paisagens imaginárias

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Ver-te assim leve e nova, cidade cansada! - vião imaginária de Coimbra, Costa Brites

Ver-te assim leve e nova, cidade cansada! – vião imaginária de Coimbra, Costa Brites

Um amigo meu, tendo Coimbra como o centro do seu universo de referências, pediu-me um trabalho que evocasse a faculdade onde estudou e a cidade respectiva na linguagem singela e franca que é típica do azulejo. A respeito do painel que acima se publica (e que é apenas uma parte da totalidade do trabalho em referência) redigi, como é meu hábito, uma “memória descritiva, que faz uma “visita guiada” ao mesmo.

Coimbra, síntese idealizada:

“… apresenta-nos uma síntese de vários pontos de importância paisagística no contexto institucional, cultural e arquitectónico desta cidade. Uma tal visão organiza-se de acordo com uma certa ideia de perspectiva, colocado o observador num sítio ideal elevado, com linhas irradiantes ao longo das quais os diversos monumentos e edifícios se orientam, de acordo com a lógica de anfiteatro da própria cidade. O “Largo da Portagem”, de modo a acolher a perspectiva das traseiras de “S. Bartolomeu”, dinamiza-se num arco de círculo, concordante para o lado esquerdo com a posição da “Sé Velha”, e para o lado direito com a casa do “Governo Civil”. A liberdade da composição permite entrever alguns dos locais de passagem em que toda a cidade se encontra, além do “Largo da Portagem”, a “Couraça de Lisboa” o “Largo da Sé Velha”, a “Praça da República”, o miradouro anexo à Faculdade de Farmácia, etc.

Rangendo amarelo, Portagem além, um carro eléctrico desértico como a sua própria ausência das ruas de Coimbra, conduz-nos para onde a nossa imaginação quiser. Irá para o Tovim? Irá para Celas ou para Santo António dos Olivais? Será o 7, o 4 ou o 3?

Oscila e range ladeiras acima. Meio barco, meio carrocel é um encanto para as crianças que nele se penduram e para os amigos que podem fazer sala de estar na frescura livre das plataformas. Sim, os eléctricos, de que toda a gente gostava, uma coisa que já não há, que ficava barato e não poluia os ares… (só rangia um bocado, é certo, mas eu morei 11 anos mesmo ao lado da linha 4 e nunca acordei com a passagem do elétrico!).

No friso inferior. além de duas construções abstractas que suportam as arborescências que se erguem lateralmente ao longo da paisagem, estendem-se ondulações em perspectiva que sugerem o passar das águas do rio bem como tufos de plantas que ornam as suas margens.

De resto, não se enumeram aqui todos os componentes desta “paisagem”, dado que é um exercício que fica reservada a todos os conhecedores e admiradores da cidade, que vão ter o prazer de os identificar um a um, num pequeno exercício de memória equivalente ao vagabundear liberto por ruas, praças e ladeiras. O único elemento figurado que se observa “olhos nos olhos” e que, por isso, estabelece a linha de horizonte é o do paço real transformado em Universidade de Coimbra. Flanqueando esta perspectiva idealizada erguem-se duas arborescências laterais, com uma expressão primaveril e fundo da mesma cor que aquece o rosto do “Sol”.

"O eléctrico, um passeio de eléctrico!..." Visualidade de Costa Brites, Outono de 1989

“O eléctrico, um passeio de eléctrico!…” Visualidade de Costa Brites, Outono de 1989

O Eléctrico
um passeio de eléctrico!…
deslizar sibilante e amarelo
por sobre longas fitas azuis e curvilíneas
subindo, descendo
Carrocel como um barco!
− barco rosnando ladeiras acima
− carrocel vacilante ladeira abaixo
O sol redondo entra pelo boné sebento do guarda freio
e no banco dos tolos a rapariga das pernas gordas
é uma delícia para o rapaz da camisa branca
que segue de pé
e espreita a lua entre as rendas da blusa
e o arvoredo compacto da Sereia

Praça da República! Paragem.
“Tin-tin” diz a criança e ensina o Avô
que paga o bilhete
para dar a volta inteira
e reacender a vida
entre mulheres que carregam cestos
e senhores que lêem o jornal

O Eléctrico:
um passeio de eléctrico!…
para saltar em andamento ou subir devagar
ou pendurado como os garotos
que desenham um sobrolho carregado
na face magra do homem cinzento que cobra bilhetes

Bilhetes de eléctrico:
tiras modestas com números e letras
frágeis passaportes
e sensatos conselheiros:

“SE VIAJAR DE PÉ SEGURE-SE BEM”

Outono, 1989
“Visualidades”, Costa Brites

Um painel para Finisterra, encomendado/concebido por Ernesto Insua e imaginado/realizado por Costa Brites

 A cultura dos lugares limite, neste caso daqueles que se encontram nos extremos “onde a terra se acaba e o mar começa”, tem sido motivo de enriquecimento referencial no cruzamento de culturas, crenças e formas de arte muito diversas.
No decurso de uma conversa que tivemos Ernesto Insua e eu, no seu magnífico Hotel Dugium, lugar aprazível onde a cultura marca encontro com qualquer pessoa que esteja disposta a complementar a visita com serões de amistosa troca de ideias sobre assuntos de toda a espécie, foi referida a tradição artística da azulejaria portuguesa. Foi daí que surgiu a ideia de executar um painel de azulejos que ilustrasse alguns pontos fundamentais dessa “cultura dos fins do mundo”, para o que diversos elementos de significação foram enumerados pelo seu inventor conceptual, o Senhor Ernesto Insua.
Passo a descrever o painel de azulejos que concebi e executei, de acordo com o projecto que ambos fomos aperfeiçoando, ao longo de conversas cheias de interesse mútuo.
O elemento central de mais destacada presença é uma rosa dos ventos, objecto simbólico que preside ao sentido e à necessidade de orientação que nos domina em momentos de chegada e de partida, ao longo de viagens de necessidade ou no decurso de peregrinações empreendidas sob os mais variadas motivações.
Por natureza um objecto capaz de apontar caminhos em todas as direcções, também aqui distribui o nosso olhar, primeiramente como de acordo com os pontos cardiais, em direcção a quatro paisagens de outros tantos “fins de terra”: Fisterra, Roca, Lands End e La Pointe du Raz, na Galiza, em Portugal, em Inglaterra e na França, respectivamente.
Note-se que estas quatro paisagens estão mostradas neste painel tal como, de forma idealizada, se podem contemplar de Fisterra: o Cabo da Roca como se fosse visto de Norte, e os restantes cabos como se os olhássemos de Sul. Fisterra, ela própria oferece-nos a sua perspectiva mais amável, vista de Sul, ostentando a enseada amena que é a praia de Langosteira.
Como elemento aglutinador dessa variedade de perspectivas foram utilizados diversos grafismos directamente inspirados na arte Celta, cultura de certa forma referível à área geográfica aqui contemplada.
Esse processo vai ao encontro da ideia de “cercadura” geralmente assumida em grande quantidade de painéis clássicos de azulejos, mas que aqui foi utilizada de forma muito livre como forma organizar espacialmente ideias de difícil conciliação visual.
À esquerda em cima o “painel do peregrino” compatibiliza a sua imagem e a da concha de vieira com algumas referências à convivência entre mar e serra que o litoral galego tão abundantemente nos oferece, e de que o “hórreo” é um adereço insuperável.
Ao centro da rosa dos ventos, num espaço propositadamente concebido como alusão à forma do próprio globo terrestre, aparece essa visão distante e sugestiva “do outro lado do mundo”, sonho primeiro e destino de vida depois de tantos e tantos milhares de galegos.

2 thoughts on “paisagens imaginárias

  1. Julliano Guerrero

    Como disse o prezado Chopin em sua reapresentação a Leslie, a imaginação muitas vezes é carregada de realidade! Quem sabes não pintastes uma terra natal de outrora, ou mesmo uma das fases temporárias em sua pátria espiritual. De qualquer forma, adoraria ter azulejos em minha casa com estas belas obras. Abraço caro José.

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  2. CB Post author

    Retribuo o abraço recebido de Ribeirão Preto, com o maior gosto. E ponho um disco de Maria João Pires com os Nocturnos de Chopin, sem duvidar que tem razão o meu amigo Guerrero, ao falar nas terras natais de outrora e na pátria espiritual de todo o sempre…

    Responder

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