O CAPC, as árvores da Sereia, seu movimento, instabilidade e conflito

.

publicado no Diário de Coimbra no dia 12 de Dezembro de 2005


As minhas visitas à Casa Municipal da Cultura são geralmente complementadas com uma descida das escadas que, pelas traseiras, conduzem à sede do CAPC, instituição cuja acção pertence à memória da cidade de forma indelével mas cuja presença aparece persistentemente nimbada por uma inexplicável cortina de alheamento.
Não faz parte do intuito que anima estas “conversas” o propósito (ou a menor possibilidade) de registar de forma ainda que sumária a importância histórica do CAPC.
Se forem observados os percursos curriculares de uma notável quantidade de artistas de respeitável projecção, é seguro terem registado uma presença nas galerias do CAPC, havendo ainda uma inteira geração de artistas que passaram por Coimbra cuja aprendizagem oficinal teve lugar naquela que foi uma academia aberta aos mais variados horizontes da criatividade e do interesse pelas artes plásticas.

Túlia Saldanha, uma presença inesquecível

No dealbar dos anos setenta, quando cheguei a Coimbra, o CAPC era ainda procurado por interessados praticantes que aqui vinham propositadamente frequentar os seus ateliers, sendo dignificante em futuras carreiras artísticas a menção desse facto nos curricula respectivos.
Datam dessa década e da seguinte as visitas que ali fui fazendo, sendo para mim do maior significado a excelente convivência artística e cultural que pude travar nas antigas dependências da Rua Castro Matoso com artistas como Túlia Saldanha e Inês Paulino, para citar apenas dois nomes distintos.
O período seguinte foi caracterizado por convulsões e acontecimentos do mais variado teor que evidenciaram o Círculo como centro de realizações, debates, encontros, participações activas, sessões de divulgação, confronto de atitudes, etc.
As mudanças registadas, no percurso das quais o infausto desaparecimento de Túlia Saldanha não deixou de ser um notável ponto de viragem, associaram-se ao montante geral de transformações da própria sociedade, apagando de forma duradoura aquilo que fora e não mais voltou a ser.
Até aí ligado ao convívio artístico e à aprendizagem e divulgação oficinal das artes com carácter plural e de acentuada modernidade, o CAPC situou-se a partir de então no horizonte da “emergência” da arte contemporânea, numa tendência conceptual que acentuou a “desmaterialização” da arte e o isolamento progressivo da instituição, tendo alguns dos seus mentores mais avançados – o que não deixa de ser curioso – liderado a eclosão do que hoje é um importante núcleo universitário privado do ensino de Belas Artes.
A presença do CAPC na agenda de acontecimentos da cidade tem sido regular e coerente, o novo espaço que lhe foi há anos confiado pela autarquia é de concepção arquitectonicamente qualificada, dispõe duma interessante biblioteca, um raro escaparate de publicações sobre arte e as realizações que ali são levadas a cabo evidenciam um inequívoco aprumo de forma, com elementos de apoio e documentação da maior qualidade gráfica.
O conjunto de tais razões não permite, pois, que nenhuma pessoa interessada pelo fenómeno artístico possa ignorar o CAPC, sendo para mim desconfortável registar uma elevada taxa de desconhecimento sempre e cada vez que menciono o historial e a actividade do mesmo a pessoas do clima coimbrão.

A exposição de Gabriela Albergaria, “mouvement instability conflito”

A exposição que decorre ainda é ensejo para uma visita que deverá ser muito atenta e abundantemente apoiada na leitura dos materiais de apoio fornecidos.
Todo o vasto percurso da artista e o elenco de intencionalidades veiculado pelos dois projectos “site specific” no Jardim da Sereia escaparão ao visitante casual que se arrisca a conceber como nuclear a ideia de “exposição de desenhos e fotografias”, com tudo o que a mesma transmite, aliás, com invulgar sentido de qualidade estético-decorativa.
Será porventura nessa disfunção ou afastamento entre a volumetria do que é proposto e o conteúdo real do que é mostrado que haveremos de situar algum desentendido alheamento dos públicos relativamente a esta como a outras realizações do CAPC, geralmente afectadas pela dificuldade de leitura que nos oferece a arte contemporânea, no contexto de características próprias já anteriormente abordado nesta coluna.
A esta realização não falta porém, desta vez, um elucidativo texto (da autoria de Mark Gisbourne) que nem é exageradamente conceptual ou de gongórica redacção (o que é frequente em acontecimentos de arte contemporânea) nem carece de abertura perante duras realidades (o que é raro nesse mesmo contexto), neste caso, da tragédia dos fogos em Portugal.
Por parte da obra aqui apresentada pela autora não se torna explícito esse nível de preocupações, assinalando o texto referido um intencionado minimalismo deliberadamente afastado de propósitos didácticos, outra marca da contemporaneidade, “sem qualquer ensinamento ou pregação em relação aos danos que presentemente provocamos na natureza”.
Mark Gisbourne prossegue esclarecendo que “…as pessoas não são forçadas a ouvir mas são levadas a pensar…” e eu limito-me a fazer votos de que assim seja, já não digo em proveito de todas as florestas portuguesas, mas pelo menos para bem duma insulada e decadente zona verde chamada Jardim da Sereia, de tão lindo nome e de tão desvalorizada utilidade urbana, tão ameaçada pelo desleixo da incultura como pelos vendavais do nosso descontentamento.

One thought on “O CAPC, as árvores da Sereia, seu movimento, instabilidade e conflito

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s