Origens e partida para a América

Quando o meu avô Sebastião de Matos Gomes nasceu, no ano de 1885, era uma criança extremamente débil e nos tempos desamparados em que viveu a sua primeira meninice, no seio de uma família muito pobre de pequeníssimos agricultores da baixa Beira Baixa, era duvidoso que viesse sequer a sobreviver. Contou-me muitas vezes que sua mãe o levava deitado numa cesta e que o colocava à sombra de uma árvore durante os duros trabalhos do campo, onde mal se mexia dada a sua falta de energias.
Tendo conseguido sobreviver a esse difícil período atingiu a idade adulta como homem de baixa estatura mas de carácter decidido e presença enérgica.
Um dos receios que mais o afligia era essa sua baixa estatura e a impressão que havia gerado todo o decurso da sua infância de que jamais viria a tornar-se um homem como tantos outros.
Teve que reunir forças, entretanto, para enfrentar os duros trabalhos do campo e fazia até parte dos grupos de trabalhadores de jorna forçada que iam para as extenuantes ceifas no Alentejo, nas migrações anuais que os denominados “ratinhos” da Beira faziam para as terras alentejanas, e cujo enorme sacrifício tanto lhe ouvi narrar em memórias sofridas de tempos idos.
A ceifa obrigava a um esforço terrível de corpos vergados sobre a terra debaixo do calor e da secura alentejanos. A única forma de poder descansar alguns momentos de vez a tempo daquela posição forçada era o intervalo consentido para fumar um cigarro, dizia-me. E assim devido a essa única razão se foi habituando ao cigarro, vício que viria a abandonar quando passou a sofrer de alguma bronquite.

Foi nesses plainos do Alentejo que aprendeu a ler. Os trabalhadores da ceifa depois do sol se pôr e à luz duma lanterna organizavam-se sob a orientação de um voluntário que conhecesse as letras e trocavam conhecimentos e instrução elementar entre si. Um dos camaradas (assim se chamavam os ceifeiros maduros) que exerceu essas funções de rústico mestre escola foi um tio meu, chamado Joaquim Pires, irmão de minha avó Maria da Silva (“Mariana”), e que mais tarde também emigrou para os Estados Unidos da América, para Providence, onde foi operário da indústria de fiação e onde ficou até ao fim dos seus dias.

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Chegado o momento de “ir às sortes”, ou seja, de “tirar o número” que definia o destino militar dos jovens mancebos de então, Sebastião teve a enorme alegria e até o orgulho de ter sido apurado para o serviço da tropa. Foi a consagração de que era de facto um homem válido como os outros, sendo o seu regresso a casa com a fita vermelha na lapela do casaco que ostentavam os “apurados” um momento de rara felicidade. Numa família de homens altos foi ele, aliás, o único apurado para o serviço militar. “Ainda servi o Rei D. Carlos”, usava dizer, tendo tido a especialidade de tratador de cavalos o que era outro dos seus motivos de vaidade. Pela diferença de apenas uma incorporação livrou-se de ser mobilizado para as campanhas de África onde os seus camaradas de armas se bateram na guerra contra o Gungunhana, em Moçambique.
Quando regressou da América alimentou o grande gosto de possuir sempre um cavalo que o recordava dos encantos de cavalgadas pelos campos de Tomar, no treino da montada do comandante do quartel general dessa cidade, tarefa honrosa que lhe coubera a si.
Costumava portanto ter sempre um cavalo para a sua locomoção e eu próprio ainda andei não poucas vezes nos que possuía na Quinta da Salgada, em Cernache do Bonjardim.
Tal como certo cão favorito que fez época e se chamou “Rocky Point”, também os cavalos que foi possuindo ostentavam sempre o mesmo nome importado: o “Pony”, em preito de memória aos seus tempos de Providence, nome pronunciado – já se vê – com a entoação especiosa das palavras vindas de além Atlântico.
Acabado o seu serviço militar rumou para os lados de Lisboa acompanhado de seu irmão Guilherme em busca de melhor vida e de outras condições de trabalho.
Nas vésperas da proclamação da República em Portugal eram ambos operários no maior conglomerado industrial do nosso país, a Companhia União Fabril ou CUF do Barreiro, como era conhecida.
No dia 5 de Outubro de 1910 sei que se deslocaram até Lisboa, na data que era também do aniversário de Sebastião, para darem fé do que se passava.
Na sequência da queda da monarquia os empresários fizeram como costumam fazer noutras ocasiões similares: despediram grande quantidade de trabalhadores. Sebastião não foi despedido mas sim Guilherme e os laços de família que eram fortíssimos levou-o a despedir-se, ele próprio, por solidariedade.
Seguindo o caminho de conterrâneos seus da baixa Beira Baixa (área de Vila de Rei) demandou terras da América do Norte, levando até lá, mais tarde, alguns outros irmãos, vizinhos e parentes.
Quem lhe prestou ajuda na sua ida para a América deve ter sido Manuel Mendes Diogo, da Relva/Vila de Rei, ali residente, que foi tio de um outro luso-americano posteriormente nascido em Providence (é da geração das filhas do meu avô) e ali mais tarde bastante activo como industrial de salsicharia, Diamantino Mendes Henriques. Este casou com Leopoldina Pires Henriques, prima direita de minha mãe, por ser filha de Joaquim Pires, irmão de minha avó Leopoldina, e da segunda esposa de Sebastião, Maria da Silva, minha avó por eleição do mais profundo afecto.
Joaquim Pires terá sido uma das pessoas que meu avô ajudou a ir para os Estados Unidos, ali tendo residido até ao fim dos seus dias, e já foi referido no episódio das lições de leitura na campina alentejana, noites adentro.
Já tive o prazer, como já disse antes, de receber a visita dessa minha prima Leopoldina aqui em Coimbra, que vive ainda em Rhode Island e adoptou o nome de Pauline.
A maior parte destas pessoas e seus familiares encontram-se sumariamente referidos numa obra acerca de “Vila de Rei e a sua Gente”, de autoria do Padre José Maria Félix, agrupados em duas linhas familiares, os Matos Gomes do Vale da Urra e os Silvas da Relva, ambas as localidades situadas no concelho de Vila de Rei.

 

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Estamos no Picoto da Milriça, virados para Nordeste, local onde existe o “Museu da Geodesia” e um marco geodésico que assinala o centro considerado exacto de Portugal. Por detrás do cabeço que vemos ali à frente, um pouco à direita, situa-se a Relva, onde nasceu meu avô.

07 pEste é o conhecido marco geodésico acima referido, à direita o museu, e em frente, lá muito longe, do outro lado do mar que não se vê daqui, o país onde se encontra Providence.

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