“A Turma” – uma batalha difícil entre rebeldes intuitivos e seus únicos aliados possíveis

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Foi publicado no Diário de Coimbra de 17 de Dezembro de 2008

É pena que este filme, com argumento escrito por um professor que se interpreta a si próprio (François Bégaudeau), não seja constituído como tema intensivo de trabalho para todos aqueles que estão implicados no ensino e, ao dizê-lo, estou a pensar literalmente em toda a gente. Principalmente os pais de filhos que frequentam o ensino secundário, aparentemente o único dono de todas as problemáticas e controvérsias, como se os outros níveis de ensino não fossem, também eles, território de complicadas contradições.
“A Turma”, de Laurent Cantet, é um pedaço de cinema duma raríssima qualidade comunicativa. Oferece-nos uma peça de ficção tão meticulosamente construída no seu todo e nas partes que a constituem, que parece um naco de vida arrancado no seu estado puro à experiência vivida algures por professores, alunos e respectivas famílias.
Quem assistir ao filme é transportado para dentro da escola duma tal forma que esquece a sua condição de espectador, tornando-se quase testemunha de factos realmente ocorridos com pessoas que, um dia destes, iriam cruzar-se connosco caso vivêssemos lá, naquele complicado subúrbio de Paris. Não nos iludamos, contudo: a nossa realidade é cada vez mais semelhante àquela, numa sociedade cada vez mais confusa, assimétrica e problematizada.
O espaço exíguo da sala e o recreio igualmente atravancado são os cenários principais que nos são mostrados numa escola francesa onde não falta, apesar de tudo, um conjunto razoável de recursos técnicos e respeitáveis princípios de organização disciplinar.
Os momentos mais intensos do filme são os que documentam a argumentação cerrada entre professor e alunos, em pleno decurso das lições de língua francesa. O exercício da palavra, os seus mistérios, tesouros e artifícios são a reserva de subjectividades sempre candentes que revelam toda a complexidade da natureza humana.
E é aqui que se demonstra que a um professor não basta conhecer todo o conjunto de matérias que lecciona. Tem também que ser pedagogo no sentido mais lato do termo, psicólogo, sociólogo, pastor de almas solitárias, cúmplice de dramas ocultos, advogado de defesa em julgamentos de salomónica transcendência. Isto para além dos horizontes de certo desespero, do cansaço e daquilo que um outro importante filme francês de 1967 de André Cayatte designava como “Les Risques du Métier” ou seja, “Os Ossos do Ofício”.

O professor: o único aliado possível

A dignidade fechada daquela mãe africana que mal saberá, mas não ousa, falar em francês, defende o seu filho com as razões mais concretas da sua experiência particular. Expulso da escola o filho caminha atrás dela, silenciosamente confuso na revolta impotente contra coisas de que apenas intuitivamente se apercebe. O nosso coração comprime-se porque sabemos que o professor que deixou atrás de si poderá ter sido, sem que ele o saiba, o único aliado possível que a sociedade lhe terá oferecido num combate que mal começa e que ninguém imagina como irá terminar. A riqueza expressiva desta notável realização cinematográfica está no vastíssimo leque de questões que levanta e no modo como nos deixa a pensar no assunto.
Infelizmente, como acontece com uma larga quantidade de obras exemplares, também este filme – apesar do seu enorme êxito – acabará por ser visto essencialmente por gente que necessitaria menos de vê-lo que os seus mais legítimos destinatários. Mais do que tudo será um erro considerá-lo um espectáculo “para professores”, dado que para estes – no que tem de mais pungentemente chocante – nada mostra para além daquilo que já abundantemente conhecem, na tempestuosa batalha que travam, dia a dia, por detrás das portas fechadas das aulas que dão aos filhos de toda a gente.

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