“Uma história A Penas”, pelo Trigo Limpo Teatro ACERT, no TAGV

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Acert

Publicado no Diário de Coimbra de 28 de Janeiro de 2006

Em horário diurno e como espectáculo para as escolas foi apresentado este magnífico trabalho de teatro, que em programa é adequadamente classificado como “espectáculo para todos”.
Depois de o ter visto em contexto próprio (na sala onde os únicos adultos seria eu e as professoras dos jovens ali presentes) fiquei mais uma vez ciente das preciosidades do Teatro, mas preocupado com uma certa displicência, ou desacerto, ou falta de preparação com que são vistas e atendidas as realidades da cultura, da sensibilidade e da educação. Sendo excelente a peça, muito bem desempenhada pelos três actores em palco que deram vida a uma multidão de seres; sendo a cenografia fundamentada numa máquina poética engenhosíssima que sofria metamorfoses sem conta e segregava prodigiosa variedade de expedientes cénicos, sempre inesperados e magníficos; sendo tudo isto um facto e ficando muito por dizer da substância do enredo… o milagre da entrega não se processou da forma mais serena e desejável.

Um grupo indeterminado de jovens assistentes, parte significativa já pré-universitários, implantaram insidiosamente um anti-teatro de interferências que nem era resposta inteligente ao trabalho dos actores, nem demonstrava entendimento do que se passava em cena, nem revelava gosto nem respeito pela cultura. Pior do que isso, formaram uma barreira de inquietação malcriada entre o espectáculo e todos aqueles que estavam ali para beneficiar dele, no que tinha de tão inteligentemente construído.
Merece louvor a corajosa impassibilidade mantida pelos actores durante o espectáculo e a alocução comedida, esclarecedora e moralizante feita por um dos mesmos no fim do mesmo, para todos os assistentes. Se este tipo de coisas é frequente, parece ser de bom conselho que o discurso possa ser feito sempre, já agora, antes do espectáculo. E que os professores que tiverem a iniciativa e a generosidade de acompanhar alunos a acontecimentos, muito certamente fora do seu horário de trabalho, gastem um pouco mais do seu talento instruindo antes da hora, para não terem de recriminar depois.
Esta peça, seja dito com verdade, não era nada simples de conteúdos e solicitava também uma introdução explicativa, que não sei se teria sido possível. Seja-me permitido, já não como comentador de actos cénicos, mas como cidadão, sair do drama vivido às avessas naquela sala, para ir dar um passeio breve ao país da utopia:

Suponhamos que entre as escolas e o mundo exterior o diálogo é fluido e metódico, que aquelas recebem os artistas e que visitam regularmente os ateliers e recintos da arte e do teatro.
Sonhemos que as instituições próprias, desde os ministérios às autarquias até à própria família, vivem de mãos dadas e alimentam intensamente essa poderosa sinergia de sinais construtivos da inteligência.
Imaginemos que os professores têm condições nas escolas para organizar esse trabalho com a maturidade, o tempo e a continuidade que o valor da tarefa exige e merece.
Cenas tristes como aquelas que se observaram jamais aconteceriam, porque estariam uns muito bem prontos para dar e outros muito desejosos de receber.
De pouco valerá a pena erguer dedos acusadores e dizer que são aqueles ali que têm a culpa, porque assim e porque assado. Fazê-lo não passa de vingança abstracta e não conduz a soluções.

Certo é que, amanhã de manhã, milhares de professores de turmas espalhadas por todo o país lá vão encontrar aquela minoria de teimosos activistas irrequietos, dispostos ao anti-teatro, à sabotagem hiper-activa, ou mesmo, quem sabe, à delinquência agressiva. Porque terá de ser assim?
Que conceitos de pedagogia, que razões sociais, que solidariedade dos poderes e das forças organizadas será possível mobilizar para que certas comédias de hoje se não transformem em tragédias do amanhã?

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