Acabar muito bem o ano sem ter de ir a um “réveillon”

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087 p Trabalhos de Betty Woodman presentes na exposição no MNA, “Vista de uma janela no Verão”, jarras divididas, faiança vidrada, resinas epóxidas, laca e tinta; 103x98x26 cm

publicado no Diário de Coimbra no dia 9 de Janeiro de 2006

Julgo que uma das tarefas mais difíceis para o cidadão dos dias de hoje é a de procurar libertar-se das fatalidades mercantilistas e mediáticas que nos “oferece” a sociedade.
Inicialmente destinadas a tornar fácil, aprazível e, se possível, requintada “a qualidade de vida”, certas encenações parecem-me, cada vez mais, rituais monótonos e completamente anestésicos da consciência activa, seja o que for que assim procure designar-se, com a única virtude aparente de constituírem “bons negócios”.
O Natal e o fim de ano são um período ideal para exercitar o direito, ou melhor, o privilégio, de “fazer outra coisa”, de “não ir por ali”, não tendo de nos sentirmos frustrados por não haver absolutamente nada que comemorar.

Sintra, para ver algumas coisas raras

Sintra está visto. Mas muitos do que falam assim nunca foram ao Parque de Monserrate, passeando calmamente através da humidade preciosa que alimenta fetos, cascatas, árvores assombrosas e o antiquíssimo relvado, de forma a estarmos ali como num cenário de outro mundo. O palácio em si, contrariamente ao que nos afirmam folhetos e oficiais de turismo aparentemente muito conhecedores, não é visitável. Mas esse é apenas um de não poucos disparates a que terá de habituar-se o visitante do nosso património artístico e cultural.
Poucos metros à frente, a Quinta da Regaleira, em cenário fantasioso oferece a ressonância dúbia de secretas e ocultas mitologias, essas nada menos que exóticas.
No Sintra Museu de Arte Moderna (por quanto tempo ainda museu, e por quanto tempo ainda de arte moderna?) encontra-se uma magnífica exposição (Fernando Lemos e o Surrealismo) que efectua o cruzamento muitíssimo bem documentado da obra daquele grande artista com um conjunto riquíssimo de obras do referido movimento que pertencem à colecção Berardo. Apoiada por um excelente catálogo de preço moderado, proporciona uma longa e proveitosa visita, através não apenas de salas espaçosas e abundantemente preenchidas, mas também de uma época e de um tempo cujas implicações e potencialidades culturais e estéticas se encontram bem longe de estar prontas para a ultrapassagem da indiferença ou para a heresia da insensibilidade. Para ver até 30 de Abril.

A planície de Setúbal e os seus inesgotáveis horizontes

E a península de Setúbal, também está visto? Por mais que se regresse e sempre que se explore, concluir-se-á o contrário.
À Quinta da Bacalhôa, em Vila Fresca de Azeitão, acontece um pouco o mesmo que ao Palácio de Monserrate. Está tudo muito bem explicado num folhetozinho raro, que é preciso marcar visita com 24 horas de antecedência, mas se não fosse a gentileza tolerante de quem toma conta, bem tínhamos dado com o nariz na porta. Valeu-nos na canseira de andar à procura da visita um restaurante mesmo ao lado que não deixa ficar por mãos alheias a hospitalidade gastronómica dos povos da região, o belo vinho e a simpatia do acolhimento.
Do cimo do castelo de Palmela vê-se quase todo o mundo, incluindo terra, mar e céu. E também se vê Setúbal, que é para lá que vamos deixando atrás uma riqueza imensa de monumentos, igrejas preciosas recheadas de painéis de azulejos, paredes de branco ancoradas na terra plana do que já é, sem equívocos, terra alentejana.
Numa casa minha conhecida, o antigo edifício do Banco de Portugal, espera-me outro momento de entusiástico requinte: a exposição “Descobrir o Japão, de S. Francisco Xavier a Wenceslau de Morais” contém, além de outras coisas, um conjunto de estampas japonesas da colecção de Manuel Duarte Paias, apresentado como “o armário milagroso” de Wenceslau.
Tais gravuras (Ukiyo-e, expressão japonesa que significa “imagens do mundo flutuante”) terão, segundo alguns, origens numa visão budista da vida, e são certamente imagens do mundo que passa ou cenas da vida corrente em visão mais vulgarizada.
O que lhes não falta contudo é uma inenarrável beleza, manifesto inesgotável e transbordante da observação penetrante e sublime duma cultura distante e distinta, saturado duma aplicação ao trabalho estético que empolga e inspira. Mostra patente até 28 de Janeiro.

O Museu do Azulejo, mais uma vez, porque não cansa

Os azulejos reflectem, à nossa medida e de acordo com o sentido criador da nossa sociedade, imagens dum certo nosso “mundo flutuante”, com tudo o que a expressão possa carrear consigo de leveza poética. Não tão estrenuamente disciplinada, tantas vezes decadente e até vilipendiada, é essa a nossa versão das coisas e não adianta chorar.
Para além dos trabalhos de história, conservação e restauro já patentes em Lisboa na Igreja da Madre de Deus, muito bem documentados num livro que podia comprar-se em Dezembro com desconto especial, no Museu é possível ver-se ainda até 2 de Abril uma excelente exposição da artista americana Betty Woodman que, por si só, mereceria uma outra crónica por inteiro.
A mostra, muito poderosamente patrocinada, parece-me no entanto sofrer do mal de muitas coisas belas e excelentes que existem neste nosso precioso rectângulo: muito se fala da parra seca e muito pouco se diz da uva sumarenta.
É por essas e por outras que eu passei o ano em boa companhia, comentando com regalo a leveza poética do “Cirque du Soleil” que deu no segundo canal, evitando a selecta carraspana dum qualquer caro “réveillon” de requintes duvidosos e vinho espumoso fora do prazo de validade, já para não falar na miserável programação televisiva dos solitários, dos pobres e dos esquecidos que só vêem os canais da “grande” audiência político-futebolística.

.088.1-P

capa da exposição referida, AERSET – Edif B. de Portugal, Setúbal

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