O “Swing”

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Mais um objecto vindo da América na bagagem familiar foi o “Swing”, substantivo comum aqui grafado com maiúscula por não ser apenas um objecto simples ou insignificante, mas entidade vital candidata à categoria de mito doméstico.
A fotografia que aqui se vê foi tirada no dia 28 de Junho de 1956, no quintal da nossa casa em Leiria, a pessoa que se senta no famoso “Swing” é minha avó Maria (“Mariana”), os estofos são de pano tosco e seu aspecto de “cadeira de jardim” nada é daquilo que fora quando regressou da América.
O “Swing” era, contudo, perfeitamente útil e cómodo para quem nele se sentasse e ainda o foi por muitos anos – depois de algum restauro ¬– na primeira residência que tive em Coimbra, nos anos setenta, quando faleceram os meus avós.

Depois de ter chegado de Providence o “Swing” fez uma larguíssima época num compartimento térreo e espaçoso da grande casa de Cernache do Bonjardim que se chamava “a loja”. Era enorme e pavimentada por lages de pedra escura que, com o seu enorme “pé-direito”, garantia uma temperatura fresca nos calmosos dias no Verão da Beira Baixa.
Cernache do Bonjardim está situada num planalto verdejante, é ladeada à distância pelo forte Rio Zêzere e é cercada a toda a volta por cadeias majestosas de serranias de vários tons de azul, consoante a distância. Das janelas da casa vê-se no horizonte o Picoto da Milriça, centro geodésico de Portugal, a um tiro de espingarda da terra onde nasceu o meu avô Sebastião: a Relva.

O ar é perfumado pelas plantas aromáticas de odor intenso acalentadas pela interioridade escondida das serranias muito recortadas por vales profundos.

Na “loja” da Quinta da Salgada entrava a luz filtrada pela enorme parreira que meu avô fizera trepar por uma alta estrutura de ferro em alameda, o aroma das frondosas laranjeiras logo em frente e dos viçosos tufos de alecrim e erva-cidreira.

A sala tinha do lado esquerdo alinhadas junto à parede as enormes tulhas onde eram guardados os cereais e do mesmo lado junto à porta a mesa comprida onde meu avô recebia gente no exercício do seu cargo de Regedor da freguesia. Dali saía a escada que conduzia ao andar de cima, à residência da família, e por ali se passava a outras dependências do rés-do-chão: a divisão onde estavam as salgadeiras com as carnes em conserva de sal e a casa do forno onde se fazia o pão.
À esquerda era a porta que dava para o “varandal”, onde se situava o lagar, arrecadações, etc. Lá ao fundo à direita era a adega e à esquerda outras dependências para o gado

O “Swing” estava à direita, antes da casa do forno, enfrentando a serenidade de toda a sala numa semi-obscuridade que convidava ao repouso, às confidências e a alguns namoros. Era muito simplesmente uma daquelas cadeiras largas de baloiço de jardim, em ferro, com costas de barras de madeira, que pendiam de correntes.
Deu para o descanso e para a brincadeira de pelo menos quatro gerações, deu para sobressaltos quando se balouçava com força demais, deu para sestas e sonhos, deu para rir e para chorar.
Chorar com certeza, senão muitas outras penas de dor e ausência, as enormes saudades que Sebastião tinha da sua vida em Providence, Rhode Island. Nome que pronunciava com a grave e acentuada pronuncia dos States e que eu na altura nem sonhava tivesse a tradução que tem: Ilha de Rodes!…
Quando um dia me apercebi desse facto e sem desprimor para Rodes e suas tradições monumentais, invadiu-me até um certo desapontamento, tão estranha e sugestiva era a ressonância das palavras: Providence, Rhode Island…

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