Uma visita à Figueira da Foz, através das verdes planícies de antes do mar

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publicado no Diário de Coimbra no dia 4 de Dezembro de 2005

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Não é a primeira vez que me refiro a iniciativas que têm lugar na Figueira da Foz, em Cantanhede e até em Aveiro, tendo recolhido nota do interesse e da curiosidade de bom número de leitores. Encontro-me aliás em falta com o comentário de duas realizações notáveis ao alcance de poucos Km. Refiro-me à exposição “A nova vida das Imagens” patente no antigo edifício do Banco de Portugal em Leiria e à recentemente instalada e muito valiosa colecção de José-Augusto França, em Tomar.
O aproveitamento de tais horizontes poderia estar organizado pelas próprias instituições, municipais ou de outra natureza, mas a “falta de meios” (ou coisa que os valha) e o acentuado espírito paroquial erguem cortinas pesadas onde poderia haver janelas bem abertas. Quanto às agências de viagem e ao turismo organizado, isso é para destinos mais “exóticos”, naturalmente.

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A elegância fenecente do Paço de Maiorca

Viajando na estrada velha por aquela recta das pontes em arco que às vezes se enche de água de um lado e de outro, acabo por descobrir em Maiorca uma pequena praça ornada de velhos candeeiros de ferro pintados de verde como os que havia por todas as cidades quando eu era pequeno. De um dos lados ergue-se com imensa dignidade e elegância o Paço de Maiorca, que um site na Internet me havia garantido ser visitável, com preços de entrada, horários e tudo.
Mas qual quê! O monumento está para ali à sombra das memórias do seu passado glorioso, encerrando em segredo tesouros de notável valor patrimonial (painéis de azulejos, papéis chineses pintados “et alia”) revelando, detrás dos muros, jardins interiores entregues ao descuido espontâneo da natureza.
Há bem poucos anos frequentado por distintas personagens dignas de história e detentoras de fortuna, encontra-se agora pendente das indeterminações inexplicáveis dum país ensarilhado por “deficits” abissais, que poupa tanto no farelo que se dá ao luxo de estragar na farinha!

O artista Filinto Viana junto de um trabalho seu

O artista Filinto Viana junto de um trabalho seu

Filinto Viana, um artista sem atelier

Já na Figueira da Foz encontro o meu amigo Filinto Viana, digníssimo artista e pintor profissional a braços com o problema temporário, que terá de resolver por si mesmo, de não dispor de atelier. Os artistas são como os palácios de secreta memória, penso eu, abandonados à sorte do seu labor, sem contar com providências porque não há donde elas venham.
Como é que uma sociedade se permite ao luxo de ter um artista destes sem o recurso elementar dum local para produzir o seu trabalho? Pelos vistos muito bem, exactamente da mesma forma que negligencia o seu património e o deixa mergulhar na óbito da inutilidade.

A galeria “O Rastro”

Passo com Filinto pela galeria de Beja da Silva, onde esperam o visitante uma enorme quantidade de obras espalhadas por três pisos, que tive o privilégio de visitar contando com a companhia e com a cumplicidade do artista que sabe ver, que sente a pintura como um fenómeno tão natural como a sua própria respiração e com quem troco considerandos sensibilizados e libertos de preconceitos.
Ver a pintura de Filinto Viana, que está sem atelier, fica para outra vez. Vou até Buarcos pagar uma promessa de visita à exposição de Fernando Campos que se encontra na MAGENTA – Associação dos Artistas pela Arte, casa onde se pressente a vibração de interesses artísticos humanizados, longe do luxo envernizado das instituições de poder.

"A Batalha de Huambo" 1993.2

“A Batalha de Huambo”, de Fernando Campos, 1993.2

Fernando Campos na Magenta

Fernando Campos, além de outras experiências de pesquisa estética na área da escultura (“Achados”) apresenta o mesmo tipo de trabalho desenhístico que esteve patente numa interessante exposição colectiva de artistas da Figueira, mostrada recentemente na Casa Municipal da Cultura em Coimbra, cujos visitantes lamentavam a falta do elementar amparo de um catálogo com documentação adequada a respeito de obras e de seus autores.
O traço a carvão do artista solta-se de modo espontâneo em busca da forma desejada, sem a preocupação de ocultar alguns dos gestos estruturantes da ideia, o que confere ao “risco” das figuras que encontra, uma “vibração” ou um “movimento” que as torna por vezes imponderáveis. Figuras essas, aliás, frequentemente marcadas pela estranheza de reduções e acentuações de perfil, o que as coloca entre o misterioso e o inquietante.
As fisionomias, os membros, as máscaras e todo o conjunto de símbolos aparecem reforçados por tonalidades cromáticas diluídas, mescladas e expressivamente compostas, condizentes com o universo de conteúdos que gira em torno de preocupações culturais e humanas de respeitável densidade.
A exposição resume-se a um número não muito abundante de obras de Fernando Campos, artista de largo e variado percurso, recheado de episódios significativos de valor estético. Fica prometida outra visita, portanto, que permita documentar melhor uma obra que evidencia uma abundante percepção da cultura artística dos nossos dias, no que ela tem de fenómeno plural, problemático e estimulante.

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