Fernão Mendes Pinto, filho de Montemor-o-Velho, contemporâneo de Camões que trabalhou degredado em obras na Muralha da China

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Uma nau portuguesa do Sec. XVII em Nagasaki, no Japão.

Uma nau portuguesa do Sec. XVII em Nagasaki, no Japão.

“… o galardão da nação portuguesa mais consiste & mais pende da aderência que do merecimento da pessoa”
pungente denúncia da rainha de Aarú da falta de cumprimento de promessas de auxílio feitas pelos portugueses face ao ataque de inimigos comuns;
Peregrinação, Cap. XXX

A leitura das obras clássicas de todas as épocas é de todo recomendável, garante uma ligação directa à perenidade universalista, além de ser fonte do mais intenso prazer intelectual.
A Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, que é um clássico no verdadeiro sentido do termo, é um relato apaixonante da odisseia dos portugueses pelo mundo, muito frequentemente citado, poucas vezes lido até ao fim e raramente analisado nas suas facetas mais importantes.
Obra contemporânea dos Lusíadas de Camões não ganhou para ser apresentada às majestades da época nem sequer editada em vida do seu autor. Este escreveu-a conscientemente despojado da categoria de escritor, num estilo humilde de quem narra coisas sabidas e vividas por ele próprio e por outros seus iguais, fora do tom grandiloquente da epopeia, esclarecendo que o seu único intento era de a deixar como herança de memória aos seus filhos.
Poderá ser lida com simples relato de viagens e tremendas aventuras, sendo lamentavelmente redutor enfatizar as questões ligadas à veracidade ou invenção das peripécias de assombro de que está repleta.
Tendo tido que conviver com os mais graves poderes da época, num cenário em que eram praticamente excluídas quaisquer hipóteses de estabilidade, segurança e conforto, Fernão Mendes Pinto conseguiu produzir uma obra que põe em causa a moralidade das conquistas ultramarinas e que coloca a missão dos portugueses de conquistar e converter ao nível de um ideal falso e corrupto.
A primeira publicação teve lugar apenas 31 anos depois da morte do autor, facto que não é alheio ao temor provocado pela Inquisição, a qual não deixou – bem como os Jesuítas – de terem intervenção censória na integridade do texto.
Dele foram rasurados aspectos menos “convenientes” de conteúdo e todas as alusões feitas por Fernão à citada ordem, de que foi aliás membro e colaborador activo na missão evangelizadora do Japão, na fase da sua vida em que estabeleceu estreito relacionamento de amizade com S. Francisco Xavier, a quem emprestou dinheiro para construir a primeira casa Jesuíta naquele país.
A notoriedade da Peregrinação a nível internacional logo depois de publicada foi imensa, tendo-se efectuado grande número de edições traduzidas em dezanove línguas, dado o seu acentuado universalismo que suscitou estudos e comentários dos mais diversos autores.
Fernão Mendes Pinto é tido como um homem muito à frente do seu tempo num variado leque de assuntos e, nomeadamente, no conceito que apresenta a respeito dos povos distantes, em tudo diferente da perspectiva paternalista e colonizadora que era timbre da atitude dos ocidentais em geral e dos agentes do cristianismo, em particular.
Aliás a sua presença no Oriente não se deve à posição social ou à proximidade de qualquer poder. Ele está ali por acidente da sorte, é um homem que se esforça por sobreviver a um destino frequentemente adverso e não tem, por isso, complexos de conquistador ou missionário.
Há portanto espaço no seu olhar para ver os habitantes longínquos com a tolerância e a compreensão de um seu igual e não se ocupa, como Camões o fez, em narrar a epopeia do grande Gama, herói descobridor, antes descreve em tom humanizado piratarias e acidentes perigosíssimos por que passaram anti-heróis como António de Faria.
Assim se compreende também, como nos diz J. David Pinto-Correia, no Colóquio Letras da FCG de Janeiro de 1984, serem escassas as manifestações que durante o ano de 1983 assinalaram o IV aniversário da morte do grande pícaro aventureiro que na oralidade da sua prosa se designava frequentemente como “o pobre de mim”.
Dado que a leitura directa e desacompanhada do original é susceptível de não abrir para um entendimento abrangente dos seus valores mais profundos, é aconselhável procurar estudos e comentários que os contextualizem.
Tenho aqui a meu lado um interessantíssimo “Fernão Mendes Pinto no Japão” de Wenceslau de Morais (da Imprensa Nacional Casa da Moeda) e recomendo também “Sátira e Anti-Cruzada na Peregrinação”, volume 57 da Biblioteca Breve do Instituto de Cultura e de Língua Portuguesa, de Rebecca Catz, considerada a maior especialista estrangeira em Fernão Mendes Pinto e que é possível descarregar na íntegra da internet.

Nanb
Um grupo de portugueses no Japão, no sec. XVII, ou “Nanban” (“bárbaros do Sul”, como eram chamados)

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Este texto foi publicado na Revista de Informação de Novº/Dezº de 2008 do SBC

One thought on “Fernão Mendes Pinto, filho de Montemor-o-Velho, contemporâneo de Camões que trabalhou degredado em obras na Muralha da China

  1. bluewater68

    Costa Brites,não tenho sido visita corrente neste blogue, mas não me esqueci de si.Não sei se ainda consegue ir à conta CostaBrites no SOL (enviei-lhe uma MP), mas em resumo, a si e aos seus, quero desejar um Feliz Natal e um Fantástico 2009.Boas Festas

    Responder

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