A “Paleta Inacabada” de Telo de Morais e duas exposições de Verão

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TMor

publicado no Diário de Coimbra no dia 01 de Outubro de 2005

Telo de Morais entregou-me o seu livro às portas dum Verão alucinante e eu juntei-o à bagagem confusa duma saída para dentro, simulacro de férias que nunca são, pretexto de evasões inconsequentes e breves.
Por sobre os textos da obra fiz, como tantas vezes acontece, um voo rasante à máxima velocidade dos motores da curiosidade e da surpresa.
Ficou-me uma primeira página do prefácio de Rocha de Sousa, encadeado de conceitos que apontam em todas as direcções do encanto e da razão dos sentidos, no múltiplo significado que a palavra tem.
Em Rocha de Sousa cada frase é como o obturador vertiginoso que abre sucessivos planos sem dar tempo a um para que se fixe o outro, gerando a totalidade de impressões uma fecundidade intertextual que convida à reflexão, e ilumina o mundo de policromias sem margens.
Ficaram-me depois a sucessão de intervalos fotográficos que a obra apresenta, sugestão de dramatismos celestes, “retratos de céu” que sugerem um instante suspenso, algures, entre a plenitude da tarde e o segredo de horizontes inquietantes, embalados de negro.
Por fim as trinta visitações da sempre inacabada paleta, resultantes dum pluralismo de gosto sem preconceitos e duma memória sem fronteiras que convidam à análise, linha por linha, dos referenciais vividos e das sensações participadas.
O livro de Telo de Morais fornece, nesse sentido, não uma legenda explicativa, um amparo caracterizador ou itinerário do gosto. Cada texto é como que uma corda musical deixada a vibrar por ondas de choque da visão complexa de pinturas, desenhos, etc, e da teia de relações que tais objectos mantêm com a própria vida.
Os nomes, as referências factuais e de contexto serão, ao gosto e de acordo com as armas de cada um, pontos de partida ou de chegada, ancorados algures entre a visão crítica e a sensibilidade poética.
Ter assumido o risco de mencionar, junto de cada texto, o nome ao qual o mesmo diz respeito, remete para o carácter que a obra tem de referencial de uma forma de arte e de um tempo simultaneamente próximos e longínquos do nosso. Tempo nosso habitado por homens que se apressam, talvez precipitadamente, em colocar na prateleira do passado um imenso património semioculto e precioso.
A “Paleta Inacabada” de Telo de Morais vem precaver-nos contra o risco do esvaziamento e da ausência. Mas não é só por isso que continuo a lê-la, agora que se despede o Verão.

O Chiado com Torga e o Pavilhão de Portugal com Inês

O Museu do Chiado apresentou “Novos Olhares” que reuniu principalmente obras de artistas que cursaram a EUAC, no espaço concentrado de que a galeria dispõe.
Telo de Morais, no texto de catálogo, efectua um trabalho generoso e muito atento que pretendeu compatibilizar as obras expostas com o universo Torguiano, que alguns visitantes terão tido dificuldade em associar com o clima estético que a exposição propunha.
Julgo não ser essencial a concretização de tais associações, se cada uma das peças puder trazer-nos algo, mesmo que francamente alheio às vivências imediatas que a literatura de Torga sugere.
O mesmo risco não corre, por exemplo, a exposição que esteve patente no “Pavilhão Centro de Portugal”.
O tema eleito, “O nome que no peito escrito tinhas”, cingiu-se bem à teia de significados propostos pelas obras vistas sem perda de variedade e interesse das abordagens estéticas.
Já são várias as exposições de qualidade que vi naquele pavilhão e que beneficiam do luxo de espaço e luz natural indirecta que a notável peça arquitectónica proporciona.

Exposições colectivas e riscos inerentes

Certas exposições colectivas, sejam ou não de Verão, transportam consigo, por vezes, uma contradição esquisita que contraria uma das mais simples regras da matemática: a de que um conjunto é perfeitamente igual ao somatório das partes.
Há obras que se “desajudam” tanto umas às outras, que fazem com que “tirá-las” teria sido melhor do que “pô-las”, o que conduziria ao drama de haver mostras representando autênticos “conjuntos vazios”, o que não é de modo nenhum o caso vertente.
É certo que Ana Vidigal, Catarina Campino, Joana Vasconcelos e Rui Sanches por um lado e Costa Pinheiro, José de Guimarães e Pedro Proença por outro, não deixam de ser astros de galáxias muito distantes.
Mas as engrenagens alusivas que cada um elabora na perspectiva do tema permitem não somente uma viagem através do drama Inesiano, bem como propiciam localizar as coordenadas de evoluções plásticas e ideológicas bem colocadas no devir das artes visuais.
Nem todas as exposições têm, contudo, os meios que poderá ter tido esta, com tão altos patrocínios e com tão amplo terreno de escolha das obras a mostrar.
A Exposição reparte-se por dois conjuntos, patentes em Coimbra e Alcobaça, sendo desejável que se efectue uma rotação dos mesmos, sem o que ficará truncada a imagem que nos fica da totalidade do acontecimento. Aguardemos pois.

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