Vasco Pereira da Costa – Novembro de 1984

Texto de catálogo duma exposição individual que teve lugar em Coimbra na galeria “O Primeiro de Janeiro”, em Novembro de 1984, da autoria de Vasco Pereira da Costa

A larga Praça de Sansão

A larga Praça de Sansão

CIDADE   PODE   SER o perímetro de um rectângulo, as linhas que se cruzam nesse limite, as cores que animam casas, ruas e céus.

NÃO  É  INDIFERENTE ESTAR postado daquele ângulo ou daqueloutro para encarar a cidade. Ver a cidade é dizê-la por traços e matizes aos outros cidadãos — perpendicularmente solidário com as pedras que se afagam e se pisam.

A CIDADE DO ARTISTA É SEMPRE UMA CIDADE sublimada porque assenta os alicerces na utopia e rasga os céus  da ambiguidade.   Mesmo quando sugere o real, faz lembrar uma nova verdade: cidade nunca quimérica, nunca ingénua, nunca inofensiva. A cidade é uma Coimbra,   O artista é Costa Brites.

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DESTA   CIDADE   ESTÃO arredados os interesses abastardados do construtor civil barrigudo, Benz arrogante, charuto de impertinência, camisa riquísta de sulamericano bananeiro. Costa Brites expurga a cidade das incontinências presunçosas de arquitectos avilta­dos, alivia-a de cancros que lhe corroem as entranhas, alerta para a impunidade pornográfica que a vai, sem remissão, aleijando. E restitui-lhe uma dignidade ancestral, uma nobreza escorreita: a beleza de UMA NOTÍCIA URGENTE COMO UM GRITO — lançado do Alto de Santa Clara, varre a Baixa e faz retinir a Cabra num desespero de alerta. Não será por acaso que, nesta fase, Costa Brites não apresenta a figura humana e se detém apenas na feição das pedras. Pedras que não muram a visão do artista — mas que podem emparedar (já emparedam) o cidadão. Daí uma pin­tura de libertação:

DO HOMEM QUE VIVE A CIDADE, com o qual o artista se sente irmanado, porque quotidia­namente a sua visão tropeça com pedras que constroem a fealdade e destroem aquele direito fundamental de qualquer cidadão — o de sentir-se bem com as linhas e as cores que lhe percorrem a retina, com os pés assentes na terra e os olhos despertos no ar.

Surge, assim, uma arte comprometida, que brota da cons­ciência de que fazer arte é mostrar os escaninhos da alma e os esconsos do imo. Não com a egolatria de levianos corrupto­res do real; não com a brutal espectacularidade de descobrir o inventado; não com a tola exibição de uma cópia… única; não com o pincel onanista a desenhar o insensorial. Mas com a equilibrada noção de valores assimilados que até no dissonante se harmonizam; mas com a humildade dos que acreditam que a cidade, afinal, pode muito bem ser uma imi­tação do quadro do artista, E Costa Brites recusa a insulação e apura esse poder raro que é o de usar em reciprocidade os sentidos — amar, pois, por que não?

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A Cidade de Costa Brites escapará ao traço cartográ­fico do coimbrinha desatento e do coimbrão acomodado; ser­virá para barbudas querelas de cachimbadas opinientas de fotográfico e naturalista; será, porventura, rejeitada pelo geometrismo impositivo e pela linearidade teimosa; receberá narizes de desconfiança e esgares de dúvidas escolásticas.

MAS   SERÁ olhada e fruída na sua harmonia estável, no equilíbrio melodioso de um traço honesto, na procura incessante da cor ritmada. Na pintura de Costa Brites ler-se-á a corajosa denúncia dos atropelos à nossa civilidade. Com ela se empunhará uma arma terrível para defender o património cultural. Quem sabe se, com ela, o Homem reconquistará a cidade e a chamará de sua?

Coimbra, 1984 / Vasco Pereira da Costa

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