O Mistério da Estrada de Sintra, de Jorge Paixão da Costa

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Inaugurar esta coluna destinada a trazer assuntos da cultura de todos os dias para as páginas da revista do meu sindicato se não é uma atitude que prime pela novidade (sou sócio do SBC, pelas minhas contas, há mais de trinta e seis anos…) é para mim uma oportunidade deveras emocionante. Aliás, fica para uma próxima ocasião descrever o que foi a tentativa, recheada de episódios, de tentar colocar de pé um grupo de animação cultural no seio do nosso sindicato, no princípio dos anos 70, com circulares em papel de cor, ilustrações e projectos mirabolantes que fariam corar certas vereações de cultura nossas conhecidas!…
Com propósitos muito mais modestos que nessa altura e assumindo o perfil baixo de alguém que deseja apenas conversar com os colegas, fica assim dado o tiro de partida para estas linhas que prometem falar de tudo o que seu autor julgue ter interesse, seja nas artes, nas letras ou nos espectáculos.

O cinema visto no Teatro Dona Maria Pia, uma coisa de outro mundo

Os meus hábitos de apreciador de cinema tiveram o seu início num momento mágico para aquela modalidade de produção artística, altura em que ainda não havia televisão, numa pequena cidade de província onde nem havia cinema todos os dias, nem eu podia frequentá-lo as vezes que me apetecia. A sala que melhor conheci era uma preciosidade raríssima, uma das primeiras salas de concertos com palco à italiana construídas em Portugal: o Teatro Dona Maria Pia em Leiria, cuja destruição ímpia foi apenas mais um desses crimes que entre nós vulgarmente são cometidos sem que o chão se abra debaixo dos pés de quem o pisa, ou o céu vomite raios e coriscos de imprecação celeste.
As salas de cinema da actualidade estão para mim, por esse facto, feridas de uma debilidade ambiental clamorosa, que retiram à magia da “sala escura” todo o seu mistério essencial, carente de ritos e de requintes que o tempo não apaga na memória das afinidades electivas, impossíveis de compensar com pacotes de pipocas e bebidas castanho escuro (hábitos dispersivos da atenção cinematográfica, além de lamentavelmente antidietéticos!).

Eça de Queiroz, aluno da Universidade de Coimbra

Tudo isto a propósito do filme de Jorge Paixão da Costa “O mistério da Estrada de Sintra”, recentemente estreado, e que os colegas na nossa área sindical poderão ver – pelo menos – em Coimbra, Guarda Leiria e Viseu. No curto espaço de que disponho é impossível dizer seja o que for de consistente a respeito deste espectáculo, e muito menos acerca das figuras e situações literárias que lhe deram origem. Fica passado o testemunho entretanto de que é sempre uma belíssima oportunidade a não perder ir ver filmes portugueses.
O cinema nacional, na sua variada riqueza e apetrechamento tecnico-cultural encontra-se recheado de valores do mais alto gabarito e merece a atenção (ia a dizer o patrocínio) de todos nós.
Devia, aliás, constituir obrigação cívica ir ver filmes portugueses, tal como deveria dar desconto para o IRS ver teatro em Portugal, ler obras escritas por autores portugueses, e um longo cortejo de “etc.” para toda a cultura nossa, de agora e de antanho, de todos os géneros e de qualquer autoria.
Num país cujos Sábados, Domingos e serões televisivos se encontram juncados de fitas americanas da mais desavergonhada violência (ontem ao deitar lá foi mais outra, com a “sugestiva” bolinha ao canto), ir ver um filme português é uma atitude de higiene cultural magnífica, que abre para o debate de questões que a todos interessam e a todos dizem respeito. Recomendo pois este interessante espectáculo de cinema, bem como a leitura da célebre obra de Eça de Queiroz e de Ramalho Ortigão que lhe serve de tema (sublinhando-se aqui a raridade preciosa de uma tal parceria de criatividades, não isenta de acidentes e paixões, como nos revela o próprio filme!…).
Se sobrar coragem sugiro igualmente um mergulho decidido na temática da notável “Questão Coimbrã”, que rompeu nesta cidade em 1866, ano em que aqui se formou em Direito um rapaz de 21 anos chamado Eça de Queiroz.
Ninguém vai ficar indiferente à substância desses debates e obras literárias, de que “O Conde de Abranhos”, do mesmo Eça, representa um superlativo da mais intensa frescura de actualidade!…

Publicado na REVISTA DE INFORMAÇÃO do Sindicato dos Bancários do Centro de Maio/Junho de 2007

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