As viagens

No tempo da juventude dos meus avós não havia comodidades em nenhum aspecto da vida. As “camionetas da carreira” e os próprios automóveis não existiam, nem em sonhos.
Depois das terríveis invasões dos soldados franceses (que cometeram inúmeras atrocidades nas terras onde viveram meus tetravós) e das guerras civis entre absolutistas e liberais que se sucederam deixando o país na mais profunda miséria, a segunda metade do século XIX ofereceu apesar de tudo um notável desejo de recuperação.
A poucas léguas da Relva, no Rossio ao Sul do Tejo (conhecido também pelo Rossio de Abrantes) inaugurou-se, exactamente no ano em que nasceu Sebastião de Matos Gomes, uma estação de caminhos de ferro.
Havia além disso o transporte fundamental, a pé, e a saca às costas com o pequeno dispositivo de modestíssimos recursos. Para viagens de matérias mais pesadas serviam os “carreiros” com as suas parelhas de bois e os seus carros de mulas e cavalos. Para coisas mais miúdas, os burros. No tempo do meu avô, lá fundo no horizonte próximo permanecia em uso essa enorme via de transportes que era o rio Tejo e os seus barqueiros.

Foi essencialmente a pé que Sebastião se deslocou nas idas e vindas para trabalho no Norte Alentejano, nas maltas de “ratinhos” (trabalhadores migrantes da Beira Baixa que ceifavam no Alentejo) organizadas ali mesmo na Relva e noutras localidades vizinhas por “manajeiros” encartados. A pé foi com toda a certeza para a tropa, porque Tomar era “ali perto”. Nas idas e vindas para embarcar para a América, a pé e de comboio inicialmente. Mais tarde, no regresso com toda a família, o seu estatuto de emigrante bem situado permitiu-lhe alugar um automóvel, que venceu como pôde a precária ligação por estrada até Cernache do Bonjardim, pela qual só anos mais tarde – para lá dos meados de trinta – viriam a circular as camionetas de carreira.
As abundantes bagagens de porão que trazia ficaram na alfândega de Lisboa, e terão vindo de comboio até Tomar, por ficar mais à mão que o Rossio de Abrantes, transportadas por “carreiros” depois, até Cernache.

Das histórias e anedotas que o meu tio Guilherme contava com imensa graça faziam parte os episódios de carreiros e barqueiros do Tejo, e episódios singelos das noites passadas em pensões modestas, nas idas e vindas que a vida deu. Entre elas a do barqueiro de Santarém, explorador e avaro, ludibriado por um conterrâneo ali das “terras detrás do Sol posto”, que acabava na maior cascata de gargalhadas, em que o esperto beirão, depois de ter comido as papas na cabeça ao maldoso barqueiro lhe perguntava já da margem, no fim da viagem:
– Queres mais “silada”, santareno?
“Silada”, aqui, não era sinónimo de armadilha como o jogo de palavras pode graciosamente sugerir. Era sim a “salada” que o modesto beirão tinha papado sem pagar, furtando-se ao poder que o barqueiro foi tendo sobre ele, enquanto embarcado.

A passagem de Sebastião pelo serviço militar mostrou-lhe Lisboa e o emprego que teve depois na Companhia União Fabril do Barreiro e as travessias do Tejo devem ter-lhe tornado familiar o perfil majestoso das imensas máquinas a vapor que levavam passageiros para longes terras. A viagem para os Estados Unidos no bojo duma dessas enormidades não pode ter deixado de ser fantástica e a chegada à América, ainda que apoiado por patrícios seus, nada menos que estonteante.

Em certa altura, já nos Estados Unidos, adquiriu meu avô uma colecção de postais de Nova York com vistas da enormíssima cidade, que me explicava sentando-me no seu colo, com um ligeiro tremor nas mãos e com grande entusiasmo e admiração na voz.

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08 pNew York City Souvenir Folder/Views in color

09 pEstas são a capa e a contracapa do “souvenir folder”

 

10 pNew York Harbour from the Battery showing Statue of Liberty and Ellis Island

Aqui o aspecto do grande porto de entrada nos Estados Unidos, bem diferente do Tejo, mas também cenário de grandes viagens e de “muitas e desvairadas gentes”

11 p Elevated R.R. Curve at 110th Steet, New York

Este é um dos tais comboios que trovejavam por cima das cabeças estonteadas dos recém-chegados

12-p1A Queensboro Bridge over Blackwell’s Island, East River, New York

Seria esta uma das tais pontes que na América, dizia-me, se construíam com grandes proezas de técnica e em menos de um fósforo?

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