Os painéis de azulejos da estação do caminho de ferro da Lousã, o que esteve antes e o que estará depois

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Uma visita feita à estação de caminho de ferro da Lousã diz muito mais ao cidadão atento aos valores do património no seu sentido lato do que ao artista cativado pela ideia de uns simpáticos painéis de azulejos.
Os 100 anos comemorados acentuam a noção de que nos encontramos perante um património objectiva e subjectivamente valiosíssimo, da época fantástica da expansão da ferrovia.

A totalidade do espaço ocupado pela estação, remetido à época que a viu nascer, revela amplidão de horizontes e de fé no futuro, os quais poderão certamente associar-se à melhor tradição do espírito produtivo da Lousã.

Oxalá que um tal conjunto possa ser mantido em todos os elementos que o caracterizam, se possível restaurados nos aspectos em que começa a tornar-se mais notória a sua degradação: além do mais, o “cais coberto”, exemplo que se torna raro dos edifícios de trabalho que tão numerosamente têm sido destruídos em Portugal, com o gabarito respectivo, a balança e um guindaste de operação manual, portentoso vestígio de arqueologia industrial, magnífico na singela inutilidade a que as modernas tecnologias o remeteram.

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O cais coberto – como provo o presente-futuro desta notícia – desapareceu, como “por desencanto”.

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Onde terá ido parar o precioso guindaste?

Sobre os azulejos

Os azulejos que se encontram na estação da Lousã, eles também carentes de cuidados de restauro, não são propriamente “painéis de azulejos” no sentido mais enobrecido que se dá ao termo.
As cercaduras, construídas com azulejos de série, nada têm a ver com o motivo central, não são do mesmo estilo nem da mesma técnica, sendo notório o facto de não serem das mesmas dimensões entre si, o que obrigou a pequenas manobras de aplicação, especialmente visíveis nos dois conjuntos centrais. Tais cercaduras, formadas por um encadeado singelamente decorativo de flores e folhas, são encimadas por medalhões que pouca qualidade acrescentam ao conjunto.
As três placas de azulejos que mostram a palavra Lousã, ao centro e nas paredes laterais da gare, têm cercaduras com o mesmo padrão, mas em azulejos visivelmente mais recentes, de vidrado liso e já não relevados como os das cercaduras restantes.
Os motivos centrais, ao gosto de ilustrações da época ou bilhetes postais, não se encontram datados nem assinados por Jorge Colaço, contendo a indicação, isso sim, de que foram produzidos nas “oficinas de Jorge Colaço – Cª das Fªs. Cª Luzitânia”, o que é diferente, como a sua execução amplamente denuncia.

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Se os interessados visitarem por exemplo a estação de S. Bento no Porto, decorada com os seus espampanantes vinte mil azulejos historiados, assinados pelo artista, ou os painéis do Grande Hotel do Buçaco, do mesmo autor, e fizerem a comparação com estes da estação da CP da Lousã, saberão perfeitamente de que é que estou a falar.
Termino fazendo referência a um objecto clássico em todas estações da CP: o indispensável relógio de Paul Gaultier, neste caso ausente por nunca ali ter estado, ou por ter sido removido.
Oxalá fosse esse o único elo em falta na cadeia de expectativas da velha linha de caminho de ferro, cuja estação de chegada é como as horas dadas por relógios ausentes, de mostradores com números muito avultados, mas sem ponteiros que esqueceram o que foi o antes e ainda não sabem o que será depois.

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Este texto foi publicado no semanário “Trevim” de 14 de Dezembro de 2006, no suplemento comemorativo do centenário do Ramal da Lousã (ainda circulava o comboio na linha que entretanto se esfumou, no fundo de um bolso qualquer…)

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Esta fotografia desértica fica aqui, imprecisa e desfocada, como um sonho ou lembrança do passado…

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