Peça de José Sanchis Sinisterra, pelo Teatro das Beiras, na Oficina Municipal do Teatro

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Publicado no Diário de Coimbra no dia 07 de Fevereiro de 2006
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Na enérgica sociedade multicultural que Espanha é, José Sanchis Sinisterra ocupa o lugar distintíssimo de um artista que, ao mesmo tempo que se ocupa com raro talento de temas muito fortes de multifacetada concepção, vê os seus trabalhos abundantemente solicitados por teatros oficiais, pelo teatro comercial e por salas alternativas.
De referir, apenas como apontamento de interesse particular, a sua adaptação do “Ensaio sobre a cegueira” de José Saramago, representado no teatro Fígaro de Madrid, um dos muito abundantes momentos da sua obra, a qual se afirma como das mais comprometidas com o teatro do seu tempo. Criador de teatros e de Teatro, director desde 1958 do Teatro Espanhol Universitário de Valência, foi nomeado recentemente director artístico do prestigiante Teatro Metastasio Stabile della Toscana em Prato, perto de Florença, entre muitas outras distinções mencionáveis.

Conquistar público não é fácil e o verdadeiro humor também é difícil

Numa cidade como Coimbra, frequentemente visitada por companhias de “grande sucesso”, que reduzem tudo à acessibilidade num afã de “conquistar público” sem olhar a meios, José Sanchis Sinisterra representa um exemplo de exigência autocrítica que recusa a tendência “espectacular” de certa prática teatral, as convenções e os códigos do êxito “garantido” e o pós-moderno esplendor cénico, tão espectacular como vazio.
“Perdida nos Apalaches” é uma comédia de contornos filosóficos apresentada pelo Teatro das Beiras, com encenação de Gil Salgueiro, que nos poupa a uma abordagem demasiado hermética dos segredos da matéria, da energia, do espaço e do tempo que o texto possibilitaria, optando por uma ilustração sugestiva dos usos que governam a sociedade e por uma revisão das regras convencionais que regem a tradição narrativa.
Aludindo às teorias da relatividade e da física quântica, com uma incursão substancial no universo absurdo configurado na obra de Franz Kafka, o grupo da Covilhã compatibiliza humor e complexidade de níveis de narração com eficácia dramatúrgica e clareza de propósitos estéticos.
A cenografia é muito simples, mas tem o privilégio de trazer consigo um daqueles apetrechos mágicos que o verdadeiro teatro tantas vezes produz, para proveito de quem assiste: um espelho ondulado onde se reflectem adereços vulgares, transfígurados em seres sinuosos e pinturescos, cheio de contornos luminosos e deformações de requintado efeito.
Nos momentos mais altos em que a trama se desenvolve ao nível duma “twilight zone” ou quinta dimensão, que compatibiliza espaços e tempos distintos em aproximação romanesca da maior candura, a luz azul varre lá atrás planos de indeterminação, tornando-se evidente que não são os mais requintados meios que produzem milagres de efeito, mas sim a imaginação pura condimentada com talento.
A figura do “Segundo Vice-secretário”, invulgarmente bem caracterizado por Miguel Telmo, tem a virtude de conferir unidade e substância a todo o espectáculo, pelas intervenções bem colocadas no entrecho como elemento de ligação e, principalmente, ao abrir e encerrar da peça.
Define, com imensa graça, a postura formalista e insidiosa do candidato permanente, do carreirista sem remédio e do elo mais persistente e viciante do “sistema”, cuja truculência ridícula a sociedade tantas vezes impinge como combustível certificado (inevitável?…) do protagonismo político-institucional.
Infelizmente, o desvio burlesco que a figura evidencia nalguns dos seus mais hilariantes apontamentos não fica nada a dever ao amaneirado de certas figuretas da vida real, com a vantagem evidente que não nos mete a mão nos bolsos nem se candidata a figurar na galeria dos príncipes privilegiados deste nosso mundo pouco cómico, mas frequentemente dum absurdo sem limites.

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