Caminhando pela baixa de Coimbra, com exposição de fotografias de Edgar Martins, no CAV

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Publicado no Diário de Coimbra de 27 de Fevereiro de 2008


A única coisa que a baixa de Coimbra não precisa é de que venha acrescentar-me ao número daqueles que tão lamentosamente debatem a sua decadência.
Só me ocorre dizer que, para além de todos os problemas que são ventilados por muitas outras pessoas muito melhor do que eu, a baixa também é uma questão de opção e de cidadania. Se quiser ir à baixa, vou.
Se a oferta de serviços, se os locais de convivência e de cultura, se os estabelecimentos com rosto humano me convierem, porque não na baixa? E é isso que faço, em dia de Sábado à tarde, a pé e levando comigo (além da melhor companhia…) aquele vagar que também inclui olhos para ver as coisas como se fosse pela primeira vez.
Depois de sair de Montarroio entramos no “Pátio”, damos a volta a um taipal de obras − das muitas que há por todo o lado ¬− e entramos no espaço do CAV, Centro de Artes Visuais.
A exposição que se mostra ao entrar é de fotografias de Edgar Martins, acontecimento que requer uma atenção e um vagar muito específicos, e proporciona um intenso prazer desde o primeiro instante.

numa tarde de luz tão ternamente atlântica

Compro o catálogo bilingue e cedo por momentos à tentação de mergulhar alternadamente na versão portuguesa e na inglesa, parecendo-me especialmente interessante o trabalho de tradução, facto que nem sempre ocorre em tais edições. A visita, contudo, obriga-me a deixar a leitura para depois. O modo como é feita a colocação dos títulos, embora não sendo de ignorar, é rapidamente abandonada, dada a evidente relação que os diversos ciclos de imagens mantêm entre si, quer por efeito de semelhança, quer por efeito de contraste.
Nesse sentido a organização da exposição é muitíssimo estimulante, porque permite ao visitante aperceber-se da coesão que as diversas séries sustentam em si mesmas, sem deixar de oferecer momentos de contraste e tensão, valendo a visita dos espaços não somente pelas peças isoladas como pelas confrontações respectivas.
Esta estratégia expositiva tem as suas excepções, das quais me atrevo a salientar o caso da última sala, em que a obra apresentada nos colhe com emocionada surpresa, dado o grau de familiaridade subjectiva (ou contraste plástico-simbólico), existente entre a matéria que nos dá a ver e a própria estrutura construtiva do espaço envolvente.
Para além do esplêndido apuro formal das obras apresentadas, que em certos casos restringe ao mínimo o conjunto de dados que são oferecidos à observação, existe como uma espécie de equívoco ou mistério na organização da paisagem que suscita uma análise dos mínimos sinais disponíveis, contendo cada um uma intensidade particular que reforça a coerência do todo.

uma multidão de gaivotas descansa sobre o artificial Mondego

A entrada surpreendida numa exposição de tão elevado teor de qualidade não é facilmente compatível com a apreensão imediata de todas as razões e conceitos que animam o labor do artista, para mais tão longamente fundamentados. Mas configuram uma oportunidade a não perder e, já agora, analisamos mais um pouco um dos fenómenos visuais em evidência. Largas superfícies de cor densa apresentam a espessura que nenhum fenómeno natural em si contém, a não ser no conceito abstracto da própria ausência. Um negrume tão intenso que, revelando aqui e ali sinais imprecisos, ou misteriosos, ou intensamente solitários, é essencialmente uma acentuação de tudo o mais que a vista alcança. Nuns casos apreciamos uma noite que não é, noutros um regato que se mostra como se fosse uma nuvem, noutros uma superfície líquida que se transforma noutro céu sobre o qual flutua a enorme massa de um iceberg escultórico, citação das tumultuosas paisagens glaciares de Caspar David Friedrich. As breves observações que aqui deixo a respeito da exposição de Edgar Martins não esgotam o muito que dela poderia dizer-se.
Durante a visita valeu a boa companhia que me levava para aquecer as salas arrefecidas de gente. E para entender melhor aquelas pequenas e grandes coisas que um olhar amigo vê mais esclarecidamente do que todas as palavras ditas.

caminhar é preciso

O espaço mais densamente frequentado que atravessámos no doce fim de tarde, foi o do parque da cidade. Chusma de automóveis no parque de estacionamento. Os mesmos que vão desandar dali para as grandes superfícies, poluindo tanto ao Sábado e ao Domingo como nos outros cinco dias. Os meus compatriotas têm uma grande dificuldade em andar a pé, e os transportes públicos ao Sábado e ao Domingo são ainda muito menos amigos que durante a semana. Vir a pé à baixa, Sábado à tarde, pode muito bem ser um sonho frustrante ou uma cansativa peregrinação. Mas temos a intenção de persistir nesse hábito. Embora nem tenhamos o colesterol alto.

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