António Pedro Pita – Uma poética do espaço – Abril de 1988

Texto de António Pedro Pita para uma exposição de Costa Brites que teve lugar numa galeria comercial em Abril de 1988

Largo do Romal / São Bartolomeu, Costa Brites

Largo do Romal / São Bartolomeu, Costa Brites

UMA POÉTICA DO ESPAÇO

A minha relação com a pintura de Costa Brites começou há mais de quinze anos. Era, se me permitem usar a palavra, uma obra engagé; mas, pelas suas referências e pelas suas soluções estéticas, diversa das concepções clássicas do engagement. As referências eram Bertrand Russel e Bob Dylan, Ray Bradbury e Hiroshima, Nagasaky e Huxley, entre outros, e a linguagem justa encontrava-se no cruzamento do cinema, da banda desenhada e da publicidade inventiva, a que a pop-arte deu uma primeira expressão. Costa Brites começou aí. Deixem-me dizer: foi aí que Costa Brites se me tornou visível. Com perplexidade, por isso, encontrei anos depois a linha estética que Costa Brites agora expõe. Desaparecera (o sentido de) a homenagem a Huxley? A denúncia da paranóia nuclear? A marca do seu encontro com o surrealismo? Sim. Sim, mas.

Mas.

À primeira vista, o olhar de Costa Brites enraizou-se. É uma cidade (Coimbra?) que obsessivamente aparece nas suas telas e nos seus desenhos. Mais do que uma representação, um retrato. Um retrato minucioso, colocado na iminência da fotografia. Mas.Vejamos melhor.

É uma cidade deserta. Um vulto no eléctrico, um rosto que espreita a uma janela, a corda da roupa, uma inscrição toponímica, uma placa publicitária tornam ainda mais visível o deserto. É uma cidade exuberante de cor. A cor esbate-se, porém: e os trabalhos mais recentes apresentam-nos já um preto-e-branco matizado. É uma cidade captada em todo o seu detalhe. Para que, na particularidade de uma chaminé, na abertura de uma janela, na cal corroída de uma parede (entre a antiguidade e a ruína), na globalidade de um conjunto arquitectónico, se torne visível a marca impressiva do tempo: a cidade tem data, tem história, leva-nos a um passado que nos transporta, mais do que nós saberemos pensá-lo. Ao alcance do seu rigorismo, contudo, no qual poderíamos encontrar afinidades com Carlos Botelho ou Magritte, não é alheia uma profunda influência cinematográfica (se influência é o termo adequado; talvez deva dizer-se que a visão de Costa Brites se constituiu cinematograficamente). Os seus enquadramentos complexos (enquadramento: escolha da porção de realidade que aparecerá na imagem): o espaço pictórico é minuciosamente preenchido e organizado com uma autêntica reorganização do espaço real – jamais o olhar do pintor é neutro. Creio, por isso, que todos os objectos pintados não fazem mais do que acentuar a riqueza e a imensa variedade do espaço que eles próprios definem. Encontramos a interrogação decisiva da poética de Costa Brites: o espaço pinta-se?

É, finalmente, uma cidade raramente limitada ao que está feito, ao que está completo. Nos acrílicos sobre tela ou nos desenhos, para lá da cidade histórica, existe uma outra cidade, uma cidade branca, simples silhueta, reduzida aos traços mais simples, uma espécie de hipótese, onde seja possível inventar outros modos de estar e viver. Portanto, contra todas as aparências do fotografismo ingénuo, a pintura de Costa Brites insinua-se como um eco das palavras de Gaston Bachelard, na obra a que roubei o título: «O número da rua, o andar, fixam a localização do nosso ‘buraco convencional’, mas a nossa morada não tem espaço à volta nem verticalidade dentro de si». Se é assim, Costa Brites prolonga, por outros meios, o combate inicial: a reivindicação do espaço humano, a exigência da habitabilidade do mundo. A respiração e o silêncio. A música do outro lado da cor.

António Pedro Pita

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s