Mário Branco expõe em Coimbra, no Museu Municipal, Edifício Chiado

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442 M Branco

Este comentário foi publicado no Diário de Coimbra de 30 de Setembro de 2008

Esteja atento o cidadão interessado e não desista de ver. Os mesmos artistas que desde há milénios procuram comunicar com o presente futuro das sensibilidades vivas permanecem activos, mau grado a fome aparente de verdade e de paixões autênticas. O fantasma das culturas burocráticas permanece e alimenta-se de espectáculo, mas aqueles que teimam encontrar, sempre acharão. Mário Branco mostra um belíssimo conjunto de obras de pintura na galeria de exposições temporárias do Museu Municipal, no Edifício Chiado, outrora centralidade única de centralidades agora repartidas e é uma presença que vem deliberadamente ao nosso encontro. Os trabalhos que nos mostra evidenciam bem uma metamorfose positiva das linguagens da contemporaneidade, neste caso coerentemente associada à corrente das artes próximas do homem e da sua essência comunicativa.
Nada de chapadas de tinta aleatoriamente garatujadas por cima de enormes telas, ou exercícios de neo-qualquer-coisa confiantes na perplexidade de contemplantes anulados pelo acetinado de “meios” que dispensam completamente a “mensagem”.
Mário Branco, pelo contrário, aborda sem complexos uma ampla diversidade de condimentos expressivos não fugindo à variedade de formatos que oscilam entre o delicadamente intimista e a alargada dimensão de alguns dos seus vórtices de impressionante efeito. As variadas caligrafias que põe em prática vão desde a administração mecanicista da matéria da pintura em escorrências, sobreposições e arrastamentos, etc., até à execução a pincel de “mimos” de expressão cuidada, sem receio de evidenciar amor e preceitos técnicos. As suas composições abrangem uma variedade de formatos sugestivos do “retrato” e da “paisagem” mas, na maioria dos casos, revelam estruturações impossíveis de designar por palavras. Como qualquer artista em liberdade não foge à diversidade. Se evidencia coerência plástica, porém, não nos reduz à monotonia de estar a ver sempre “o mesmo quadro”, apelando à decifração das fases construtivas e desafiando-nos a adivinhar o itinerário de gestos felizmente complementares. As suas massas cromáticas tanto se afirmam por empastamentos convictos ou cores firmes, como em lavados e transparências subtis, aqui e ali acentuados por tracejamentos a pastel ou carvão e projecções de tinta diluída que surgem onde é oportuno e não apenas “onde calha”. A paleta de cores assenta numa semântica serenamente nostálgica, embora sejam abundantes os pontos de exclamação, as acentuações e – em casos precisos – a surpresa de uma excepção. Visite exposições de pintura, caro leitor. Vale bem a pena e ensina os olhos a ver. Mas não vire o rosto para o lado à primeira impressão. Persista um pouco e tente mergulhar lentamente na arquitectura dos sinais. Assim se aprende a ler o pensamento e se lava a mente da pressa confusa das imagens sem alma.

Nota de remate:

Consequência das restrições cumulativas a cujo cerco o cidadão se vai habituando (e que pesam fatalmente pela negativa) o pequeno catálogo anteriormente oferecido equivale agora aproximadamente ao preço de quatro litros de gasolina. Sinal dos tempos em que o espavento das derrapagens dos biliões se tornou uma praga “paulatinamente” ignorada por motivos de “conformação”.
Mário Branco no Edifício Chiado, até 25 de Outubro de 2008.

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