“Margens do mundo” de Alcina Almeida na Casa Municipal da Cultura

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“Margens do mundo” de Alcina Almeida na Casa Municipal da Cultura
Publicado no Diário de Coimbra de 27 de Abril de 2009

Repasso pelas palavras que escrevi em Dezembro de 2005 a respeito da exposição que Alcina Almeida efectuou na mesma Casa Municipal da Cultura onde se inaugurou, no passado dia 17 de Março, uma nova exposição sua. Poderia repetir quase tudo o que disse nessa ocasião não só por ser verdade, mas também por se recolocarem algumas das razões então apresentadas quer quanto à atitude da artista enquanto pessoa, quer no que toca ao conjunto de obras apresentadas.
Uma diferença essencial convém entretanto assinalar: se nessa primeira exposição nos apresentara um significativo conjunto de trabalhos de rara solidez plástica e de invulgar concentração emocional, ousa agora empreender o que não custa designar como uma exposição “de juventude”, ou seja, a apresentação de uma variedade de novos caminhos correspondente à diversidade de explorações entretanto efectuadas, marcadas por equivalente sentido de responsabilidade e amadurecimento estético.
A pintura abstracta, seja qual for o grau de informalismo respectivo ou as possíveis conotações de lirismo que consigo transporte, é agora um território definitivamente assimilado pela generalidade dos frequentadores de museus e galerias. Já ninguém se desconcerta perante linhas, pontos e planos ordenados de forma mais ou menos arbitrária de acordo com as visões e percepções da intuição plástica do artista, cujo olhar está liberto de todos os escolhos e turbulências do universo das coisas nomeáveis.
O suporte vazio acolhe o trabalho criativo da forma mais descomprometidamente livre, o que não significa que entre matéria e entendimento, entre gesto e olhar, não tenha de estabelecer-se uma elaborada teia de compromissos que pressupõem o método, o esforço coerente e a adopção de códigos estáveis.
Esta ordem de razões encontra-se suficientemente exemplificada mediante alguns dos conjuntos de obras que Alcina Almeida nos apresenta, pelo sentido de projecto que os anima e pela coesão plástica que evidenciam.
Sobre as suas telas desenrola-se um desfile incessante de novos seres ou entidades significativas, organicamente dispostas em confrontações dinâmicas, de peso, espessura e densidades variáveis, que desafiam leituras sucessivamente diversas e percepções capazes de se alterarem de acordo com a disponibilidade e a predisposição de quem as observe.
O gesto, o tempo e os acasos da execução encontram-se documentados aqui e ali, por vezes de modo evidente e outras quase imperceptivelmente referenciados. Nalguns casos pode identificar-se uma atitude de quem ousou conduzir o seu trabalho até às últimas consequências, noutros se poderá dizer que a pintora se ficou pelo que era essencial, deixando a cargo do observador a tarefa de adivinhar o que não falta porque se encontra determinadamente subentendido.
No remate das impressões que aqui resumo a respeito do trabalho da artista, tomo a liberdade de citar uma frase que escrevi no já citado texto de há quatro anos: Alcina Almeida é profundamente pessoa ao mesmo tempo que se revela a si mesma como talentosa artista, cujo pensamento flui em cada gesto, exprimindo-se com elegância e gosto em praticamente tudo o que faz.


A respeito dos públicos que continuam a frequentar salas de exposições observar-se uma instabilidade acentuada do olhar, uma pressa – ou uma incapacidade – de mergulhar de forma decidida na espessura significativa das obras expostas.
A elementaridade do “gosto, não gosto” fica sempre aquém duma capacidade de leitura sustentada, da coragem duma decifração mais íntima, pertinente e espiritualmente produtiva de explorações autónomas e criativas.
Quanto à disponibilidade do corpo social para apoiar e estimular a criatividade do espírito cultural e artístico, então, nem é bom falar. O alheamento demissionário é de regra.
As altas dignidades de outros tempos guardaram para nós o espólio de uma atenção que, se não era distintamente intelectualizada, teve a virtude de conservar o território revisitável de requintes de várias épocas e do seu sentimento lúcido.
A desaceleração no interesse pela obra de arte como testemunho de valores produtivos não denuncia uma simples alternância de propósitos culturais, ao que julgo. O que está em causa é uma autêntica perturbação sistemática dos valores da duração espiritual.

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