O Passado ao Espelho, máquinas e imagens das vésperas e primórdios da Photographia

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097 Pvista parcial do desdobrável que apresenta o Museu da Física (Universidade de Coimbra)

Publicado no Diário de Coimbra de 25 de Janeiro de 2006

No Museu da Física da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra tem estado patente ao público uma excelente exposição assim inspiradamente designada por Alexandre Ramires, com toda a experiência e conhecimento que lhe são reconhecidos no domínio da história da fotografia e da utilização das imagens.
Traz-nos documentos de preciosa e pitoresca referência ao imenso dealbar da photographia, perdão, da fotografia, e que estimulam a apreciação do novo relacionamento com as imagens que a nossa civilização tem empreendido.
No painel de entrada encontra-se a ampliação dum daguerreótipo executado há mais de 150 anos com uma visão de Santa Clara tal como era naquela remota primeira metade do século XIX.
Chamei-lhe não “um documento” ou “um aspecto”, mas “uma visão” de Santa Clara. É que entre o objecto histórico que trouxe a imagem até aos nossos dias e a sua ampliação a uma escala impensável para os seus contemporâneos, interpôs-se o processo inteligente da sua “escolha” como referencial, autêntica “figura de convite”, preâmbulo ou desafio de quem entrasse para ver.
Por acasos técnicos inerentes à sua antiguidade, uma espécie de cortina ondulante avança sobre a larga paisagem do lado esquerdo e há zonas de erosão em seu redor que lançam sobre o conjunto uma inquietante sensação de mutabilidade. Uma mais demorada reflexão permite pensar numa abertura para a indeterminação ou interferência da subjectividade…
O que significa que tudo o que a exposição documenta, acrescentado por tudo aquilo que entretanto se passou e abre para um futuro sem margens, resulta sempre da qualidade das opções que são feitas, perante cada caso concreto, dos meios que surgem ao nosso alcance.
Alexandre Ramires, ao ter escolhido aquela “photographia” e não outra, efectuou uma escolha para dar ideias, não apenas sobre a resultante de certos descobrimentos surpreendentes, mas do uso da visão para construir uma imagem de nós próprios na envolvente do mundo que nos cerca.

Almeida Garret, em pessoa!…

Entre daguerreótipos presentes há um que retrata Almeida Garret.
Confesso que sempre achei ingénuas e decepcionantes algumas das configurações idealizadas da figura deste expoente das nossas letras.
O invento de Daguerre fornece, apesar da sua antiguidade, resultados surpreendentemente eficazes de veracidade, como comprovam certas ampliações que delas é possível efectuar.
Olhar para Almeida Garret com toda a calidez dum rosto enigmático, mas fortemente expressivo, produziu-me uma emoção estranha e indescritível. A mesma que, ao tempo em que o invento ocorreu, assustou tanta e tanta gente que preferia não olhar essas estranhas imagens que, dir-se-ia, transportavam no brilho do olhar a própria vivacidade da alma.
Para além dos documentos que comprovam a celeridade com que a Universidade de Coimbra (única ao tempo em todo o nosso território) reconheceu e divulgou as novas descobertas, a mostra efectua uma contextualização cultural atendendo a antecedentes e consequentes, algo sugestivo do que se chama a “adesão às novas tecnologias”, variante da abertura a tudo o que é novo, mas sabendo escolher entre o que é interessante e produtivo e o que é supérfluo ou de falso efeito.

O lixo visual e o aviltamento dos imaginários

Depois do encontro com a lanterna mágica, com o microscópio de projecção, com as câmaras e vistas ópticas, a estereoscopia, a câmara obscura e a câmara lúcida; depois de aflorar o universo de certas palavras mágicas, os calótipos e papéis salgados, o colódio e as albuminas, as “mouse trap” de Fox Talbot; depois de rememorar nomes de insignes agentes de cultura – alguns injustamente esquecidos – como Antonino Vidal, Joaquim Augusto Simões de Carvalho, Joaquim Possidónio Narciso da Silva, o visitante será impelido a questionar a abundância sem limites de imagens nos dias de hoje e as opções a fazer perante a oferta devastadora que tem ao seu alcance.
Será que conseguimos fugir de forma eficaz à trivialização da imagem do mundo, evitando o empobrecimento ou até aviltamento do nosso próprio imaginário?
Saio da exposição já tarde escura, entro num luxuoso (mas atrasado) autocarro munido de écran que despeja imagens promocionais surtidas de “spas”, “health resorts” e “trainning centers” por sobre uma multidão sisuda de cidadãos ansiosos de chegar algures.
Passo ainda pela fachada da catedral futebolística da cidade, agora com a sua “óvnica” arquitectura cada vez mais submersa por estridentes painéis publicitários com centenas de metros quadrados de imagens sem nexo ou cabimento estético-urbanístico.
Recordo o que me disse Alexandre Ramires a respeito da preservação da memória e da invasão, sem lei nem gosto, do lixo visual.
Oh, como adoece o horizonte entre bosques queimados e anúncios de coisas vãs!…
Oh, que falta sinto de um cidade capaz de acolher hospitaleiramente o meu olhar, sem a buzina esquizofrénica das coisas que não preciso e a beleza artificial dos estereótipos sem alma!…

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