O que aqui vos mostro

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o que aqui vos mostro…

o que aqui vos mostro não é uma paisagem, nem uma visão traçada a olho de pássaro de um ponto no mapa, com nome, história e coordenadas geográficas. O que aqui se vê é o cenário pressentido de mil encontros ou dez mil desencontros, pressupondo naturalmente que uma coisa seja mais abundante que a outra, porque mais rara de alcançar por quem recebe e mais difícil de construir por quem oferece. Os detalhes, os objectos simbólicos, o lugar donde se espreita a fuga, o achado, a cobiça despropositada e o desejo triste são impossíveis de ver à lupa do sentimento claro, estando quem vê repousando somente no parapeito rápido e indiscreto da casa que não é sua. Ninguém vive ali. Ninguém está ali com vagar de ver, mesmo que tenha o tempo de olhar. Olhar tão lentamente, olhar tão devagar por um espaço tão enorme de tempo que permita colecionar na lembrança tanta ingenuidade pitoresca, tanto defeito de obra, tanta carne saturada do verde musgo das paredes velhas. Ver é sempre depois. Ver é a pequena parte que sobrevive das imagens inventadas. Eco. Reflexo. Achado precioso da lembrança.

Costa Brites, Março 2013

219-Sofia-grafite

Alta-Rua da Sofia, desenho a grafite, 1994 Costa Brites

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