Uma forma velha de falar uma língua nova (ou vice-versa…)

Um apetrecho imaterial, mas formidável, trazido da América por meu avô e por todos os seus contemporâneos, foi uma forma específica de falar nutrida por palavras de inglês americano “tratadas” com a pronúncia que lhes era própria, ou seja, um léxico de palavras enigmáticas que só eles entendiam!…
No que me toca, fui criado por diversas pessoas que haviam apropriado todo esse contingente de vocábulos, o que os transformou em aquisições automáticas da minha forma de estar e que ainda subsistem, em certos momentos da vida de minha família, embora à enorme distância da sua origem própria.
Durante vários anos da minha infância usei enquanto brincava umas calças de ganga com peitilho e alças, feitas à imagem e semelhança das calças largas de operário do meu avô, que eram vestidas por cima da outra roupa para evitar a sujidade. Chamavam-se na América, julgo eu, umas calças “over all” e passaram a ser para mim uns “alvarózes”, termo que se usava em minha casa com a naturalidade de qualquer outra palavra em português.
Como o meu pai era de Leiria e ali vivi sempre que não estava em casa dos meus avós em Cernache do Bonjardim, houve pessoas amigas que ficaram muito intrigadas com o que seriam uns “alvarózes” e eu muito surpreendido de que elas o desconhecessem, por ser coisa tão útil e familiar.
Tendo vivido nos Açores nos últimos anos da década de sessenta fui ali reencontrar, nas gentes do povo (e não só), uma certa quantidade de palavras esquisitas importadas da América, que minha recente esposa não entendia e que eu não tinha nenhuma dificuldade em traduzir porque me eram completamente familiares.
O próprio nome porque eram tratados os meus avós por toda a gente viria a sofrer uma inflexão particular derivada da sua vivência norte americana. Papá e Mamã eram designativos completamente fora dos hábitos lusitanos, pelo menos na área de onde provinham. Como foi essa a fórmula usada pelas suas meninas desde que nasceram até virem para Portugal, Sebastião ficou a ser conhecido por Papá e a minha Avó era, naturalmente, a Mamã.
O hábito permaneceu e essa forma de trato estendeu-se a vizinhos, amigos e familiares, durante toda a sua vida.
Desde que os meus filhos nasceram também fui promovido a “Papá” e Maria da Conceição a “Mamã”. Mas esse vocativo nada tem a ver com usos ou modas de fresca data. O nosso é antigo, e veio de longe num vapor com muitos passageiros!…

.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s