Vinho do agricultor, festas de família, canções da América e as histórias do tio Guilherme!…

Tudo isso se passava com grande animação nos dias de festa e convívio familiar na velha Quinta da Salgada, no Molhapão e no Vale Ferraz, nas quais estavam presentes todos os parentes mais chegados que, na generalidade, tinham passado pela América.
O convívio entre todos era muito franco e alegre. As pessoas eram muito simples e entreajudavam-se o máximo que lhes era possível.
As refeições de festa tinham momentos de grande entusiasmo. O Tio Guilherme era um grande contador de histórias e uma refeição de convívio com ele podia contar de forma automática com uma sessão de anedotas e pequenas histórias, umas vividas entre amigos ou irmãos (sendo Sebastião, meu avô, um dos mais habituais protagonistas), outras inventadas.
Narravam, entre outras peripécias, ocorrências das viagens e da estadia na América. Aquele episódio da longa viagem em que os balanços do mar produziam o enjoo proverbial faz-me lembrar as cenas do imigrante embarcado do filme de Charlie Chaplin: pessoas modestas e habituadas a privações não podiam pensar em escapar a uma boa refeição no navio, é claro. E se havia quem vomitasse punham uma mão a ocultar o que estava de lado e vai disto, deglutiam à pressa tudo o que restava no prato para que o estômago, se sofresse de algo, não seria por falta de conforto do repasto completo.

25 p
O meu tio Guilherme: fotografia feita em Providence no SMales Studio, 489 Westminster St.

Uma história destas contada pelo meu tio Guilherme, por mais insignificante que pareça, não ficava nada atrás das cenas do conhecido Charlot, de que o meu avô narrava recordações do seu tempo de Providence e de uma visita que o famosíssimo artista fez a essa cidade, no tempo em que ali permaneceu.
O talento e o entusiasmo que o meu tio punha nessas actuações, para as quais não era preciso convidá-lo, provocava um delírio de gargalhadas que fazia dores de barriga e soltava as lágrimas de todos os ouvintes.
O curioso de tais sessões de euforia familiar é que as histórias eram sempre as mesmas, os episódios vividos eram geralmente coisas simples passadas entre ele e os irmãos, cenas francamente ingénuas e contadas a meias pelos intervenientes mas de efeito hilariante.
O tio Guilherme, o único dos parentes que na América se deu ao trabalho de ir frequentar a escola nocturna para adultos, era um jovem muito aprumado e eram narrados com imensa graça pelo meu avô as minudências que punha no trato da sua aparência. Andando sempre com as calças o mais vincadas possível (o que a foto acima documenta) tinha por hábito, antes de se deitar, colocar as mesmas entre o colchão e o chamado “judeu” para que, de manhã, as calças estivessem sempre bem vincadas.

Havia no entanto um momento final nos jantares de festa, quando o meu avô e seus irmãos de passado vivido nos Estados Unidos estavam já um pouco tomados pelo magnífico vinho que eles próprios cultivavam, que era o das canções cantadas por todos em inglês, sendo obrigatório, além do próprio hino americano e uma ou outra canção de que já não me lembro, o momento mais fantástico com aquela que era conhecida lá em casa como “It’s a long way”!…

It’s a long way to Tipperary,
It’s a long way to go.
It’s a long way to Tipperary
To the sweetest girl I know!

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