Arte contemporânea, na sub-cave ou perto das nuvens?

 

publicado no Diário de Coimbra no dia 04 de Novembro de 2005

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Tenho à minha frente três convites endereçados durante o mês de Outubro para outros tantos e diferentíssimos acontecimentos de arte contemporânea.
Reservando um deles para tratamento ulterior, por especialmente significativo (inauguração da Galeria Sete), considero hoje a exposição “e = mc2 Representações da ciência na arte contemporânea”, patente no Colégio das Artes e uma, a meu ver, mal designada exposição de “pintura contemporânea”, que tem lugar na Casa Municipal da Cultura.
Sem desconsideração por alguns dos trabalhos ou pelos artistas expostos, venho alertar para uma questão que já não deveria ter lugar em parte nenhuma: o equívoco de ser tomado à letra o termo “arte contemporânea”, fora da categorização crítico-histórica respectiva, por muito conveniente que isso possa ser promocionalmente.

Exposições de arte sim, “pendurações” de quadros não!…

O evento, sabemo-lo por ter lido no convite, deve-se ao apoio de uma galeria de arte. Tendo esse facto toda a legitimidade, não exime de responsabilidades a entidade cultural pública, que deve garantir para cada realização um nível de coerência programática, aqui revelada como inteiramente inexistente. Aos olhos do visitante ressalta o anonimato da realização, carente de catálogo ou outro apoio de carácter documental.
As obras expostas não constroem um conjunto equilibrado, são duma assimetria estética evidente, situando-se na sub-cave dum entendimento amadorístico de “promoção cultural”, em nada alinháveis com a ideia de arte contemporânea, até pelo facto de se apresentarem doméstica e maioritariamente sujeitas ao “compromisso” da moldura.
Saio da Casa Municipal da Cultura e dirijo-me, escadas monumentais acima, para mais perto das nuvens, entrando no largo claustro do Colégio das Artes ornado de peças de arqueologia industrial e azulejos que acusa, em toda a dignidade das suas proporções, aquela negligenciada decadência de tanto do nosso património.
Ali sim, não há dúvidas, estamos perante uma exposição de arte contemporânea que, não menos que a ciência, é um domínio de interesses afastado da vulgaridade; facto que nos oferece, sem surpresa, uma convergência intrincada de leituras, com catálogo da mostra anunciado lá para o fim da mesma.
Se tal edição interessa sobretudo às entidades promotoras e aos artistas, para efeito de auto-representação, o facto não deixa de sinalizar o desinteresse pelas audiências e a dispensa de comunicabilidade atribuídos à arte contemporânea, que opta por um público restrito ao qual requer uma peculiaridade específica de atitude. Donde o conceito de “obra aberta” defendido (há mais de quarenta anos…) por Umberto Eco, segundo o qual a mesma pode ser considerada como uma “metáfora epistemológica” e a sua interpretação uma interacção comunicativa entre artista e destinatário.

Todo o mundo é composto de mudança

A arte contemporânea propõe uma radical mudança de atitude cuja matriz vem das primeiras décadas do século passado (Dada e Marcel Duchamp) e se corporizou no decurso dos anos 60.
Nada tem a ver com a tradicional produção de “objectos estéticos” que procuram fixar o olhar reverente mediante “representações” afinadas por primores do “saber fazer”.
No ritualismo da “performance” situa-se um dos momentos essenciais duma procurada “desmaterialização” da arte, na qual o artista e o seu gesto se substituem à obra, no palco duma luta utópica “para regenerar a existência”.
A arte contemporânea tem vindo a afirmar-se durante as ultimas quatro décadas junto dos principais centros de decisão e promoção das artes. É conhecida como expressão do ideário pós-moderno, coincide com a era da globalização, com a apropriação duma forte componente tecnológica (arte-vídeo, arte-informática, etc.) e não menos reflecte os posicionamentos das políticas neo-liberais.
Uma afirmação tão categórica não tem sucedido sem polémicas, algumas de histórico e contundente efeito. Quem permanece atento é bem conhecedor desses factos, apenas algumas almas simples parecem incólumes ao decorrer de tão acidentados percursos…
Aliás, como qualquer outro movimento artístico-intelectual, tem os seus pontos fortes, os seus pontos fracos e os seus “pontos zero”!
Muito embora os curricula de alguns intervenientes que conquistam a certificação de artistas contemporâneos estejam recheados de referências notáveis, o que só uma conveniente inserção estratégica pode garantir, também aqui se nota a raridade de ideias genuínas e a super abundância de repetições e falsificações, algumas a evidenciar a auto-suficiência de um novo e fatalmente ultrapassável academismo, ao qual nem sequer falta, como já vimos, uma apreciável antiguidade.

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