Manuel Cargaleiro no Museu do Vinho Bairrada, na Anadia

Cabral Moncada

Manuel Cargaleiro, painel de azulejos, 1992; visto site Cabral Moncada Leilões, pesquisa internet.

 

Publicado em 20 de Janeiro de 2010, no Diário de Coimbra

Naquele Sábado apresentei o meu neto a Manuel Cargaleiro. A cena toda começou comigo a chegar atrasado e a ter de me armar em fulano da imprensa para furar sem cerimónias por uma sala já à cunha para assistir a uma sessão impregnada pelo orgulho legítimo de uma comunidade trasbordantemente presente. O dever de ofício constrange-me a dizer coisas insignificantes como ter falado com fulano, ter ouvido falar sicrana, ter sido abraçado com emoção à frente de toda a gente por António Pedro Pita e ter tido pena de comer tão pouco leitão e apenas provado o vinho.
Importante foi ter apresentado o meu neto a Manuel Cargaleiro sem ter tido a coragem imaginária de lhe dizer a verdade magnífica: olha, este senhor é que me ensinou a pintar antes de passares tu a ser meu professor em artes. O meu neto Flávio, além de ser a minha mensagem genética ao futuro do Universo, descobriu e ensinou à Vóvó, que é uma ingénua celestial em mecanismos técnicos, como é que funciona aquele saca-rolhas do Museu que ele conhece de ginjeira de casa do avô Vítor.
Quando me apanhei frente daquele que não é Cristo mas a quem todos chamavam Mestre, fui dizer-lhe assim: conheço Manuel Cargaleiro muitíssimo bem há mais de quarenta anos e vinha apresentar-lhe três gerações de olhares convergentes nas sumptuosas simplicidades produzidas pelas suas mãos que me fazem lembrar as do meu avô mas de facto era impossível porque mal tem idade para poder ter sido meu pai.
Agora que me desculpe a primorosa e, como é tradicional, opípara, realização do acontecimento e um dos respectivos catálogos, o que diz respeito a MC: Obra Gravada é uma expressão que pode estar (e estará) correcta, mas acorda no apreciador ansioso uma gama tão vasta de expectativas e horizontes que me obriga a falar da distância formidável a que se encontra a vibração matérica dos originais propriamente ditos. Uma tela é uma tela; as gotas de tinta têm a espessura de rastos de sangue fossilizado por um dramatismo sem tempo; a passagem de um pincel arrastado com suavidade por sobre outra camada de tinta deixa um tracejado de vestígios que só a alma vê, se tiver vícios de uma sensualidade que cavalga a utopia. Para dizer bem isto só, por exemplo, Agustina Bessa-Luís, e eu era lá capaz de escrever um artigo para o Diário que chegasse aos calcanhares da grande Senhora.
Já lá voltei à Anadia, sem o Flávio, a mana e o pai, para ver tudo mais uma vez. O Flávio agora tem mais que fazer do que mergulhar na “pintura vitoriosa” de uma varanda que “é a coisa mais importante que há numa casa” e nos “jardins suspensos” como os de Sintra que têm muitos nomes “e descem dos muros como um lenço de lágrimas”.
Já lá voltei, como ia dizendo, para ver de facto o que há para ver e o máximo dos máximos é um filme que é mostrado numa salinha estreita com tamboretes forrados de negro que não deixam adormecer ninguém. Fala Mestre Manuel Cargaleiro, vêem-se montes de coisas de agora e do meu tempo e convive-se com o sorriso impassível do artista.
As obras que estão patentes servem para que pessoas como eu consigam alcançar para além das cristalinas ilusões de quem ama sobreviver no corpo e pelo espírito e persiste na teimosia de reviver todas as sensações deste e de outros mundos.

Cargaleiro-Museum

Manuel Cargaleiro; óleo s/ tela 1979; Museu Cargaleiro / Castelo Branco (pesquisa internet)

.Tudo isto na Anadia num centro cultural que tomara Coimbra e só tenho de dizer um dia destes ao Senhor Litério Augusto Marques que a sinalização está tão bem feita que até eu que sou um tipo desenrascado a chegar a sítios me vejo, sempre que lá tenho ido, em palpos de aranha para chegar ao Museu do Vinho Bairrada.

Métro station Champs-Elysées-Clémenceau (3)

Manuel Cargaleiro, painel de azulejos,  Paris; Métro station Champs-Elysées-Clémenceau, pesquisa internet blog Paris-bise-art

Escrevi uma primeira versão do comentário a este acontecimento, que guardei sem publicar, e que me atrevo a mostrar a seguir, por diversas razões que vão sublinhadas a bold:
Foi a exposição de Manuel Cargaleiro em 1973 na Galeria São Mamede em Lisboa que me repassou de indeléveis emoções, como ainda hoje acontece sempre que me encontro com obras suas, e bem recentemente assinalo a exposição que esteve presente no Museu Municipal de Coimbra, a qual não tive o ensejo de referir apreciativamente neste mesmo Diário de Coimbra. Temos todos agora a oportunidade imperdível de visitar uma mostra de múltiplos de sua autoria, de diversas épocas, no Museu do Vinho Bairrada, na Anadia.
Entre outras prendas dessa iniciativa tenho a salientar a projecção de um filme a respeito do Mestre que corre repetidamente durante 50 minutos – à discrição de qualquer visitante, e que recomendo de uma forma inequívoca. Pegando nas próprias palavras de MC ao longo desse documentário refiro a sua admiração pela obra de Henri Matisse. Aligeirando um pouco a pressão anímica que me estorva de dizer porventura aquilo que deveria, formulo apenas uma pergunta que muitíssimo ou nada pode ter a ver com tudo isto: Será Manuel Cargaleiro o Henri Matisse português, ou será Henri Matisse o Manuel Cargaleiro francês?
Qualquer resposta a esta pergunta será tão tonta como a pergunta em si mesma, servindo-me eu dela, aqui e agora, para me libertar do peso opressivo de ter de dizer tudo aquilo que deveria caber no meu discurso e não cabe.
MC tem sido caracterizado por uma certa crítica atabalhoada como um decorativista assumidamente feliz com o mundo, detentor de pleno sucesso, privilégio insuportável para certas almas tão abundantes como presumidas. Uma outra versão não menos precipitadamente redutora costuma referenciá-lo como sucedâneo venturoso vagamente protegido de Maria Helena Vieira da Silva.  Não tenho tempo a perder com idiotices mas estou disponível, agora ou em outro local a combinar, para desmontar de maneira incansável e apaixonada o desastroso disparate destas presunções sem tom nem som.
Tive, há cerca de 30 ou 40 anos atrás, a oportunidade de ver um filme documental em que o próprio artista tinha a suma coragem e a generosidade raríssima de dar a conhecer de forma franca o seu modo de estar frente à paleta do óleo ou perante a estante do inventor de obras cerâmicas. Executou, nem mais nem menos, à frente de todo o mundo, a forma como congeminava e levava a termo o mesmíssimo tipo de obras que já então eram entendidos e admirados por todos os seus inúmeros seguidores. Retirar desse modo ao gesto criativo o segredo da intimidade não o enfraquece nem o diminui. Permite sim que se escreva na parede luminosa da sensibilidade, em letras bem visiveis ao longe, uma mensagem de convívio directo com o espírito das artes e com a alegria do gesto consequente.

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