Obra feita, obra acabada, fim e princípio, aurora e ocaso simultâneos, uma coisa nunca vista!…

O adulto rege-se por princípios de finalidade e a criança pode ter finalidades diversas, que podem implicar rupturas com a mesma.
O camarada mais velho deve estar atento a esses “percursos alternativos”, a essa vontade expressa através da atitude, mas não esquecendo que uma boa disputa pode valorizar o que cada um conquista para seu prazer, não desvalorizando ou forçando a parte “contrária”!…
Essa área de confrontações deve ser tonificada com uma boa disposição especial, para que o adulto possa “fazer passar” juntamente com o sentido de humor, algumas noções de “finalidade” e de “respeito pela tarefa”.
No caso do Flávio (e isso verificava-se igualmente, com variantes específicas no caso do seu pai, com quem eu tive o privilégio de desenvolver um vastíssimo elenco de brincadeiras artísticas) há uma tendência muito acentuada que tenho procurado interpretar da forma mais adequada, sem prejuízo da variedade de processos que estão envolvidos na nossa actividade:

O Flávio demonstra uma inibição determinada quanto à apresentação de “obra feita”, apressando-se a destruir cada desenho ou pintura, ou trabalho produzido, seja qual for a sua natureza.
Uma “solução” intermédia dessa necessidade pode ser substituida por um processo de ocultação, obliteração ou transfiguração do objecto recém-criado, que o camarada mais velho tem todas as vantagens em “negociar”, como atrás se diz.

Os especialistas devem ter uma opinião a este respeito, e penso que a atitude possa não ser caso único, antes frequente. Careço do tempo para ir investigar qual a razão deste comportamento, e configurei apenas uma explicação para o facto:

A “obra acabada” representa para a criança a eventualidade de ter de “medir forças” com o universo hostil duma lógica que não é a sua. Essa qualquer coisa que saiu das suas mãos não irá ser criticada, mas apreciada de uma forma que pode não lhe agradar pela “falta de naturalidade” das atitudes, e pelo desvio relativo a um sentimento de liberdade interior que é, dessa forma, desestabilizado.
A obra em si pode causar-lhe embaraços, dado que persiste como vestígio dum momento cuja satisfação se esgotou em si mesmo, aquilo que pode ir telescopicamente de encontro à noção elaborada e distante do acontecimento da “arte pura”, já de certa forma contornada no início destes escritos.


019 p Esta “obra” é um caso típico em que a “negociação” entre a revelação e a ocultação foi muito dura entre os dois “artistas”. Um boneco inicial (na circustância “um retrato”) resistiu a uma primeira cobertura de tinta, que não obliterou totalmente a figura por ser de tinta diluída. Seguiu-se um processo de colagens diversas (com outros elementos previamente trabalhados e recortados – eles próprios objecto de certas manobras de ocultação, que terminaram de forma “satisfatória” no momento em que o retrato perdeu o seu principal elemento significativo: o rosto!…).
A prepotência do artista mais velho revela-se pura e simplesmente pela presença aqui do retrato sobrevivente – destinado intuitivamente pelo Flávio à destruição pura e simples.
Para elaborar devidamente quanto à categoria deste retrato, que eu considero soberbo, receio bem que teria de gastar muito as teclas…

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s