheco, crítico de arte, «Rogério Silva é um excelente talento que desenvolveu uma mistura pessoal de cubismo e surrealismo, de lógica e sonhos loucos que tornam os seus trabalhos sobrepujantes e enternecedores.» (Pacheco, 1978).
Outro crítico de arte, Edward J. Sozanski, registou que «[…] os gráficos, na sua maior parte feitos nos Açores, põem em evidência um artista, tentando expressar um profundo compromisso com a sua ascendência e a sua cultura através de um estilo que mistura elementos do cubismo, do surrealismo e do futurismo com temas açorianos – baleias, barcos à vela e aves marinhas, por exemplo.» (Sozanski, 1978).
Segundo João Afonso «Não estará ainda produzido um estudo aprofundado da obra de Rogério Silva em suas fases sucessivas, frente às faces transmitidas aos quadros de cada época.
«Desde os Açores e, depois, por estes vinte anos de estada dele na Nova Inglaterra (povoada ou … desértica!), tem-se escrito em vários tons sobre o artista com traços do seu perfil humano, menos porém quanto às linhas do realizador de Artes visuais» (Afonso, 1989).
Rogério Silva nunca quis comercializar a sua arte. A propósito escreveu Norbert J. Yasharoff: «Nada querendo vender à exceção de provas das ilustrações de livros, tem desprezado completamente o aspeto comercial da sua vida de artista. Não tentou entrar em contacto com agentes ou negociantes. Não contactou nenhum museu ou galeria, com ofertas de exposição das suas obras. Pouco faltou para não convidar críticos de arte de outras cidades a pronunciarem-se sobre as suas exposições.» (Yasharoff, 1978).
Sobre a maneira de Rogério Silva entender a comercialização da Arte, Onésimo T. Almeida esclarece: «O Rogério chocava-se porque “a arte é arte e não se sujar”. Pelo menos a arte do Rogério, ou tal como o Rogério a concebia.» (Almeida, 2006).
Sobre Rogério Silva escreveu Firmino (1973) «[…] não pertenceu, como pintor, a esta ou àquela ilha: é sim, e por natureza, o pintor suis generis dos Açores […]».

Rogério Silva está representado em diversos museus e instituições dos Açores e da Costa Leste dos Estados Unidos (A. O., 2006).

Na Horta deixou, pelo menos, o «Painel alegórico Faial-Pico» que, segundo Almeida Firmino «oferece uma síntese do esforço comum do povo que, neste lado do Atlântico, vive mais próximo e se confunde na faina do mar e labuta em terra. Uma visão exacta do afã nesses dois aconchegados mundos.» (Firmino, 1973).
Rogério Silva regressou à Terceira na década de 1990. Depois dedicou-se a ministrar cursos de gravura junto das escolas de várias ilhas.

A sua morte ficou marcada por um profundo silêncio!

LUÍS M. ARRUDA

Fonte: Conservatória do Registo Civil de Horta, assento de nascimento n.º 84 do ano de 1929.

Bibliografia

A. O. [Álamo Oliveira] (2006), In memoriam. Rogério Silva (1929-2006). Diário Insular – vento norte, Angra do Heroísmo, 20 de Julho. Afonso, J. (1989), Pintor nosso lá fora. Rogério Silva – açoriano na Nova Inglaterra. Atlântida, 34, 1: 5-12. Almeida, O. T. (2006), Rogério Silva – a arte de um outro mundo. Tribuna das Ilhas, Horta, n.º 217, 7 de Julho: 7. Firmino, A. (1973), Rogério Silva, pintor dos Açores. O Telégrafo, Horta, n.º 22003, 21 de Fevereiro. Pacheco, R. (1978), Rogério Silva – shifting planes. New Bedford Standard Times, New Bedford, 30 de Abril: 16. Sozanski, E. J. (1978), A fine artist’s work is hidden no more. Providence Journal-Bulletin, Providence, 12 de Maio: 6. Telégrafo (O), (1953a), Horta, 21 de Agosto, [Rogério Silva]. Ibid., (1953b), Horta, 1 de Setembro [Rogério Silva]. Ibid., (1953c), Horta, 16 de Setembro [Rogério Silva]. Yasharoff, N. J. (1978), [notícia sem título]. Horizontes USA, Jan./Fev. Fragmentos.

A seguir publico também uma nota biográfica de Rogério Silva, que se encontra presente no site:
http://www.bparah.azores.gov.pt/html/bparah-historia+fundos02.html

Rogério Silva [1929-2006] – Pintor e ativista cultural

Rogério Isauro da Silva. Nasceu no Faial (Feteira) e faleceu em Angra do Heroísmo. Foi pintor, desenhador e gravador. Fixou-se aos 18 anos na Terceira, como professor de trabalhos manuais na Escola Comercial de Angra do Heroísmo.
Juntamente com Emanuel Félix e Almeida Firmino, viria a ter um papel central na atividade cultural angrense, quando os três fundaram em 1958 a revista Gávea e, mais tarde, extinta esta, com a criação, em 1967, da Galeria de Arte Gávea, que funcionou na sua residência, na rua Pêro Anes do Canto e teve filial na Horta. Nesta fase colaborou intensamente com Carlos Faria, coordenador da página literária «Glacial» do diário angrense A União, realizando numerosas exposições de jovens artistas portugueses e estrangeiros e criando a editora Gávea / Glacial.
Fez a sua primeira exposição individual de pintura em 1953, na galeria do jornal O Telégrafo; expôs em Lisboa, em 1954 e 1956, tendo sido notado por Artur Portela, figura destacada da época, que o levou ao convívio com outros artistas, numa exposição colectiva. Entre 1967 e 1972 realizou várias exposições individuais e colectivas.
Em 1971 emigrou para os Estados Unidos da América e fixou-se em New Bedford, onde viria a desenvolver vasta atividade cultural, semelhante àquela já desenvolvida nos Açores. Está representado em diversos museus e instituições dos Açores e da Costa Leste dos Estados Unidos.
Rogério Silva regressou à Terceira na década de 1990, tendo o seu regresso sido ignorado pelas novas gerações de artistas. O seu falecimento passou quase completamente desapercebido da imprensa.
Do espólio entregue à Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Angra do Heroísmo em 2012, por seu sobrinho, Nelson Cardoso, constam documentos pessoais, livros da sua biblioteca pessoal, catálogos de exposições, alguma correspondência pessoal entre amigos e parentes e muitas fotografias pessoais, de família e de viagens, assim como de quadros seus.

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