Alice no país das maravilhas, o livro de tantos filmes

.

DrawAlFoi publicado dia 26 de Março de 2010 no Diário de Coimbra

The Hatter opened his eyes very wide on hearing this; but all he said was ‘Why is a raven like a writing – desk?’

Lewis Carrol, de seu nome Charles Lutwidge Dodgson, foi um clérigo anglicano de muito respeitável família, precoce, sensível, gago, canhoto, cultíssimo, tendo ingressado em 1851 na mesma faculdade onde estudara seu pai, a Christ Church da Universidade de Oxford, onde veio a leccionar matemática. Dele pode dizer-se igualmente que, além de cientista dotado de promissora carreira, também era apreciador das novas tecnologias de então. Dedicou-se à fotografia com particular afinco, produziu em estúdio próprio milhares de originais que documentou de forma exaustiva, facto que – entre outros – justifica a sua inserção no mais elevado estrato cultural e artístico da sociedade inglesa da época victoriana. A sua obra literária deu origem a uma galeria de figuras e de situações de uma originalidade sem par, servidas por uma imensa subtileza de linguagem e um enorme sentido de análise psicológica, tudo envolvido por um halo de irrealidade que em inglês costuma designar-se por “nonsense”, um “não-sentido cheio de conteúdos latentes” de elegante complexidade.
As suas duas obras mais conhecidas “Alice no país das maravilhas” e “Alice do outro lado do espelho” têm fornecido matéria a um sem número de referências analíticas e inúmeras criações artísticas, de que o cinema se tem servido abundantemente. São agora aproveitadas para fazer um filme que, com algumas afinações de enredo “made in Hollywood”, conta a história conjunta mais uma vez, aproveitando o pano de fundo de enorme notoriedade que a obra do sofisticado inglês conseguiu granjear praticamente por todo o mundo.
A novidade essencial desta milionária realização é a de nos trazer a história contada a três dimensões, facto que se arrisca a ser cada vez mais frequente em filmes de grande notoriedade e movimento, de proveniência norte americana já se vê, por ser – fatalmente – a única origem de praticamente todo o cinema visto entre nós, em salas ou mesmo na televisão.
Além do acréscimo das percepções visuais, os animais são todos assustadores e aquele “Jabberwocky” tem qualquer coisa de familiar dos monstros das guerras das estrelas, figuras medonhas que matam tudo que lhes aparece à frente e que têm um rugido que até faz abanar as cadeiras.
Sendo o imaginário de Lewis Carrol uma ferramenta de profundo interesse na interpretação metafórica de uma quantidade de estranhezas e complexidades do nosso espírito e da natureza das coisas, seria talvez proveitoso que da ida a este filme alguma coisa ficasse na mente do espectador médio para além do ruído e dos efeitos especiais que comandam o espectáculo.
Mas receio bem que para isso seja fundamental um mergulho silencioso e delicado na leitura dos seus livros, o que cada um de nós poderá fazer em qualquer altura com o apoio garantido da nossa capacidade imaginativa que entende capazmente as “falas do Inconsciente” e que também fornece, estou seguro, imagens a três dimensões.

.

.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s