O Cabaré da Santa do Teatrão, ou os melting pots que falam português na Casa Municipal do Teatro

foi publicado no Diário de Coimbra


Estamos de facto num tempo de prodígios nem todos funestos, felizmente. Estive agora mesmo de visita ao blogspot.com do Teatrão e, imagine-se, tenho ao meu alcance trailers alojados no YouTube de algumas das suas realizações teatrais e acesso à asa brasileira deste enérgico condomínio artístico, o Folias de Arte, de São Paulo. O trailer, que era exclusivo do universo cinematográfico está agora ao serviço do teatro. Os meus sinceros parabéns!
O universo de significados especializados de que o parágrafo anterior é prova evidente é expressão elementar das mutações culturais que a actualidade nos oferece com toda a vastidão de consequências fracturantemente férteis que o fenómeno envolve.
O Cabaré da Santa é um notável trabalho de teatro que também trata, a seu modo, desse estado de coisas e representa para os privilegiados espectadores de teatro de Coimbra uma oportunidade a não perder de passarem um belíssimo serão na companhia de jovens que nos apresentam um espectáculo poderosamente inoculado por uma elaborada teia de ilusões que dá o braço a uma forte componente musicológica em contexto de propícias complexidades linguísticas e interculturais.
Rica de intertexto, vibrante e imprevisível, a peça desestabiliza o espectador mais composto através dum excitante e excitado percurso com variedade de facetas e abordagens culturais e artísticas que podem ser apropriadas ao gosto de cada um.
Este Cabaré poderá, desejavelmente, ser visto e apreciado mais do que uma vez. Não só porque é uma complicada teia de enredos difíceis de descodificar plenamente numa primeira abordagem, mas também porque pode ser apreciado com mimos de chá, vinho do Porto ou bom tinto (eu sou testemunha…). Na minha modesta opinião esta última componente devia estar mais assiduamente presente em certo número de eventos culturais, et pour cause…
Se esta terra ainda vai cumprir seu ideal, se o Amazonas desagua de facto no Tejo numa pororoca ou se vamos de ter de rever o nosso perfil são coisas que não me dão muito cuidado. O mundo muda com tal rapidez que vaticínios, neste como noutros casos, é melhor esperar pelo fluir deste jogo que não acaba nunca. Fundamentais serão de facto, além das inevitáveis razões da elaboração intelectual, o humor e o sexo, essas duas artes tão necessárias como difíceis no que envolvem de sensibilidade, subtileza e a sempre indispensável inteligência.
A peça evolui também nesses terrenos, não abusa nem exagera, mas sempre ventila um pouco o clima aparentemente árido da fleuma nacional. Vendo as fotografias da versão brasileira da peça publicadas na internet, ficam comprovadas nesse sentido as vantagens da miscigenação cultural entre Portugal e o Brasil e… a distância enorme que nos separa do “impávido colosso” que é o país do Carnaval.
Depois das inenarráveis negociatas de todas as épocas entre Portugal e Brasil, de que a peça também se faz eco e metáfora, depois da “invenção da mulata” – a atitude dita mais genial dos portugueses além mar – e da telenovela, cabe agora ao vulgar de todos nós descobrir e desbravar já não as veredas do sertão, mas esse privilégio sem fim que representa para nós a desconhecida genuína cultura daquele país. A sua variedade, o seu colorido, os atrevimentos que não conhecem fronteiras de raça e de preconceito, a excitante enormidade do seu espaço físico e dos intermináveis horizontes do seu espírito esperam por todos nós de braços abertos.
A peça acaba com a concepção luminar de um certo Brasil descobridor de um certo Portugal. Certo, não tem problema, meu irmão.
Quanto a mim mais me inspira, para já, um sempre novo e prodigioso oiro do Brasil com pele de todas as cores, revestido de todos os aromas da terra de que podemos e devemos, por todas as razões imagináveis, lançar mão aberta. E fazê-lo decididamente, com toda a magnífica legitimidade de usarmos a mesma língua, recompensa merecida de séculos de labutas dolorosas e viagens arriscadas.
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