60 minutos com Brecht, no TAGV, em produção invulgar

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publicado no Diário de Coimbra de 23 de Setembro de 2005
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O potencial activo da produtora Margarida Mendes Silva e os critérios de encenação de Clóvis Levi podem repousar de consciência tranquila: a evidência das imagens multimediáticas que precedem o entrecho deste Galileu Galilei não permitirão ao espectador mais distraído olvidar o estado geral do mundo entregue, como mais ou menos sempre esteve, à barbaridade atroz da violência e da injustiça.
As hordas organizadíssimas dos exércitos, os cadáveres desmembrados despejados sem dó para as valas comuns, a criança em chagas, tremente de pavor e desamparo, e a maldita eficácia dos angulosos “Stealth airplanes” prontos a despejar “bombas inteligentes” em qualquer parte do mundo, tudo por ali passa, não esquecendo o demoníaco apocalipse duma bomba termonuclear em plena demonstração de “realismo” incontestável. O testemunho de Brecht e as suas mais legítimas preocupações não poderiam estar melhor acautelados!

Peças de teatro há muitas

Que me perdoem contudo os meus mais assíduos leitores, mas não foi uma peça de teatro “qualquer” que me levou ontem ao Gil Vicente.
O que eu lá fui ver foi três rapazes de Coimbra, artistas de mão cheia, daqueles raros a quem o destino parece não regatear o instante fugaz da merecida consagração, um dos quais leva tão a sério a servidão da arte que pratica ao ponto de se ter dado ao luxo de ressuscitar (sem aspas) para retomar a peça no ponto em que a havia deixado, alguns meses atrás. O médico dele lá estava, camuflado entre os assistentes, à cautela…
Elencos assim talvez os tenha apresentado o Globe Theater de Shakespeare, a coruscante Broadway, quem sabe o próprio Berliner Ensemble de Brecht!… Mas desta feita, por vida minha, e com assistentes mais que curiosos e expectantes, literalmente suspensos da fala do Actor, esta foi uma vez rara e excelente.

“A verdade é filha do tempo, não da autoridade”

Dizia alguém que sabe das coisas que Fernando Taborda amanhã vai estar mais seguro e que vai fazer muito melhor (“…o problema dele era saber se aguentava a peça… “).
Eu sou do parecer contrário: melhor que ontem nunca mais faz na vida, por ter representado com bravura no fio da navalha, essse espaço exíguo em que cada passo dado é uma conquista e chegar ao fim uma vitória irrepetível.
As suas mãos frágeis de dedos flutuantemente finos, a sua voz ora aveludadamente insegura ora convictamente afirmativa, e o sorrir de quem canta uma canção de Kurt Weil sabiamente ausente incorporaram tão bem a personagem que, a partir de certa altura, já ninguém dava conta de onde acabava Fernando ou começava Galileu.
De Rui Damasceno e Victor Torres poderá dizer-se que criam uma abundante galeria de figuras espirituosamente credíveis, esboçadas com verve e invenção num registo optimista, coerente com a “visão clara” da ciência redentora que a versão dramatúrgica coloca em palco, a par da comédia de contradições que o “império da autoridade” impõe à sempre fugidia e contingente “ânsia da verdade”.
Seria curioso e interessante desfiar alguns dos mais bem conseguidos momentos de criatividade cénica, mas não desejo roubar ao leitor que ainda não viu a peça a oportunidade de descobrir por si mesmo este nobre momento de teatro, numa peça que finalmente dá início a uma carreira que se configura longa e plena de sucesso.
Longa vida e óptima saúde a actores e agentes de teatro de que nós, silenciosos e devotados espectadores, também honrosamente fazemos parte!

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