MÁRIO SILVA, obra total em revisão no CAE da Figueira da Foz

 

MS-01Este texto foi publicado na Revista de Informação do SBC de Março/Abril de 2009

No CAE-Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz esteve patente a exposição que comemorou a totalidade da carreira artística do conhecidíssimo pintor Mário Silva.
Os mais de oitenta trabalhos expostos pretenderam documentar com eloquência a quanto monta o valor e a importância do seu percurso criativo.
O que mais me impressiona é pensar que, para além do esplêndido conjunto que ali esteve patente, seria possível organizar com outras obras suas, mais uma boa mão cheia de outras exposições do mesmo nível.
Esta revista tem um cunho essencialmente sindical e não fica nada mal, para começar este brevíssimo texto, assinalar um facto cru e singelo de que me tenho apercebido através do convívio de amizade que tenho tido a grata possibilidade de manter com Mário Silva.
Tratando-se de um dos nomes mais referenciados no elenco de criadores de arte do nosso país, e tendo atingido – sobretudo a partir do início deste século – o grau do mais elevado nível de glorificação pública que é possível a um artista português, ele é apesar de tudo – ainda e sempre – um homem que é obrigado a batalhar dia a dia o seu pão, os meios indispensáveis com que se sustenta a si e à sua família.
A minha apreciação artística fica encurtada de algumas linhas e ninguém sabe o quanto me custa devido ao entusiasmo discursivo que desatam em mim os seus trabalhos. Não quero, como faz a crítica em geral, endeusá-lo como artista e esquecê-lo como homem, nas curvas e contra-curvas de uma existência longa e profícua (79 anos de homem e 50 de artista), tendo ainda que se levantar de manhã cedo todos os dias sem ser só para dar milho às rôlas.
Egoísta e hipócrita é esta a democrática sociedade em que vivemos que põe a dureza e as dificuldades da vida ao alcance de qualquer um, mesmo que genialmente criador de raríssimos bens do espírito. Adiante, mas fica dito por ser verdade.
O conjunto dos trabalhos expostos impressionava profundamente pelos mais variados motivos. Constituíam antes de mais uma glorificação da pintura como linguagem expressiva e complexa, para além de serem uma exaltação do espírito das artes no seu todo, como elenco de utensílios do homem para a comunicação, a sensibilidade e o aperfeiçoamento das categorias do olhar e dos sentimentos.
Alguns dos trabalhos expostos eram organizáveis por grupos expressivos dentro daquilo que o artista produziu de mais emblemático e articuladamente estilizado. A quase todos era possível, entretanto, atribuir a categoria de peça única, achado feliz, prodígio da felicidade criativa.
Não é necessário citar fontes de influência ou referenciais estilísticos. A arte de Mário Silva, profundamente centrada no homem, foi-se desenvolvendo com saudáveis e sugestivos desvios de percurso por entre algumas das principais escolas de expressão artística do Século XX. O expressionismo, o abstraccionismo e o surrealismo (entre outros) e coloco-os por esta ordem não sei bem porquê, nem tem grande mistério a razão porque o faço.

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O espaço vazio das cidades e a sua atmosfera saturada de emoções aparecem suspensos e exaltados nas suas paisagens por uma segmentada iridescência, reflexo de vidros coloridos, alinhados ao longo de inumeráveis “linhas de fuga e de força”.
São o reflexo de caleidoscópio que traduzem o intraduzível, que transformam aquilo que não tem corpo em matéria de sensibilidades vivas.
A cor livre, a mancha e o traço desenvolvem-se inúmeras vezes longe da regular ordenação formalista, ao sabor duma liberdade sem canon. A sua vibração, contudo, traz-nos sempre qualquer coisa de misteriosamente expressivo senão deste mundo, dum outro qualquer onde não nos importaria viver, pela beleza, pela frescura, pela elegância.
Os grupos de figuras, de rostos, de gente oriunda de todos os mistérios e sobressaltos são a presença teatral da complexidade do mundo em palpitação de conflitos apocalípticos e razões sem margem.
Centralidade do homem e da palavra celebrada, exaltante e sonhadora. Mito e máscara. Poema e gargalhada. Linguagem universal, pintura sem fim.

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