Os livros da América

Meu avô trouxe da América alguns livros que rechearam de emoção certos serões de família, que ele começou a apreciar lá e que depois foram sendo lidos como episódios de uma telenovela, em tiradas de leitura em que minha mãe ou uma das minhas tias se revezavam na tarefa de narradoras.
Além de outras obras que se perderam, das quais recordo algumas de Camilo Castelo Branco e a incontornável “Rosa do Adro”, tenho ainda em meu poder as seguintes edições, especialmente valiosas do ponto de vista das minhas evocações afectivas:

  • Colliers´s New Photographic History of the World’s War/Including Sketches, Drawings and Paintings Made by Artist at the Front, de 1918; P. F. Collier & Son Publishers/New York/NY;
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  • Novo Testamento de Nosso Senhor Jesus Christo pelo Padre João Ferreira d’Almeida/Edição revista e corrigida/New Yourk Bible Society, instituted in the year MDCCCXVI/1913 (com uma dedicatória); (Nota – a pessoa que ofertou a obra não era certamente muito versada em português; a palavra “ruinada”  quererá dizer “situada”)
27 p
  • A Bíblia Sagrada, contendo o Velho e o Novo Testamento: traduzida em Potuguez pelo Padre João Ferreira d’Almeida/Edição revista e corrigida/New Yourk Bible Society, instituted in the year MDCCCXVI/1913 (com uma dedicatória);
28 p
  • Ignez de Castro/Romance histórico por Faustino da Fonseca/2ª Edição revista e corrigida pelo autor/Volumes I e II/Bibliotheca Popular/Chronicas Nacionaes/Antiga Casa Bertrand – José Bastos/73 Rua Garret, 75/Lisboa (Estas obras estão assinaladas com um carimbo: Vende-se na Livraria Colonial de Luiz Freitas & Laranjo, 101 Rivet St., New Bedford, Mass);
29 p
  • As Duas Mães, de Emile Richebourg/ Vol I, II e III/versão portugueza de Julio de Magalhães/Segunda Edição/Casa Editora Belém & Cª – Succ. / 16- Rua do Marechal Saldanha – 16/ Lisboa;

30 p

  • Desk Atlas of the World/Rand McNally & Co. Chicago, Los Angeles , New York;
31 p
  • Lunário Perpétuo;
32 p
  • Souvenir Book of Providence, RI (colecção de postais);
33 p
  • New York City souvenir folder / views in color (Já atrás documentado):

34 np

A primeira obra citada desta série, o álbum de fotografias “Colliers´s New Photographic History of the World’s War” é uma obra de grande formato que o meu avô guardava ciosamente e que só começou a mostrar de forma mais liberal a mim, por ter sido o primeiro dos seus netos. Antes disso dificilmente saía da gaveta da sua secretária, e não permitia que outras pessoas o folheassem. Tenho a gratíssima recordação de o ter contemplado, repetidas vezes e com as explicações que me regalavam, sentado no seu colo. É uma colectânea notabilíssima de fotos relativas à primeira guerra mundial, cobiçado por coleccionadores de livros com reproduções fotográficas.

Esta referência a livros, à música e certos hábitos de vida que eram facto adquirido na nossa família, não derivaram de nenhuma forma de educação orientada para a cultura no sentido estrito. Os meus avós eram pessoas muito simples e de origem muito modesta, mas minha avó fora cozinheira principal numa casa de Cernache de Bonjardim construída por um português emigrante riquíssimo no Brasil que tinha caleche e preceptoras estrangeiras para ensinarem os filhos.

O próprio ambiente da localidade era interessante pois contava com um grande seminário de missões, um conceituado colégio de ensino secundário, coisa rara na remota província daquele Portugal de então e, “last, but not the least”, um Clube para os proprietários mais abastados e outros remediados da terra onde cedo se viu cinema, se jogava ténis, se bebia chá, ainda activo em vários aspectos nos dias de hoje e que tem o ano de 1885 como data de fundação!…

Nesse Clube (que se conhecia universalmente por essa mesma designação, “o Clube”) jogava-se pesadamente a dinheiro às escondidas – para desgraça de fortunas muito gradas outrora amealhadas na diáspora pelas gerações antecedentes…
O facto, de toda a gente conhecido, pode agora ser referido sem graves ofensas, dado que o tempo já terá sarado as feridas mais profundas do ócio alienante daqueles que herdaram sem cuidar de si, de suas famílias e – pior ainda – nas consequências sobre a colectividade – com perda irremediável de potencial económico e dinamismo socio-cultural.

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