Romeu e Julieta com encenação de John Retallack, no Teatro Académico de Gil Vicente

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Gravura de Claes Van Visschen (Londres 1616) que mostra o edifício do velho Globe Theater

Gravura de Claes Van Visschen (Londres 1616) que mostra o edifício do velho Globe Theater

Publicado no Diário de Coimbra de 21 de Janeiro de 2006

O teatro, para um sem número de gerações, foi encarado com a convicta gravidade que aproximava o espectador do sentimento de ter encontro marcado com destino, ficando as lendas, os mitos, as referências sentimentais e romanescas marcados a fogo na área indelével da sua memória. Dentre tais referências sobressaem Romeu e Julieta pela candura intensa da paixão que os atraiu e pela crueldade do destino que os separou.
Romeu e Julieta de Shakespeare e do Globe Theater ninguém deve saber ao certo como foram, mas as lembranças que ficaram de tantíssimas suas variantes do passado, de Prokofiev a Tchaikovsky, passando por muitas outras, não parecem receita fácil para as indústrias do espectáculo da actualidade.
O espectáculo que se refere em título teve sala cheia, apresentou elementos de valorização artística de muito bom nível, servindo-se de uma arquitectura cenográfica de boa concepção estética e muito funcional para uma grande variedade de efeitos. A marcação das cenas foi sempre muito fluente, servindo a luminotecnia para acentuar cromaticamente o clima psicológico de cada momento do drama, a que se somava a sóbria e inspiradora presença da guitarra (Vasco Abranches). As cenas de animosidade entre os clãs de Capuletos e Montéquios foram condimentadas com agressividade convincente, “animados” pela agilidade felina dos confrontos de espadachins.
A encenação tem assinatura dum nome muito conceituado e premiado, ainda por cima inglês (John Retallack), e é ele próprio que nos diz, no modesto folheto de apresentação do espectáculo que nos oferece o TAGV, desejar compatibilizar sobre o mesmo palco a tragédia e a comédia, culminando esta última vertente numa sequência “haut en couleurs” protagonizada por um dos mais mediáticos actores em cena (Diogo Infante), que não consigo definir com rigor em termos Shakespereanos nem sei se teria sido a melhor forma de aproveitar o talento e a presença em palco do referido actor.
A própria figura do velho Capuleto (João Lagarto), já perto das cenas mais pungentes da tragédia, entre esposa e ama (figura bem delineada por Custódia Gallego), quer no modo de falar quer no talante de actor, foi acentuando a faceta humorística da parte que lhe coube, com a eficácia expressiva que a sua longa experiência em palco permite, pouco ficando do seu trabalho que nos remeta para o perfil grave de um fidalgo de Verona em sérios cuidados de paternidade.
Receio que estas atitudes tenham contaminado um pouco o estado de espírito de um vasto número de espectadores que assim perdeu a concentração que o espectáculo solicita na área do sentimento e prejudicando-o, sobretudo, no plano do discurso poético, tão inigualavelmente rico nas obras do autor isabelino. Penso que esta mesma orientação pode ter retirado aos próprios protagonistas amantes um certo espaço de afirmação do seu drama grave e heróico, ao morrerem um pelo outro.
Remetidos para a área mais elevada do cenário, ganham em altitude mas perdem na proximidade, rarefazendo-se a emoção que instilam no coração do espectador e deixando-o sem aquele aperto na garganta, aquela lágrima tonta, aquela credulidade artificial na história da morte provisória de Julieta que convence tão pouco, mas que comoveu radicalmente gerações e gerações, porque era essa a sua vontade, a sua ilusão e, quem sabe, a sua necessidade de sentimento.

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