A respeito da necessidade urgente de um Centro de Desenvolvimento da Cultura Cerâmica em Condeixa

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O texto abaixo:

foi apresentado “workshop” Cultura Cerâmica, Tradição e Inovação realizado a 16 de Maio, na Junta de Freguesia do Zambujal, Expo Sicó 2010.

Ocorreu em Conímbriga, há pouco tempo, o seguinte episódio: um casal de turistas estrangeiros, visitantes interessados na cerâmica artística, fez uma consulta relativa à genuína louça de Coimbra, sua bem conhecida de outras circunstâncias.
Tinham estado em diversas lojas de recordações mas o que verdadeiramente desejavam era visitar um centro de conhecimento, oficina produtiva ou associação de coleccionadores, comprar de preferência no local próprio, com convicto sentimento de beber nas fontes a cultura amadurecida que adivinhavam por detrás do valor de um produto cobiçado e admirado.
Não foi possível satisfazer o pedido feito, foi grande o desapontamento e manifesto o desencanto por não se amar nesta terra de forma organizada o património que é de todos.
Dá pena a visitantes e interessados que não haja uma loja qualificada, um museu ou galeria autorizada, competentes e bem documentados que informem e valorizem um produto que merece todo o respeito e deveria ser apresentado com a devida dignidade cultural e artística.

É norma infeliz encontrar-se um tal património disperso e alienado por um sem número de tendas de “souvenirs”, como se fosse coisa corriqueira, sem o eco da tradição cuidada e longe de raízes históricas fundamentadas.
O episódio do casal visitante denuncia um vazio que poderia e deveria ser resolvido na defesa dos nossos mais legítimos interesses e na promoção das conveniências de toda a comunidade. Dispomos de uma riqueza preciosa mas mal conhecida porque escassamente estudada, carente de uma comercialização dignificante e sem o esteio cultural e organizativo que lhe dê asas para poder representar adequadamente o passado e ser suporte vitalizado de melhor futuro, entregue à anarquia produtiva e à correspondente perda de estatuto de categorização.

Será importante lembrar, no que toca aos antigos oleiros da cerâmica decorativa, que podemos estar no último momento possível para preservar o património vivo que representam. No tempo antigo os rapazes ainda novos começavam a aprender o seu ofício indo para a oficina no fim da escola primária e aprendiam tudo desde o princípio, herdando gestos e saberes que tinham séculos.
Agora, já ninguém quer tal ofício. A escolaridade é mais larga e ninguém está disponível para o sacrifício que foi imposto a tantas gerações de trabalhadores servis.

A criação de um Centro de Desenvolvimento da Cultura da Cerâmica teria portanto o maior interesse sócio-cultural e serviria para conservar e eventualmente desenvolver um sector da economia que tem dado o seu melhor na criação de riqueza ao longo dos séculos.
A importância e significado de uma instituição deste género é defensável de vários pontos de vista e transcende o imaginário local, dado que a produção da cerâmica artística reflecte uma complexidade vastíssima de fenómenos artístico-culturais com raízes distantes, correspondentes ao destino riquíssimo, tão disperso como fascinante, de toda a gesta das viagens dos portugueses pelo mundo em pedaços repartida.

Não esqueçamos contudo a multiplicidade das suas valências se for devidamente estruturado e dirigido para englobar múltiplas iniciativas de natureza artística, cultural e económica, com uma necessária abertura a novas atitudes e novos horizontes criativos.
Essa capacidade de potenciar virtualidades resulta da própria natureza da indústria cerâmica como pólo de produtividades complementares, em cujas origens ancestrais se cruzam razões ligadas à própria sobrevivência do homem e à manifestação confirmada das suas capacidades de realização estética.

Nota breve sobre a peça acima reproduzida:

A peça acima reproduzida é uma do incontável número de cópias que se fizeram até agora nas fábricas de louça decorativa de Condeixa, de Coimbra e de todo o largo mundo. Com efeito a cópia é um processo natural que tem sido utilizado por todo o lado onde artífices e artistas lançaram mão da tecnologia antiquíssima de produzir objectos cerâmicos.
Neste caso concreto reproduz o que costuma ser designado como um prato “de aranhões”, é um já raro e notável objecto salvo da hecatombe das frágeis peças de louça decorativa, produzido – em data indeterminada do Sec. XX – na importante fábrica que foi fundada em Condeixa por Armando Vaz Lameiro (pertence à colecção do Dr. José Machado Lopes).

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