A Galeria Sete, Ases & Trunfos em exposição e equipamento cultural em projecto

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Publicado no Diário de Coimbra

Foi publicada recentemente a emocionante notícia de que a Galeria Sete irá meter ombros à construção de um espaço cultural numa zona adjacente à Avenida Elísio de Moura, situada ao lado direito de quem sobe, no vale verdejante ainda com antigas terras de cultivo. Muito emocionante para mim, dado que resido nas imediações, e naturalmente emocionante para todos os que se interessam pela arte e pela cultura, onde quer que se encontrem. O facto de ser visitante regular da galeria, acompanhando por gosto o que ali se fez desde o seu início, permite-me concluir que o projecto já aprovado vai ser um passo em frente em termos gerais de cultura, não admirando que as artes plásticas ali venham a beneficiar de particular incidência.

Sem ser apreciador do cerimonial das inaugurações, deixo-me tentar por visitas mais tranquilas e contemplativas, sendo a exposição que ali se encontra neste momento – Ases & Trunfos – uma revisão abrangente de opções e personalidades estéticas especificamente interessantes, caso a caso. Passando pela montra somos literalmente “arrastados” para dentro da galeria pela tela de Francisco Relógio, artista já desaparecido que foi expoente dum talento raro, fortemente ligado às sensibilidades dum tempo e de uma cultura muito específicos.
Para além da frontalidade simbólica com que nos confronta, amadurece com os anos. Merece, por isso, um olhar lavado de preconceitos datados, devido às suas qualidades de expressão plástica que servirão noutros contextos, e sempre, como eco de um apelo intenso e luminoso, entre rosto e alma, entre terra e sol.
Ao lado, João Vieira está presente com uma das suas pesquisas de consagrado valor intelectual, massas complexas de cor arrastadas por compressão que configuram, mais do que ideogramas, fantasmagorias de teor semi-caligráfico, quase-máscaras ou quase-rostos monumentais.
De outros artistas representados permito-me referir, de memória, José de Guimarães, Pedro Poença e os trabalhos ainda presentes duma recente exposição individual de Noronha da Costa que a Galeria Sete organizou, como importante testemunho da sua evolução recente. José de Guimarães representa-se com um trabalho demonstrativo da sua prática de construir os elementos de suporte das obras que executa, muitas vezes situadas entre a pintura e a escultura, e que associam o mistério distante da complexidade ancestral às sínteses mais intensas da modernidade.
Pedro Proença, duma geração mais nova, evidencia em tudo o que faz uma prolífica veia criativa, quer do ponto de vista da construção imagética, sempre duma invenção caudalosa, quer mediante o uso da palavra escrita que, no caso presente, se encontra em evidência sobre o próprio corpo da pintura. Estão ainda presentes um número significativo de peças, todas claramente referenciáveis aos respectivos autores pelas suas qualidades expressivas, como um desenho de Vieira da Silva de 1945, particularmente intenso na simbologia do transe conflitual de que é testemunha; um guache de 1980 com a marca peculiar do gesto de Manuel Cargaleiro, cujo trajecto assinala uma forte presença na área da azulejaria; obras de Cruzeiro Seixas, Mário Botas, Mário Cesariny, entre outros.
A par destes exemplos, vários outros seria de acrescentar, de diferentes gerações de criadores e de diversas escolas de expressão, não havendo aqui possibilidade para isso, nem sendo meu propósito substituir-me à visita mais abrangente que o leitor irá procurar fazer, caso não o tenha feito já.

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