J. H. Santos Barros / 1977 – Rogério Silva como-se-tudo-fosse…

Santos-Barros

O saudoso amigo, poeta e escritor J. H. Santos Barros que ficará jovem para sempre nas memórias de todos nós.

Santos Barros

20 Anos de Literatura e Arte nos Açores, J.H. dos Santos Barros

20 Anos de Literatura e Arte nos Açores, J.H. dos Santos Barros

O texto abaixo encontra-se publicado na obra de J. H. Santos Barros cuja capa está reproduzida, a páginas 43 – 47, conforme pode ver-se no Índice.

Notícias da “América”, notícias de arte e emigração, chegam em recorte de jornal português editado nos U.S.A. É Onésimo Teotónio quem as dá, outra jovem da geração “Glacial”, outro valor açoriano noutras paragens empregando a sua capacidade intelectual, que a tanto tem obrigado os condicionalismos, direi: certa fatalidade de política velha. De muitas coisas dá noticia Onésimo em brevíssimo apontamento, nessa arte de comunicação de que ele é exímio cultor – o jornalismo, aqui elevado à categoria de género literário (que o é, e não menor, mais o apontamento de Onésimo “Rogério Silva, como-se-nada-fosse…”o prova).

Das virtudes literárias do texto não darei conta. Grato estou pelo refrescamento da memória que ele traz, como pelo pretexto dado. Transcrevo: “Rogério Silva (…) traz os Açores nos seus quadros. Pensa-os e repensa-os. Vive-os e, nos ângulos onde a vida parece ser uma memória, ele revivifica-os (…) por aqui anda um homem cuja arte ensinou tantos a descobrirem uns Açores diferentes; um homem que, ao mesmo tempo, porque sempre dominado por preocupações didáticas, ensinou tantos a descobrirem a arte”.

0 Pintor açoriano Rogério Silva “ reporto-me agora à leitura dos convites para o “Festival Bostonian Retrospective/Our Multicultural Heritage”, 10 a 28 de Janeiro de 1977 – foi escolhido para representar Portugal nesta exposição com quatro trabalhos, exposição onde se apresentam catorze grupos étnicos. Duas exposições, portanto, simultâneas: esta, coletiva, e a individual, na Câmara Municipal da Boston, a que também Onésimo se refere.

Escrevendo de Lisboa, distante do lugar que nos uniu, os Açores, por aqui perpassa aquele sopro intrínseco à arte, um dos seus sinais mais sensíveis a intemporalidade, e uma certa esperança que advém de saber uma atividade que continua. Nenhum saudosismo no mau sentido há nesta atitude.0 leitor constata os pontos cardeais, os portos geográficos e aproxima-os sem dificuldade.

Rogério Silva está em movimento. Como sempre. Este homem, que faz parte da história cultural dos Açores, aí está, atento à realidade açoriana e a sua dimensão universal, e agindo. Ele, profissional de carpintaria, continua pintando, longe da terra, em lugar de lonjura para muitos portugueses como ele, fora do país a lutar por vida digna. Atesta o catálogo da exposição individual que os seus quadros continuam a expressar “uns Açores diferentes”, o arquipélago do futuro, terra de harmonia donde ninguém tenha de sair à falta do essencial. Os muitos açorianos que conhecem os trabalhos do pintor Rogério sabem que esta pintura, não sendo do social, pelo menos mais imediato, é veículo dos mais profundos anseios do povo açoriano, é desses anseios que se alimenta a arte do pintor e lhe vem a força estética duma aposta no futuro, comum aos habitantes do mar que somos. Essencialmente, é dito que falam os quadros deste geómetra da luz, da cor, dos seus contornos açóricos. Empenho na arte que é paralelo ao mesmo empenho na vida quotidiana, empenho antigo dum labor de rara persistência, melhor dizendo: resistência de mais de vinte anos de atividade que cobriram não apenas as ilhas menos “ilhas” do arquipélago – Terceira, S. Miguel, Fayal, mas irradiaram para todos os locais dos Açores donde vinham solicitações.

Aonde existissem condições mínimas para a penetração artística, o operário da arte lá estava. (Aonde encontrar uma visão tão antiga e ampla de unidade das nove ilhas)? “Descentralização cultural” autêntica num tempo em que disso não se falava. A fé de Rogério Silva na dimensão estética do homem, no contributo da arte para a sua libertação total, é análoga à tal “fé que remove montanhas”. Com esta fé também se nutrem as revoluções culturais.

“Gávea” é nome chave para a compreensão histórica do movimento cultural nos Açores deste século. Aliás, creio que só a partir daqui se poderá falar de intervenção cultural autónoma na região açoriana. “Gávea” revista, com três números editados aglutina e dá corpo senão a um “movimento” no sentido de grupo com opções ideológicas e estéticas claramente definidas e assumidas, a um conjunto de escritores e artistas até então dispersos. Estas vozes, organicamente unificadas, afirmam-se, ainda que vagamente, com características próprias que as individualizam no conjunto do pais. Contingências, obrigam-na a referir apenas alguns nomes, de memória: A. Firmino, José Eanes, Artur Goulart, Silva Grelo, etc.

Com intervalo de mais de uma década, apareceu “Gávea”, galeria de partes plásticas, não comercial, fins didáticos, como ela própria se definiu e que adotou como lema a frase de Torga: “Quem faz o que pode, faz o que deve”.

Neste centro cultural vivo e dinâmico se ensinou arte a muitos milhares de açorianos; se estimulou a criatividade infantil através de exposições em apoio a atividades escolares; se estimulou o aparecimento de novos pintores locais que vieram, posteriormente à partida de Rogério para os U.S.A., a revelarem-se ou a confirmarem-se no “boom” de artes plásticas e literatura que deflagrou nos Açores de 1971 a 1974. Esta geração que escrevia no suplemento “Glacial” e “Cartaz” e pintava através de Meneses Martins, José Lúcio, Gilberto Amaral e outros, criou três células vivas de intervenção, as galerias “Degrau” (Angra do Heroísmo), “Teia” (Ponta Delgada) e “Francisco de Lacerda (ilha de S. Jorge). Foi a resposta ao encerramento pelo governo da cooperativa livreira “Sextante” que teve também um papel preponderante a nível cultural nos Açores. Ocorre, já que a crónica se faz de coisas não registadas, lembrar dinamizadores culturais fundamentais neste processo: Eduardo Pontes, Paulo Jorge Lobão, Zézé Ávila. Esta geração não partia do nada, herdava o riquíssimo legado espiritual da “Gávea” convivia, aliás, com alguns dos seus principais artífices em iniciativas comuns. Evidentemente, Rogério não foi “um homem só”. 0 programa que a galeria desenvolveu contou com Emanuel Felix,  Artur Goulart e, sobretudo, com Carlos Faria e Ivone Chinita a quem se deve o intercâmbio cultural continente-ilhas e vice-versa, pontes lançadas que hoje permanecem sólidas no espaço comum português.

“Gávea” foi também ocasião de debate cultural e cientifico em colóquios por ela promovidos, e funcionou como editora. Quatro livros publicados, uma preciosa coleção de catálogos alusivos a mais duma vintena de exposições de desenho, gravura, pintura, artesanato, etc. Nomes dos mais importantes das artes plásticas de hoje em Portugal: Palolo, Bartolomeu Cid, entre outros.

Por detrás desta gigantesca atividade, de contornos mais nítidos porque a nível insular, por detrás deste investimento cultural não oficial, realizado por pessoas com a intuição dos valores artísticos e a consciência de como eles podem contribuir para a emancipação dum povo, e sem qualquer apoio financeiro, oficial ou particular, contando apenas com as próprias forças, aceitando o risco de que sem aventura nada acontece, há uma experiencia extraordinariamente importante – pena que o seu eco não tenha percutido suficientemente pelo pais; por detrás desta atividade, dizia, o nome de Rogério Silva permanece. Permanecerá. Como se tudo fosse…

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