O Cinema morreu, Viva o Cinema!…

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Publicado na REVISTA DE INFORMAÇÃO do Sindicato dos Bancários do Centro de Julho/Agosto de 2007

Numa Sexta-feira quente de Agosto a rtp2 presenteia a multidão dos cinéfilos com dois filmes da autoria de dois grandes realizadores recentemente falecidos. Os filmes estavam naturalmente disponíveis e, com pretexto na morte dos respeitáveis criadores, foram entregues aos (escassos?) espectadores a braços com a casualidade triste de não estarem algures, sentados em esplanadas defronte de bebidas loiras ou coloridas, mirando bronzes artificiais envolvidos por tecidos vaporosos.
A minha inclinação de criticar a política cultural das televisões portuguesas em geral e a sua política de difusão cinematográfica em particular − que são duas coisas que praticamente não existem − teve nestes últimos dias duas razões felizes para reservar silêncio: este serão de Sexta-feira e, há dias, a passagem dum extraordinário filme de 1992, de Michael Mann, tratando magnificamente uma das obras predilectas da minha estante: “The Last of the Mohicans” de James Fenimore Cooper.
Entre “Sarabande” de Ingmar Bergman e “Blow-up” de Michelangelo Antonioni (e são estes os dois filmes em referência) existe pelo menos o parentesco respeitável de serem obras de grande qualidade de dois realizadores notáveis, merecendo cada um dos filmes uma contemplação muito atenta e aprofundada, com ligações essenciais a toda a obra restante dos dois cineastas. Pela economia a que me força o pouco espaço disponível, refiro-me principalmente ao primeiro, devido à importância que ocupou o seu autor na geração de apreciadores de cinema de que faço parte.
Quando comecei a ver filmes de Ingmar Bergman a Suécia era um país longínquo, como hoje e sempre será, notabilizado pela ideia de progresso social, avanço cultural e liberdade. Para além das mensagens de ordem estética, da profundidade filosófica e até da densidade dramática que os seus filmes continham, havia neles uma atmosfera austera de reflexões enigmáticas, em branco e negro com meios tons riquíssimos, sob a luz misteriosa e ténue da Escandinávia.
O Sétimo Selo, Morangos Silvestres, O Rosto, A Fonte da Virgem, Mónica e o Desejo, o Olho do Diabo, entre outros, foram filmes comentadíssimos e, melhor ou pior compreendidos, numa sociedade pouco preparada para a generosidade da circulação das ideias, lá foram construindo um universo de referências a que o decurso dos anos viria a acrescentar uma enorme lista da melhor qualidade: Lágrimas e Suspiros, Sonata de Outono, Fanny e Alexandre e Cenas da Vida Conjugal, para o qual remete a temática desta última obra, Sarabande, protagonizada, aliás, pelos mesmos actores.
Nos últimos filmes da já afirmada maturidade de Ingmar manifesta-se largamente a tendência reflexiva de um cinema de estrutura quase teatral, de grande austeridade, com poucas personagens, rico de longos monólogos ou diálogos de conteúdo muito denso, cuja aparente serenidade de vozes contidas não oculta a acentuada complexidade de conflitos e dramas íntimos.
A transitoriedade da vida, o absurdo da existência, a impossibilidade do amor, as disputas pessoais, a fractura entre as gerações, o dramatismo da morte e a insanável ausência dos que partiram são abordados sempre com grande sobriedade de meios a que o talento do cineasta acrescenta, no entanto, uma solidez estética inultrapassável. A lentidão narrativa de Bergman, a completa indiferença por entrechos rebuscados sem concessões à vulgaridade fazem-nos pensar numa outra cinematografia notável a que devemos alguns dos melhores momentos do cinema português de todos os tempos: a de Manuel de Oliveira. Não será necessário, como é evidente, tentar descortinar as semelhanças e diferenças entre obras igualmente notáveis de artistas muito distintos. Ideal seria, contudo, que a morte recente de grandes figuras da cinematografia europeia pudesse marcar, não o ocaso de uma forma riquíssima de expressão que já garantiu uma absoluta autonomia entre as artes, mas sim o reforço da sua capacidade de intervenção como instrumento de cultura e edificação da sensibilidade de todos os homens de hoje e de amanhã. Oxalá uma crescente disponibilidade do DVD e uma melhoria dos meios de fruição do cinema como obra de arte, possam vir a ser motivo de aprofundamento e expansão de obras não exclusivamente baseadas na violência, em frenéticos efeitos especiais e na vulgaridade de processos estilísticos.
Aqui, como noutras áreas de interesse por valores positivos, a atitude dos cidadãos tem uma virtude fundamental: ver obras de qualidade, fazer o seu comentário inteligente e exercitar a sua divulgação é do interesse não apenas dos cinéfilos e dos espectadores com memória do cinema, é uma ocupação que dá prazer e aproveita a toda a sociedade.

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O trabalho dos mais conhecidos e prestigiados realizadores de cinema depende sempre de grupos de trabalho de grande qualidade. Sven Nyqvist, director fotográfico, aqui à direita de Bergman, é um caso especialíssimo do qual dependeram grandes sucessos do mesmo. Granjeou notoriedade do mais alto nível, sendo-lhe atribuídos dois Óscares na sua especialidade.

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