Dom Quixote (de Coimbra) pelo Teatrão, na Oficina Municipal do Teatro

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Publicado no Diário de Coimbra de 31 de Dezembro de 2009

Quando vi o anúncio do espectáculo do Teatrão, senti um ligeiro arrepio devido à indicação de que se trataria de um “Dom Quixote”, sim, mas “de Coimbra”.
A seriedade do trabalho que a companhia costuma apresentar dava-me as melhores garantias, mas não pude evitar aquele sentimento de temor perante uma aventurosa efabulação romântico-evocativa das virtudes mais usualmente celebradas da eterna Lusa Atenas.
A verdade dos factos veio tranquilizar-me dado que até a sóbria referência à paisagem que nos cerca é traduzida por um gesto poético da mais categórica eficácia teatral.
Um Dom Quixote pujante e juvenil (e que melhor metáfora poderia desejar-se para o que Coimbra gosta de ser) puxa do cantil de Sancho Pança e desenha no mapa imaginário que cada espectador transporta no seu olhar benevolente, por entre as árvores plantadas no instante, um rio Mondego, líquida sinuosidade em cujos recônditos ecoam os odores e sonoridades que nos têm embalado durante séculos. A plateia, plena de juventude, entende e vibra com essa forma subtil de dizer as coisas, tais como podem ser ditas mediante os melhores mecanismos da inteligência do Teatro.
É curto aqui o espaço para referir todas as implicações do trabalho construtivo desta iniciativa teatral, feita para ser, mais do que uma “simples” peça de teatro, um autêntico e variado projecto de intervenção e criatividade cultural. Comece-se por dizer que a peça em apreço é tudo menos simples e encaixa num universo cenográfico repleto de artimanhas e artefactos aparentemente “improváveis” para as fadigas e paixões “del ingenioso hidalgo de La Mancha”.
Com a parafernália envolvente de um decadente pátio das traseiras da sociedade consumista (ao qual não falta um avelhentado ecran por onde desfilam alusões ao entrecho e seus heroísmos) organiza-se no cenário um surpreendente “espelho do mundo”.
Há ali de tudo porém, para surpresa do espectador, para que ganhe credibilidade a narrativa fabulosa do Cavaleiro da Triste Figura e de alguns dos seus celebrados e dramáticos contendores, desde o Cavaleiro da Branca Lua aos maximamente simbólicos moinhos de vento de todas as visões às quais faz falta a consistência das duras realidades da vida.
O burro de Sancho vai aparecendo aqui e acolá, pitorescamente travestido pelos mais ingénuos e decadentes disfarces, marcando presença de que se não duvida porque impera no olhar de quem vê a receptividade franca que só o Teatro concede.
O final da peça é outra das surpresas que faz com que a história de Alonso Quijano e seu prosaico escudeiro possa entrar, aqui e agora, num imaginário a que queiramos chamar nosso.
As “dramatis personae” ascendem para o alto, lá onde no céu se alumia um cosmos de fantasiosas estrelas e cavalgam inesgotáveis instantes da fugacidade que lhes dá vida, pela via láctea da esperança; a tal reserva de energias que dá à juventude a tenacidade de continuar a ser o que é, continuando o Teatro a fermentar nas almas a lúcida compreensão da complexidade da vida.

Com peças como esta, com encenação e actores como estes, não podem queixar-se todos aqueles que se manifestam enfadados pela invasão do tédio e da trivialidade. Uma vez por semana, pelo menos, saiam da frente dos seus televisores e, TODOS AO TEATRO, que é atitude sempre nova e de urgente utilidade!…

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Ficha técnica e artística:
Dramaturgia: Jorge Louraço Figueira /
Encenação: Isabel Craveiro /

Elenco:

  • Inês Mourão,
  • João Castro Gomes,
  • Luís Campos Eiras e
  • Margarida Sousa / 

Música Original: Afonso Rodrigues e Filipe da Costa /
Apoio ao Movimento: Leonor Barata /
Desenho de Luz: Jonathan de Azevedo /
Dispositico Cénico e Figurinos: Helena Guerreiro /
Adereços, Construção e Montagem do Cenário: José Baltazar /
Vídeo: Alexandre Mestre / Sonoplastia: Rui Capitão /
Fotografia: Paulo Abrantes /
Grafismo: Sofia Frazão /
Costureira: Fernanda Tomás /
Produção Executiva: Isabel Craveiro, Inês Mourão, Leonor Barata e Margarida Sousa /
Equipa técnica: Alexandre Mestre, João Castro Gomes, Jonathan de Azevedo e Rui Capitão Contactos com as escolas: Nuno Carvalho /

Produção: O TEATRÃO 2009.

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