A fuga de Wang-fô no Teatro da Cerca de São Bernardo, em Coimbra

foto-pupo

 

Publicado no Diário de Coimbra de hoje, 29 de Janeiro de 2010

Enquanto nós, corpulentos e laboriosos caucasianos ensaiávamos a nossa titânica descoberta científica do mundo, outros grupos de povos há muito tempo voavam alto na senda de todas as possíveis aventuras do Homem, inventando tantas coisas que não cabe aqui serem sequer resumidas.
O TCSB teve a feliz ideia de nos vir mostrar um desses outros exemplares da raça humana, de tez lunar e estatura frágil, que nos conta a história felizmente recuperada das águas tempestuosas da distância intercontinental por Marguerite Yourcenar, escritora de um dos maiores livros da minha vida: “As Memórias de Adriano”.
Joana Pupo
(e a respectiva talentosa equipa de trabalho) dá corpo ao subtil contador de histórias que trata com gestos de vaporosa imaterialidade a enorme saga de um pintor e de seu leal ajudante e dedicado companheiro, através de aventuras que eu gostava de ter vivido, por transportar também comigo esse sonho sem nome que é o de dar vida a telas pintadas com poderes milagrosos e irradiante lucidez. Com secretas pretensões também eu gostaria de ter os meus trabalhos coleccionados pelos trágicos imperadores do Reino dos Han!…
O espectáculo é de uma sumptuosa simplicidade e resolve o problema central da arte de todos os tempos: fazer o máximo com o mínimo. Desenrola-se envolvido pela cor predilecta da liberdade do corpo enquanto dorme e é no seio desse negro que Joana o povoa de uma narrativa que exige esforço de atenção, é certo, para todos aqueles que estão habituados a querer elevar-se da insignificância da vulgaridade.
Não vou contar aqui a história adaptada nas suas simples complexidades nem vou aborrecer o leitor apressado que lerá (?) algures esta minha confissão de espanto: Houve na China um pintor chamado Wang-fô que ressuscitou o seu discípulo Ling do lenço vermelho da decapitação; o tal companheiro que o ajudava a transportar por vales e caminhos duas caixas vazias de bagagem, mas que levavam dentro de si tudo aquilo que queira a tenacidade imaginária dos privilegiados espectadores carentes de sortilégios, tal como aqueles que vi aquela noite na sala do TCSB.

Acabo com duas auspiciosas anotações:

Primeiro, a de que a verdadeira história de “Comment Wang fô fut sauvé” tal como a versão simplificada (?) de Marguerite Yourcenar, estão ao alcance de todos na internet, e bem assim uma infinidade de preciosos acompanhamentos pedagógico-literários da obra em questão.
A história original é – em extensão e complexidades de enredo – diferentíssima da excelente versão de Marguerite.
Segundo, foi um prazer sentar-me para ver este espectáculo numa sala povoada por pessoas de todas as idades, a maiora das quais podiam ser meus filhos ou netos.

ficha técnica

ideia e interpretação Joana Pupo colaboração criativa Tiago Hespanha apoio contador de histórias Cristina Cartaxo apoio interpretação e figurino Inês de Carvalho apoio movimento Ana Borges apoio técnico Mafalda Soares de Oliveira design gráfico Joana Pinho Neves fotografia Iuri Albarran operação de luz e som Rui Capitão assistente produção Carla Carreira produção Vagão, Assoc. Para Viagens Culturais e Artísticas

 

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